O consumo episódico excessivo de álcool durante a adolescência compromete a fase final de desenvolvimento do cérebro e provoca alterações comportamentais duradouras na vida adulta. Testes realizados na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) apontaram que a ingestão concentrada, caracterizada pelo termo em inglês binge drinking, prejudica a estrutura do córtex pré-frontal e induz maior propensão a assumir perigos desnecessários no futuro.
A investigação com animais contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e gerou artigos científicos publicados nos periódicos internacionais Alcohol: Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior. A coordenadora da pesquisa, Karina Possa Abrahão, professora adjunta do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp, destacou que o sistema nervoso central ainda se encontra vulnerável nessa faixa etária, afirmando que, “embora a maior parte do nosso desenvolvimento como seres humanos ocorra dentro do útero, quando nascemos ainda não estamos completamente formados. E o cérebro é um dos últimos órgãos a finalizar essa formação”.
Efeitos do álcool variam entre machos e fêmeas no início da adolescência
Os pesquisadores submeteram camundongos a administrações de etanol em diferentes momentos da juventude biológica para acompanhar a evolução das condutas. Quando as doses foram aplicadas logo no início da adolescência, os machos adultos apresentaram padrões de risco acentuados em testes laboratoriais, enquanto fêmeas submetidas ao mesmo processo registraram uma ingestão significativamente maior de bebidas alcoólicas na fase adulta.
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Os resultados foram detalhados pela pesquisadora Leticia Souza Pichinin, primeira autora do artigo publicado na Physiology & Behavior, e pela pesquisadora Beatriz Deo Sorigotto, primeira autora do estudo na Alcohol: Clinical and Experimental Research. Ambas integraram a equipe que avaliou como o momento exato da intoxicação etílica interfere nas conexões neurais responsáveis por dosar impulsos e medir consequências diante de situações de perigo.
No estágio posterior do experimento, a substância foi administrada na segunda metade da adolescência dos roedores, alterando os padrões verificados anteriormente. Nessa condição, tanto os machos quanto as fêmeas adultas passaram a exibir falhas graves no processo de avaliação e de tomada de decisão. A constatação contrariou suposições preliminares dos cientistas a respeito de uma suposta proteção biológica conferida ao organismo feminino pelo amadurecimento neurológico mais rápido.
Karina Possa Abrahão explicou a reação do grupo perante os dados coletados: “Fomos pegos de surpresa, porque, quando a intoxicação é feita na segunda fase da adolescência, afeta tanto machos quanto fêmeas. Então, o que a gente achou que tinha protegido a fêmea na primeira fase da adolescência, por ela maturar mais cedo o cérebro, não é verdade. Porque houve o comprometimento da tomada de decisão quando a intoxicação foi feita na fase tardia”.
Protocolo da Unifesp simulou duas bebedeiras pesadas por mês
O desenho experimental foi elaborado para reproduzir situações habituais observadas em jovens humanos que consomem grandes volumes de bebidas alcoólicas de forma intermitente, quase sempre em reuniões sociais nos fins de semana. Nos camundongos, a fase correspondente à adolescência dura entre três e quatro semanas, tendo início após o desmame, por volta do 21º dia, e estendendo-se até o 60º dia de vida.
Cada cobaia recebeu quatro injeções de etanol ao longo desse ciclo vital, estabelecendo um padrão compatível com a expectativa média de vida da espécie. De acordo com os parâmetros do estudo, esse protocolo correspondeu a aproximadamente duas intoxicações agudas mensais ao longo de toda a adolescência de um ser humano, cenário considerado severo por toxicologistas e médicos.
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“O intuito do protocolo era o de mimetizar algumas intoxicações esporádicas muito fortes, que é o que tem acontecido em adolescentes e jovens adultos”, informou Abrahão. A professora da Unifesp pontuou a proporcionalidade adotada na rotina do laboratório: “Reduzimos o número de intoxicações considerando a duração da vida do animal. Em uma pessoa, seria o equivalente a, mais ou menos, umas duas intoxicações por mês durante toda a adolescência. É um consumo muito pesado”.
Prevalência de consumo excessivo de álcool entre jovens atinge 20,5%
Embora a legislação federal brasileira proíba terminantemente a venda, o fornecimento e a entrega de bebidas alcoólicas a pessoas menores de 18 anos, dados epidemiológicos nacionais revelam um índice considerável de episódios graves de embriaguez precoce. O hábito de beber até perder o controle atinge estudantes de ensinos fundamental e médio, ampliando-se nos primeiros anos da trajetória universitária.
Indicadores reunidos no 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira mostram a dimensão do consumo episódico excessivo no país:
- 5% dos adolescentes entre 12 e 17 anos no Brasil relataram ao menos um episódio de consumo excessivo de álcool em um intervalo de 30 dias;
- 20,5% dos jovens adultos com idades entre 18 e 24 anos declararam ter passado por ao menos um episódio de embriaguez aguda no mesmo período avaliado;
- 25 anos de idade representa a estimativa médica aproximada para que o córtex pré-frontal humano termine sua maturação estrutural e consolide a rede de freio inibitório.
A neurobiologia aponta que o córtex pré-frontal coordena habilidades essenciais para a convivência e a autopreservação, tais como o julgamento social, o planejamento de longo prazo e a contenção da agressividade. O atraso provocado por substâncias químicas mantém padrões primitivos de resposta no indivíduo, que tende a ignorar probabilidades de acidentes, violência interpessoal e perdas financeiras.
“O álcool pode causar um prejuízo da maturação final do cérebro, tornando aquele indivíduo adolescente por muito mais tempo, talvez a vida toda. Ele sempre vai ficar se colocando em risco. O adolescente se colocar em risco é normal, mas o adulto continuar fazendo isso é problemático”, afirmou Karina Possa Abrahão ao descrever o impacto duradouro identificado nos animais.
Danos do álcool ao córtex pré-frontal diminuem com o avanço da idade
A apuração sobre o tema, divulgada pela jornalista Sophia La Banca na quarta-feira (23 de setembro de 2026), detalhou que a equipe de pesquisadores também testou os impactos da substância em outras faixas etárias. Em experimentos com roedores cuja idade correspondia a seres humanos de 20 anos, os prejuízos na avaliação de riscos foram bastante próximos aos identificados no grupo de adolescentes.
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O panorama se modifica conforme o encéfalo avança em maturidade estrutural. Em modelos experimentais representativos de indivíduos entre 30 e 40 anos, os danos cerebrais e cognitivos causados por bebedeiras episódicas foram observados em escalas mais suaves do que as registradas na juventude, demonstrando que a estabilização anatômica do cérebro atua como um atenuante relativo contra lesões agudas.
Os mecanismos neurobiológicos exatos que causam a diferença de comportamento entre machos e fêmeas intoxicados no começo da adolescência ainda não foram identificados pelos cientistas e seguem em avaliação pelos laboratórios da instituição paulista. As equipes da Escola Paulista de Medicina da Unifesp prosseguem agora com análises histológicas e moleculares complementares nos tecidos neuronais para mapear os receptores específicos atingidos pelo etanol durante a transição da juventude para a idade adulta.
