Pesquisadores da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), em colaboração internacional com a Universidade de Saskatchewan, no Canadá, identificaram que uma molécula sintética derivada da curcumina paralisa a proliferação do fungo Trichophyton rubrum e regula respostas celulares em ambiente de laboratório. O resultado, difundido em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, aponta um caminho inédito para a contenção do patógeno que lidera as infecções dermatológicas no mundo.
O composto, classificado com o código 2102, demonstrou ação dupla ao frear o avanço fúngico e diminuir a intensidade de processos inflamatórios teciduais. Em pacientes imunossuprimidos ou com diabetes, a espécie fúngica deixa de agir apenas na superfície e passa a gerar infecções profundas e invasivas.
“Nesses casos, os fungos podem ultrapassar a barreira cutânea, atingindo camadas mais profundas, incluindo a derme e a hipoderme, com potencial disseminação para os linfonodos e, em casos mais graves, para a corrente sanguínea”, afirmou a professora dos cursos de Medicina, Farmácia e Nutrição da Unaerp e coordenadora da investigação, Ana Lucia Fachin Saltoratto.
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Ação do análogo 2102 sobre linhagens de defesa humana
Para verificar o impacto do composto em infecções profundas, a equipe submeteu a molécula 2102 a ensaios com macrófagos humanos da linhagem THP-1, células que compõem a linha de frente do sistema de defesa. A substância foi tolerada sem causar citotoxicidade, demonstrando segurança biológica inicial nas culturas mantidas in vitro.
“Usamos uma linhagem celular [de macrófagos humanos] que permite estudar a interação entre o fungo e as células imunológicas presentes nesses tecidos”, explicou Saltoratto. O modelo permitiu observar o comportamento das defesas celulares perante a presença simultânea do patógeno e da molécula sintética.
No período de incubação de 24 h avaliado na co-cultura celular, os macrófagos tratados com o derivado sintético reduziram a liberação das citocinas pró-inflamatórias IL-1β e IL-12. Ao mesmo tempo em que conteve os mensageiros químicos ligados ao excesso de inflamação, o composto ampliou a geração de espécies oxidantes defensivas, armas químicas naturais mobilizadas pelas células de imunidade para degradar estruturas invasoras.
Barreiras biológicas da curcumina natural
A curcumina é o princípio ativo extraído da planta Curcuma longa, popularmente chamada de cúrcuma ou açafrão-da-terra. Embora apresente propriedades biológicas reconhecidas na literatura científica, a aplicação farmacológica direta do produto natural em seres humanos encontra fortes limitações químicas.
A molécula vegetal pura possui baixa solubilidade em água e sofre rápida degradação metabólica no trato digestivo, sendo eliminada do organismo antes de alcançar níveis terapêuticos estáveis na circulação sanguínea. A baixa biodisponibilidade motivou a equipe a testar derivados análogos modificados em laboratório, buscando estruturas mais estáveis e de ação farmacológica concentrada.
O composto 2102 exigiu a menor concentração entre os curcuminoides testados para atingir a inibição completa do crescimento fúngico, superando os obstáculos da fórmula original nos ensaios preliminares.
Histórico do estudo e participação científica
O artigo que descreve as propriedades da substância, intitulado Antifungal, Antioxidant, and Anti-inflammatory Activities of Curcuminoids Toward Macrophages and Trichophyton rubrum Co-culture, foi publicado no periódico científico Current Fungal Infection Reports em 1 de junho de 2026. A pesquisa recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
A formulação do projeto e a execução dos testes laboratoriais contaram com uma rede multidisciplinar de pesquisadores:
- Vanessa Inácia Borges de Sousa, pesquisadora da Unaerp e primeira autora do artigo científico;
- Ana Lucia Fachin Saltoratto, coordenadora do projeto e docente da Unidade de Biotecnologia da Unaerp;
- Mozart Marins, pesquisador da Unaerp e coautor do estudo;
- Jonathan Dimmock, pesquisador e coautor vinculado à Universidade de Saskatchewan, no Canadá.
Resistência farmacológica e etapas seguintes
O fungo Trichophyton rubrum costuma desencadear respostas imunes fracas nos tecidos cutâneos, o que atrasa a reação natural do organismo contra a infecção. Paralelamente, médicos e pesquisadores registram com frequência o surgimento de linhagens do micro-organismo resistentes aos medicamentos antifúngicos convencionais disponíveis em farmácias e hospitais.
Apesar dos dados positivos obtidos em laboratório, ainda não existem datas agendadas nem protocolos aprovados para a realização de testes toxicológicos pré-clínicos in vivo em animais ou de ensaios clínicos com pacientes humanos. A posologia terapêutica final e a forma de administração definitiva do medicamento, seja por meio de formulações tópicas como pomadas ou por via sistêmica com comprimidos, também não foram estabelecidas pelos cientistas.
O próximo passo planejado pela equipe da Unaerp é a realização do sequenciamento genético completo do fungo Trichophyton rubrum a partir de amostras clínicas isoladas diretamente de pacientes atendidos em serviços de saúde.
