O que é o kratom, planta associada a efeitos semelhantes aos de opioides e que preocupa autoridades nos EUA
Autoridades de segurança e de saúde pública dos Estados Unidos emitiram novos alertas contra o consumo de kratom após dois estudantes da Universidade do Mississippi serem encontrados mortos com embalagens do produto. As ocorrências foram registradas em Oxford, no estado do Mississippi, onde frascos comerciais abertos e lacrados da substância estavam nos locais dos falecimentos.
Os comunicados oficiais partiram da unidade Lafayette County Metro Narcotics e do Departamento de Polícia de Oxford. Os órgãos orientaram a população a suspender o uso do fitoterápico e a evitar a ingestão de compostos sem prescrição médica, em meio à disseminação de fórmulas concentradas vendidas livremente no comércio norte-americano.
Detalhes das ocorrências registradas em Oxford
- Data da localização dos corpos: segunda-feira, 21 de setembro de 2026
- Local: Oxford, Mississippi, nos Estados Unidos
- Vítimas confirmadas: Aidan Hamilton, de 18 anos, e Robert Strang, de 20 anos
- Órgãos emissores dos alertas: Lafayette County Metro Narcotics e Polícia de Oxford
- Situação regulatória federal nos Estados Unidos: produto sem aprovação da Food and Drug Administration
O que é o kratom e quais são seus efeitos no corpo humano?
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O kratom é uma substância extraída das folhas da árvore Mitragyna speciosa, espécie nativa do Sudeste Asiático encontrada em países como Tailândia, Malásia e Indonésia. No consumo tradicional dessas regiões, as folhas são mastigadas ou preparadas em forma de chá para combater a fadiga em jornadas de trabalho, mas a exportação do produto para o mercado ocidental alterou os padrões de apresentação e dosagem.
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Nos Estados Unidos, o produto circula sob a forma de pó, líquidos concentrados, gomas mastigáveis e comprimidos comercializados em lojas de conveniência, postos de combustíveis e tabacarias. Essa disponibilidade rápida nas prateleiras rendeu à substância o rótulo popular de heroína de posto de gasolina, impulsionada por versões que concentram o alcaloide 7-hidroximitraginina em níveis muito superiores aos encontrados na planta in natura.
O médico Shane Speights, reitor da Faculdade de Medicina Osteopática do Instituto de Tecnologia de Nova York na Universidade Estadual do Arkansas, explica que a falta de fiscalização dificulta qualquer parâmetro de segurança para os consumidores. Em declaração, Speights afirmou: “Não há como saber exatamente o que você está comprando. Você pode criar algo no seu porão, comercializar como suplemento, e ninguém vai verificar o que tem dentro.” O médico também avaliou a dosagem: “Existe uma dose segura? Minha resposta é não, porque — e vou voltar a esse ponto — não sabemos o que contém.”
Quadro clínico e risco de dependência química do fitoterápico
As propriedades farmacológicas da planta variam de acordo com o volume ingerido. Em doses reduzidas, o material atua como estimulante do sistema nervoso central, elevando o estado de alerta e provocando sensações de euforia associadas à liberação de dopamina. Em quantidades maiores, a substância passa a agir nos receptores cerebrais de forma similar aos opioides pesados, promovendo analgesia profunda, sedação e risco de depressão respiratória ou parada cardiovascular.
Essa dualidade atrai tanto indivíduos que buscam alívio para dores crônicas quanto pessoas dependentes de entorpecentes sintéticos. O lenhador aposentado Jeffrey Deaver, de 58 anos, morador do estado de Washington, utiliza o fitoterápico há quatro anos para tratar desgastes articulares no quadril e no joelho. Sobre o impacto do produto em sua rotina, Deaver declarou: “Foi como um milagre. Eu consegui dormir. Eu consegui funcionar.”
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Especialistas em dependência química apontam que a tolerância orgânica ao fitoterápico se desenvolve rapidamente, exigindo volumes crescentes para atingir o efeito desejado. Jana Wu, diretora de integração clínica do centro de tratamento Mountainside, afirmou que pacientes chegam a tomar 20 comprimidos por dia. De acordo com Wu, “isso afeta casamentos, relacionamentos. Já vi pessoas perderem empregos, gastarem milhares de dólares por mês com isso.”
Tentativa de controle em 2016 e restrições nos estados americanos
A discussão regulatória sobre a planta nos Estados Unidos se arrasta há anos. Em 30 de agosto de 2016, a Administração de Repressão às Drogas, órgão federal de fiscalização de entorpecentes conhecido pela sigla DEA, propôs classificar o kratom na Classe 1 (Schedule I), categoria destinada a drogas de alto potencial lesivo e sem utilidade médica aceita. A agência recuou da decisão meses depois, em razão de manifestações contrárias enviadas por grupos de consumidores e entidades do setor.
Sem uma determinação uniforme da Food and Drug Administration, cabines legislativas locais assumiram a regulação do tema. Ao todo, 11 estados norte-americanos já baniram totalmente a posse e a venda do kratom: Alabama, Arkansas, Connecticut, Indiana, Kansas, Louisiana, Massachusetts, Dakota do Norte, Tennessee, Vermont e Wisconsin. A medida mais recente partiu de Massachusetts, onde o comissário de Saúde Pública, Robbie Goldstein, assinou uma ordem emergencial em 13 de agosto de 2026 inserindo a planta no Schedule I estadual.
No cenário internacional, o controle também é severo. O Reino Unido veda a substância integralmente sob suas leis de produtos psicoativos. Na Malásia, país de origem da árvore, a comercialização e o porte de folhas ou derivados são expressamente proibidos pelos termos da Lei de Venenos de 1952.
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Proibição formal do kratom no território brasileiro
No Brasil, o comércio e o consumo da planta estão totalmente vetados pelo governo federal. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou, em 15 de setembro de 2023, a Resolução RDC nº 816, que atualizou as listas de controle da Portaria SVS/MS nº 344 de 1998, tornando ilegais a importação, o plantio e a fabricação de produtos derivados.
O ato normativo colocou a espécie botânica Mitragyna speciosa na Lista E, referente às plantas que podem originar substâncias entorpecentes ou psicotrópicas, e inscreveu os alcaloides mitraginina e 7-hidroximitraginina na Lista F1, que reúne entorpecentes de uso proscrito no país. Na ocasião do processo regulatório, a avaliação técnica da Anvisa apontou que, “em baixas doses, apresenta efeitos estimulantes, similares aos da cocaína, e pode ser utilizado para combater a fadiga durante longas horas de trabalho. Em doses altas, kratom apresenta efeitos do tipo opioide, incluindo analgesia, retardo do esvaziamento gástrico, sintomas de abstinência, dentre outros”.
Apuração toxicológica sobre os universitários do Mississippi
Aidan Hamilton, de 18 anos, foi achado morto dentro de seu quarto em um alojamento no campus da Universidade do Mississippi. Robert Strang, de 20 anos, foi encontrado sem vida em um imóvel residencial fora do campus universitário de Oxford.
A causa clínica das mortes de Aidan Hamilton e Robert Strang ainda não foi determinada pelos médicos legistas do condado de Lafayette. As equipes de investigação aguardam a conclusão dos laudos dos exames toxicológicos para definir se o kratom localizado nas acomodações provocou ou teve relação direta com os dois óbitos.

