Tratar a periodontite grave com ômega-3 e ácido acetilsalicílico em baixa dose alcança eficácia semelhante ao uso de antibióticos convencionais. A constatação resulta de um ensaio clínico multicêntrico com 109 voluntários acompanhados durante um ano, divulgado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e publicado no periódico científico Journal of Periodontology.
- Pesquisa acompanhou 109 pacientes adultos com periodontite avançada ao longo de 12 meses.
- Taxa de sucesso clínico atingiu 57,7% com suplementação e 58% com antibióticos tradicionais.
- Combinação simultânea de todas as substâncias não apresentou benefício terapêutico extra.
- Trabalho abre alternativa de tratamento contra infecções orais sem agravar a resistência bacteriana.
Magda Feres: periodontite grave afeta tecidos de sustentação e exige intervenção clínica
A periodontite crônica avançada afeta a população adulta em todo o planeta, provocando a degradação das estruturas de sustentação dentária, reabsorção óssea e risco de perda de dentes quando não tratada em tempo hábil. O quadro decorre da proliferação bacteriana abaixo da gengiva, que induz um processo inflamatório agressivo e progressivo nos tecidos bucais.
“Os pacientes com doença grave apresentam bolsas muito profundas, que funcionam como reservatórios para bactérias associadas à doença. É um quadro bastante desafiador de tratar”, afirmou a cirurgiã-dentista Nídia Cristina Castro dos Santos, professora e pesquisadora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein e primeira autora do artigo científico.
O ensaio reuniu equipes do Hospital Israelita Albert Einstein, da Universidade Guarulhos (UNG), da Universidade de Taubaté (Unitau), da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e da Harvard School of Dental Medicine, dos Estados Unidos. Todos os participantes apresentavam quadros graves da enfermidade, classificados nos estágios III e IV.
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Protocolo clínico com 109 pacientes avaliou quatro abordagens terapêuticas
A metodologia dividiu os 109 participantes aleatoriamente em quatro grupos de controle e intervenção. Todos os voluntários foram submetidos previamente ao procedimento de instrumentação subgengival, conhecido popularmente como raspagem, que representa o padrão mecânico inicial de atendimento odontológico. As terapias complementares foram introduzidas a partir de cápsulas idênticas para manter o formato duplo-cego do estudo.
- Grupo placebo: raspagem subgengival aliada a cápsulas sem princípio ativo durante seis meses.
- Grupo antibiótico: raspagem com metronidazol de 400 mg e amoxicilina de 500 mg três vezes ao dia por 14 dias.
- Grupo imunomodulador: raspagem associada a 3 g diários de ômega-3 e 100 mg de aspirina ao dia durante seis meses.
- Grupo combinado: raspagem com o protocolo completo de antibióticos por duas semanas e suplementação por seis meses.
Resultados de 57,7% igualam resposta a antibióticos e combatem resistência
No encerramento dos 12 meses, cerca de 58% dos voluntários medicados com a dupla de antibióticos atingiram o objetivo clínico predeterminado. No grupo que fez uso da suplementação com ômega-3 e ácido acetilsalicílico, o índice registrado foi de 57,7%. Em contrapartida, os indivíduos submetidos apenas à raspagem mecânica e placebo alcançaram 23,1% de sucesso terapêutico. A utilização simultânea de antibióticos e suplementos não trouxe ganhos adicionais.
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Diferentemente dos anti-inflamatórios convencionais, que atuam no bloqueio de vias orgânicas de defesa, o ômega-3 estimula a produção de moléculas especializadas na resolução natural do quadro inflamatório e na recuperação tecidual. A aspirina em baixa dosagem potencializa essa cascata bioquímica celular. Em etapas pré-clínicas anteriores, pesquisadores apoiados pela Fapesp já haviam publicado na revista Scientific Reports que ratos suplementados com o ácido graxo, com suporte de atividade física, registravam menor perda óssea alveolar.
“Nós imaginávamos que a combinação de antibióticos e ômega-3 teria o melhor desempenho no controle da periodontite desses pacientes. Também acreditávamos que o resultado do grupo que usou o ômega-3 com o AAS ficaria um pouco abaixo do grupo dos antibióticos. O resultado foi surpreendente porque as duas terapias tiveram um desempenho muito parecido, abrindo um novo caminho para o tratamento desses pacientes”, declarou Nídia Cristina Castro dos Santos.
A proliferação de cepas microbianas resistentes a remédios constitui uma das principais ameaças globais à saúde pública, demandando o uso racional de substâncias como amoxicilina e metronidazol. A cirurgiã-dentista Magda Feres, autora principal do trabalho, docente da Harvard School of Dental Medicine e integrante da pós-graduação em Odontologia da UNG, apontou a abrangência da abordagem.
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“A combinação de ômega-3 e aspirina em baixa dose alcançou benefícios clínicos comparáveis aos do protocolo com metronidazol e amoxicilina, o que abre uma alternativa real para quem não pode usar antibióticos, especialmente pacientes com alergia ou intolerância a esses medicamentos”, declarou Magda Feres. Segundo a especialista, comprovar que é possível tratar a infecção modulando a resposta do hospedeiro ajuda a poupar antibióticos para episódios em que eles se mostrem imprescindíveis.
Magda Feres: análises microbiológicas em andamento definem próximos passos clínicos
Ainda não foram concluídas nem publicadas as análises microbiológicas finais que avaliam as alterações populacionais específicas da microbiota das bolsas periodontais após o tratamento. Indicadores preliminares apontam declínio de espécies nocivas e avanço de colônias protetoras, com os dados definitivos servindo para consolidar quando a suplementação substituirá o antibiótico nos serviços de saúde bucal.
“É um avanço importante, mas não um ponto final. A mensagem, portanto, é de otimismo cauteloso: temos uma alternativa promissora e cientificamente plausível ao antibiótico em casos selecionados. A substituição de rotina virá com mais evidências”, concluiu Magda Feres nesta segunda-feira (28).
