Fóssil com mais de 45 dentes revela nova espécie de dinossauro na China
O dinossauro terópode herbívoro Kayrasaurus changliensis foi identificado por paleontólogos na província de Liaoning, no nordeste da China, a partir de um esqueleto articulado preservado em rochas de 125 milhões de anos. O animal media cerca de 3,6 metros de comprimento e chamou a atenção da comunidade científica pela presença de uma dentição recorde e garras anteriores com uma crista óssea até então desconhecida.
O exemplar catalogado pertenceu a um espécime subadulto com massa corporal calculada entre 117 kg e 274 kg, dimensão que posiciona a espécie como a maior de sua linhagem já descoberta na Formação Yixian, integrante da Biota de Jehol. A descrição formal da criatura foi conduzida por uma equipe científica internacional e divulgada em 10 de setembro de 2026 no periódico Journal of Systematic Palaeontology.
Dentição densa e garras com crista no Kayrasaurus changliensis
A estrutura bucal do Kayrasaurus changliensis representa a característica anatômica mais marcante do crânio preservado. Os pesquisadores contabilizaram mais de 32 dentes na maxila superior e mais de 45 dentes na mandíbula inferior, configurando a maior contagem mandibular documentada em toda a história fóssil dos terizinosauros. Esses dentes eram diminutos, estreitos e muito densos, arranjados de modo a facilitar o trituramento de vegetação fibrosa de maneira eficiente.
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Além da conformação bucal especializada, as patas dianteiras do animal exibiram uma modificação esquelética incomum nas extremidades dos dedos. Uma das grandes garras manuais curvadas preservou uma crista óssea projetada para a face dorsal, descrita tecnicamente como um lábio sobressalente. Essa projeção anatômica nunca havia sido registrada em nenhum membro da família dos terizinosauros, sugerindo adaptações mecânicas exclusivas para a manipulação de ramos vegetais ou suporte biomecânico durante a alimentação.
A linhagem à qual o réptil pertence reúne animais que divergiram dos demais carnívoros bípedes para adotar regimes vegetarianos. Sobre essa composição singular, o paleontólogo Xing Xu, integrante do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade de Yunnan, explicou a anatomia do grupo em declaração traduzida da pesquisa.
“A Terizinosauria é um grupo anatomicamente bizarro e raro de dinossauros terópodes. Os táxons de ramificação tardia desenvolveram traços incomuns, como uma cabeça relativamente pequena, pescoço alongado, dentes em forma de folha, dentário voltado para baixo e sem dentes na extremidade anterior, garras manuais avantajadas, pélvis larga e opistopúbica, tíbia encurtada e pé tetradáctilo”, afirmou Xu, em tradução livre.
Porte do Kayrasaurus changliensis na Formação Yixian
As análises osteológicas realizadas nos ossos do esqueleto catalogado demonstraram que o indivíduo encontrado ainda não havia completado sua fase de desenvolvimento físico no momento da morte. As linhas de crescimento ósseo e a falta de fusão de certas suturas vertebrais confirmaram a condição subadulta do réptil. Esse aspecto biológico significa que os indivíduos adultos da espécie atingiam dimensões ainda superiores aos 3,6 metros aferidos no exemplar fóssil, expandindo consideravelmente os limites corporais conhecidos para os terópodes herbívoros daquela região asiática.
Antes da descoberta do Kayrasaurus changliensis na aldeia de Dabangou, na cidade de Beipiao, o recorde de tamanho entre os terizinosauros da Biota de Jehol pertencia ao Beipiaosaurus inexpectus, que media entre 2,1 metros e 2,2 metros de comprimento total. O novo achado indica que o animal recém-descrito era cerca de 1,6 vez maior em comprimento do que o antigo recordista, alterando a compreensão sobre a distribuição de biomassa entre os herbívoros do Cretáceo Inferior.
Duas estratégias ecológicas na evolução dos terizinosauros
O achado em Liaoning permitiu aos cientistas mapear divergências ecológicas dentro da mesma bacia geológica. Enquanto terizinosauros anteriores preservavam estruturas corporais mais delgadas, adaptadas para a velocidade e deslocamento ágil em ambientes abertos, o Kayrasaurus changliensis optou por uma rota evolutiva direcionada ao porte corpóreo robusto e à ingestão massiva de material vegetal.
“A integração de dados morfológicos, biomecânicos e de tamanho corporal sugere a presença de pelo menos duas estratégias ecológicas distintas entre os terizinosauros de Jehol: uma favorecendo o processamento oral e constituições corporais robustas, e a outra enfatizando a agilidade”, afirmaram o paleontólogo Chun-Chi Liao e os coautores no estudo veiculado no Journal of Systematic Palaeontology, em tradução livre.
A nomenclatura científica escolhida para o réptil reflete tanto a filogenia quanto a geografia histórica da descoberta. O gênero Kayrasaurus combina o vocábulo Kayra, entidade primordial da criação na mitologia túrquica e pai de Erlik, estabelecendo conexão conceitual com o terizinosauro Erlikosaurus, acrescido do termo grego sauros, que significa lagarto. Já o epíteto específico changliensis rende homenagem à localidade histórica de Changli, relacionada à procedência geográfica do material fóssil recuperado pelos paleontólogos.
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Dados científicos e cronologia do fóssil achado em Liaoning
- Local de origem do fóssil: aldeia de Dabangou, Formação Yixian, Beipiao, província de Liaoning, China
- Datação geológica aproximada: 125 milhões de anos, período Cretáceo Inferior
- Comprimento do espécime subadulto: 3,6 metros
- Faixa de massa corporal calculada: de 117 kg a 274 kg
- Dentição mandibular: mais de 45 dentes inferiores e mais de 32 superiores
- Data de divulgação do estudo: 10 de setembro de 2026
- Equipe de autoria: Chun-Chi Liao, Xing Xu, Lindsay E. Zanno e William J. Freimuth
Limitações anatômicas e próximos passos da pesquisa
Apesar da boa preservação do crânio, das vértebras e das patas anteriores, o esqueleto do espécime não foi encontrado de forma íntegra. O exemplar carece de ambos os membros posteriores completos, de setores expressivos da bacia pélvica, de ossos dos punhos e da extremidade final da cauda, o que impede a determinação exata da postura locomotora do animal em vida.
Em razão dessas ausências ósseas, os pesquisadores ainda não confirmaram a altura exata do dinossauro até a linha do quadril nem conseguiram reconstituir integralmente a biomecânica locomotora precisa de indivíduos adultos. A equipe de paleontólogos planeja novas expedições de campo e escavações sistemáticas na Formação Yixian para localizar exemplares mais completos, com o objetivo de testar as hipóteses de mobilidade e delimitar as conexões evolutivas da espécie.
