O padre jesuíta italiano Giovanni Gallo financiou obras comunitárias e a estrutura inicial do Museu do Marajó, no Pará, após organizar a exportação de cerca de 12 mil piranhas empalhadas para a Europa. A iniciativa gerou renda para famílias ribeirinhas e bancou melhorias urbanas na região norte do país.
Na mesma instituição cultural, o sacerdote desenvolveu os chamados computadores caipiras, mecanismos pedagógicos sem eletricidade operados por manivelas, caixas de madeira e fios. O objetivo era permitir o contato prático da população com a arqueologia marajoara, sob a diretriz de preservar a memória humana antes dos objetos materiais. “A nossa preocupação não é recolher objetos, mas sim cultura”, declarou o fundador do espaço em seus registros.
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Projeto Piranha e obras comunitárias em Santa Cruz do Arari
A produção artesanal começou na década de 1970, logo após Giovanni Gallo assumir a paróquia local e fixar moradia na Vila de Jenipapo, área pertencente ao município de Santa Cruz do Arari. O povoado enfrentava isolamento severo e acidentes constantes durante o período de cheias sazonais do lago e do rio Arari. Diante da falta de alternativas econômicas, o religioso criou o Projeto Piranha e ensinou mulheres ribeirinhas a empalhar e envernizar peixes descartados das redes de pesca comercial.
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Com o envio dos 12 mil animais taxidermizados ao mercado exterior, o dinheiro arrecadado garantiu a remuneração direta das artesãs marajoaras e o custeio de obras de infraestrutura básica. Os recursos financiaram a construção de 350 metros de pontes elevadas em madeira de lei para conectar as casas de palafita, além de um trapiche comunitário para atracação de barcos. A verba viabilizou também um cemitério planejado para resistir às inundações, uma pista de pouso de 800 metros de extensão e a compra das primeiras peças para a coleção regional.
Dados da infraestrutura e acervo de Giovanni Gallo
- Volume de exportação: cerca de 12 mil piranhas empalhadas e envernizadas enviadas ao continente europeu
- Pontes de madeira de lei: 350 metros de passarelas elevadas construídas na Vila de Jenipapo
- Pista de pouso comunitária: 800 metros de extensão em Santa Cruz do Arari
- Acervo arqueológico inicial: mais de 100 artefatos catalogados, datados entre os séculos V e XIII
- Localização atual do museu: município de Cachoeira do Arari, no arquipélago do Marajó
Engenhocas mecânicas e a expografia do Museu do Marajó
Ao estruturar as exposições, o sacerdote italiano rejeitou o modelo tradicional de vitrines intocáveis e adotou o princípio do museu na ponta dos dedos. Em Cachoeira do Arari, para onde a instituição se transferiu, Gallo montou os computadores do caboclo, engenhocas manuais feitas inteiramente de madeira, carretéis e barbantes. O visitante acionava alavancas para desvendar fichas informativas, perguntas sobre a fauna e respostas ilustradas a respeito dos antigos povos indígenas.
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O diretor-executivo e pesquisador do Museu do Marajó, Paulo de Carvalho, documentou as ilustrações e o inventário dos aparelhos mecânicos criados pelo jesuíta. O público manuseava réplicas e peças arqueológicas originais, transformando o espaço em referência nacional de museologia social. O acervo reuniu mais de 100 artefatos arqueológicos completos e centenas de fragmentos cerâmicos confeccionados entre os séculos V e XIII, todos doados por moradores ribeirinhos que encontravam os vestígios nos campos inundados.
Trajetória de Giovanni Gallo da Itália à Amazônia em 1970
Nascido em Turim, na Itália, em 27 de abril de 1927, Giovanni Gallo ingressou na Companhia de Jesus e chegou à Amazônia brasileira em 1 de janeiro de 1970. Dois anos depois, em 1 de janeiro de 1972, concebeu o plano preliminar do centro de memória com o título O Nosso Museu. A atuação paroquial formal em Santa Cruz do Arari ocorreu a partir de 1 de janeiro de 1973, período em que estabeleceu a parceria direta com os pescadores de Jenipapo.
O padre permaneceu à frente dos projetos sociais, arqueológicos e fotográficos da instituição cultural até sua morte, ocorrida em 7 de março de 2003 na cidade de Belém, capital paraense. A proposta comunitária concebida pelo sacerdote seguiu em funcionamento em Cachoeira do Arari nas décadas seguintes.
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Registros históricos e dados financeiros ainda pendentes
Documentos arquivísticos e estudos acadêmicos mantêm divergências a respeito de etapas específicas da trajetória do museu. Enquanto relatórios institucionais apontam a Itália como destino principal dos 12 mil peixes, outras pesquisas citam compradores na Suíça e em outros países da Europa continental. Há também variações nas datas sobre a mudança para a sede definitiva em Cachoeira do Arari, alternando entre a transferência física em 1983, a abertura preliminar em 1984 e a inauguração do prédio em 1987.
O montante monetário exato arrecadado com a venda dos lotes de piranhas na década de 1970 não foi registrado em valores de moeda corrente nas prestações de contas preservadas pelo acervo, restando o registro físico das construções erguidas no Marajó.
