Som subaquático atrai peixes para recuperar corais nas Maldivas

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Recifes de coral - John A. Anderson/shutterstock.com Foto: Recifes de coral - John A. Anderson/shutterstock.com

Pesquisadores e artistas sonoros utilizam alto-falantes submarinos para recuperar recifes de coral degradados pelo branqueamento na Ilha de Feridhoo, nas Maldivas. O método de enriquecimento acústico dobra a quantidade de peixes nas áreas tratadas após seis semanas de reprodução contínua de áudios gravados em habitats marinhos sadios. A ação, confirmada na quinta-feira (1), busca restabelecer a circulação animal em setores oceânicos devastados pelo aquecimento das águas em 2026.

O artista berlinense Marco Barotti concebeu o projeto Coral Sonic Resilience, que combina arte contemporânea e ecologia marinha para enfrentar os impactos climáticos no Oceano Índico. Barotti sintetizou a lógica de atração dos animais por meio dos estímulos sonoros: “Se você quer ir a uma festa, escolha a mais animada”. A sonorização reproduz o ambiente vibrante característico de ecossistemas marinhos intocados para orientar novos organismos em direção aos locais em tratamento.

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Esculturas de Marco Barotti usam cerâmica e carbonato de cálcio

A estrutura física do projeto consiste em peças tridimensionais posicionadas estrategicamente no fundo do mar da Ilha de Feridhoo. As esculturas submarinas são impressas em 3D com uma mistura de cerâmica e carbonato de cálcio, materiais que simulam a composição mineral original dos esqueletos de corais e favorecem o assentamento de organismos bentônicos.

Conectados a essas bases submersas, conjuntos de alto-falantes recebem energia limpa gerada na superfície por uma estação solar flutuante. Esse sistema autônomo emite faixas contínuas de gravações submarinas captadas em recifes saudáveis, que incluem ruídos biológicos como cliques de camarões e vocalizações de peixes adultos. O sinal sonoro se propaga pela água e orienta espécimes juvenis que buscam abrigo contra predadores e correntes marinhas.

Alto-falantes solares atraem peixes para conter algas nos corais

Os peixes e as larvas de diversas espécies dependem diretamente de pistas acústicas naturais para nadar em mar aberto e selecionar locais adequados para fixação e moradia. Em habitats saudáveis, a atividade constante de invertebrados e vertebrados produz uma paisagem subaquática ruidosa e contínua, caracterizada por estalos de camarões e chamados emitidos por cardumes. Quando o estresse térmico provoca o branqueamento e a morte dos tecidos dos corais, essa sonoridade desaparece por completo, criando um vazio acústico que desorienta as novas gerações de animais marinhos e afasta espécimes que antes realizavam o controle ecológico na região.

A chegada dos animais desencadeia uma reação em cadeia essencial para a sobrevivência das colônias de corais remanescentes. Barotti detalhou o cronograma de repovoamento das estruturas: “Depois de uma ou duas semanas as algas começam a crescer e os peixes aparecem para se alimentar. Mais peixes ajudam os recifes a se recuperar. Assim esperamos trazer a vida de volta aos recifes degradados”.

Ao se alimentarem da vegetação rasteira que sufoca os esqueletos calcários, os cardumes limpam a superfície das esculturas e dos corais danificados. Essa remoção biológica abre espaço para que novas larvas de coral consigam se fixar, crescer e reconstruir a barreira calcária ao longo dos meses seguintes.

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Monitoramento confirma avanço biológico em Feridhoo

As atividades práticas na Ilha de Feridhoo contaram com um marco inicial em 1 de dezembro, data em que a equipe realizou a instalação dos primeiros protótipos das esculturas acústicas no leito oceânico das Maldivas. Desde então, o monitoramento contínuo tem analisado a taxa de resposta dos animais à emissão artificial de áudio, permitindo comparar os trechos submetidos à transmissão com áreas degradadas que permaneceram em silêncio. Os registros obtidos em campo demonstraram que o enriquecimento acústico constante foi capaz de acelerar a colonização biológica e devolver funções ecológicas básicas ao ecossistema marinho local.

Os resultados observados nas Maldivas apoiam-se em levantamentos que registraram um aumento de duas vezes na população de peixes após seis semanas de transmissão acústica ininterrupta. Esse crescimento populacional acelerou o ciclo de nutrientes e elevou a biomassa em áreas que antes eram consideradas biologicamente estéreis após eventos severos de branqueamento térmico.

O trabalho de campo é conduzido por meio de uma cooperação interdisciplinar que reúne a Universidade de Pádua, o Conselho da Ilha de Feridhoo, a organização Relaxound e a consultoria científica em ecologia acústica de Timothy Lamont, pesquisador da Universidade de Lancaster. A coordenação dos testes estruturais e biológicos nas esculturas conta com a supervisão de Marco Patruno, professor da Universidade de Pádua.

Recifes de coral sustentam 25% da fauna marinha do planeta

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A recuperação desses ambientes costeiros é urgente devido à importância ecológica e econômica que exercem globalmente. Os recifes de coral ocupam menos de 1% do fundo dos oceanos, mas sustentam cerca de 25% de toda a vida marinha do planeta, fornecendo alimento, abrigo e berçário para milhares de espécies comerciais e de subsistência.

Projeções científicas indicam que até 90% dos recifes de coral do mundo podem desaparecer caso a elevação das temperaturas globais continue a provocar eventos recorrentes de branqueamento. Quando a água esquenta além dos limites suportados, os corais expulsam as algas simbióticas responsáveis pela sua nutrição e coloração, processo que leva à fome e à mortalidade em massa das colônias calcárias.

Os cientistas responsáveis pela iniciativa nas Maldivas apontam que o enriquecimento sonoro atua como uma ferramenta auxiliar de restauração local, mas não resolve sozinho a crise oceânica global. A bioacústica submarina não substitui a redução obrigatória das emissões de gases de efeito estufa, a contenção da sobrepesca e o fortalecimento das políticas de proteção costeira nas bacias tropicais.

Dados numéricos da recuperação de recifes de coral nas Maldivas

  • 25%: parcela de toda a vida marinha mantida pelas estruturas de recifes de coral no planeta;
  • 90%: estimativa da proporção de corais que podem desaparecer em decorrência do aquecimento global e do branqueamento frequente;
  • 2x: taxa de multiplicação do número de peixes observada por biólogos após seis semanas de transmissão sonora;
  • 1 a 2 semanas: intervalo necessário para que as algas cubram as estruturas e atraiam os primeiros peixes herbívoros;
  • 1 de dezembro: início da instalação dos primeiros protótipos de esculturas submarinas na Ilha de Feridhoo.

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Os testes coordenados pela Universidade de Pádua prosseguem com medições hidrofônicas e censos visuais para verificar se as novas colônias de corais conseguirão manter taxas de crescimento estáveis nos recifes da Ilha de Feridhoo ao longo das próximas estações de aquecimento oceânico.

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