O Ministério da Saúde formalizou em Brasília uma proposta técnica para que a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde avalie a inclusão de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 na rede pública. O pedido protocolado na quinta-feira (24) abrange a semaglutida e a liraglutida como opções terapêuticas voltadas a pacientes com diagnóstico de obesidade atendidos pelo SUS.
A solicitação encaminhada à Conitec amplia a discussão original, que se concentrava na semaglutida, ao adicionar a liraglutida na lista de alternativas para análise governamental. Em nota oficial, o Ministério da Saúde justificou a medida afirmando que “a iniciativa tem respaldo na primeira diretriz da OMS sobre o uso, em escala populacional, de terapias baseadas em GLP-1 para o tratamento da obesidade a longo prazo, publicada no final de 2025”.
Queda de 70% nos preços e concorrência motivam pedido
A decisão de solicitar uma nova avaliação técnica decorre diretamente de transformações recentes no mercado farmacêutico brasileiro provocadas pela expiração da patente da semaglutida em 2026 e pelo vencimento anterior da proteção da liraglutida. Segundo a pasta ministerial, a entrada de fabricantes de genéricos e de concorrentes nacionais reduziu em média 70% os preços dos análogos de GLP-1 no país em menos de um ano, o que altera as projeções de impacto financeiro em relação a análises pretéritas.
O cenário comercial brasileiro reúne atualmente 25 canetas injetáveis de GLP-1 registradas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, das quais 14 receberam aprovação ao longo de 2026. Em 15 de setembro de 2025, o Ministério da Saúde e a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação haviam publicado deliberações contrárias à oferta de semaglutida e liraglutida sob a justificativa de alto custo orçamentário para o erário, cenário que a pasta agora considera superado pelo barateamento decorrente da produção ampliada.
Cronologia das decisões sobre agonistas de GLP-1 na rede pública
- 15 de setembro de 2025: Conitec recomenda a não incorporação de semaglutida e liraglutida para o tratamento de obesidade e diabetes tipo 2 no SUS devido ao impacto orçamentário estimado em bilhões de reais.
- 17 de setembro de 2026: Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre Padilha anunciam, em evento oficial em Montes Claros (MG), a intenção de fornecer os medicamentos injetáveis na rede pública.
- 24 de setembro de 2026: Ministério da Saúde protocola oficialmente na Conitec a proposta técnica para análise de incorporação da semaglutida e da liraglutida.
Quais etapas ainda faltam para a liberação dos medicamentos no SUS?
A apresentação do requerimento pelo Ministério da Saúde não resulta na entrega imediata das canetas aos postos de saúde municipais ou farmácias da rede pública. O processo exige que o plenário da Conitec realize estudos de custo-efetividade, elabore relatórios técnicos preliminares e submeta o tema a consulta pública antes de emitir um parecer conclusivo. Caso a comissão vote favoravelmente à incorporação, o governo ainda precisará estabelecer critérios estritos de elegibilidade clínica, diretrizes terapêuticas formais e planos de distribuição logística para os pacientes selecionados.
Durante discurso em Montes Claros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou o foco pretendido para a assistência farmacêutica pública. “Essa canetinha vai ser utilizada para cuidar de graça das pessoas que tenham obesidade. Quando um médico detectar que um homem ou mulher tem problema de se curar […] os médicos também têm que contribuir”, afirmou o chefe do Executivo.
Estudo Real-Bari avalia uso clínico no Rio Grande do Sul
Paralelamente às tratativas administrativas em Brasília, o Ministério da Saúde mantém em andamento o estudo clínico Real-Bari, realizado no Grupo Hospitalar Conceição, situado em Porto Alegre. A pesquisa monitora a resposta terapêutica de 250 pacientes acompanhados pelo SUS que aguardam a realização de cirurgia bariátrica ou que convivem com comorbidades graves associadas ao excesso de peso, servindo como base técnica para subsidiar os protocolos assistenciais futuros.
A atenção sobre a inclusão dos agonistas de GLP-1 ocorre em um período de expansão nos diagnósticos de doenças crônicas no território nacional. Conforme estatísticas oficiais do Ministério da Saúde, a prevalência de obesidade na população adulta do Brasil saltou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. A intenção declarada da pasta é priorizar indivíduos em que o controle clínico da condição reduza a necessidade de procedimentos cirúrgicos de alta complexidade.
Até o momento, o governo federal não confirmou a data exata em que os medicamentos começarão a ser distribuídos nas unidades de atendimento caso a recomendação seja positiva, nem tornou público o orçamento total reservado para a compra em larga escala dos produtos.

