Consumo extremo de sal reduz memória e altera cérebro de animais
A ingestão de sal em níveis excessivos ou com restrição severa provoca perdas de memória e alterações celulares profundas no cérebro. A constatação foi publicada na quinta-feira (1) na revista científica Food Research International por pesquisadores da Universidade de Zhejiang, em Hangzhou, na China. Os cientistas identificaram que desequilíbrios extremos no teor de sódio atuam sobre o eixo biológico que conecta o intestino, a circulação de metabólitos e o cérebro.
Os testes laboratoriais demonstraram que tanto o consumo hipernatrêmico quanto a privação profunda de sódio causaram prejuízos na retenção de informações em curto e longo prazo. Para reproduzir o funcionamento humano, o experimento utilizou animais com microbiota intestinal transplantada a partir de doadores saudáveis, comprovando que o desequilíbrio alimentar afeta o cérebro por vias biológicas distintas.
Efeitos do sal na estrutura celular e nas proteínas do hipocampo
No hipocampo, região cerebral responsável pela consolidação de lembranças e pela orientação no espaço, os animais submetidos a ambos os extremos de sal sofreram quedas acentuadas em proteínas essenciais. A análise laboratorial constatou redução nos níveis de SYN1 e de PSD95, além de queda no fator neurotrófico derivado do cérebro, conhecido pela sigla BDNF. Paralelamente, houve inibição na ativação da proteína de transcrição CREB, elemento indispensável para a manutenção dos circuitos entre as células nervosas. Sem essas moléculas ativas, as sinapses perderam estabilidade, resultando em déficits cognitivos mensuráveis.
Para medir o impacto funcional dessas perdas moleculares, os pesquisadores aplicaram dois testes de verificação comportamental. No labirinto em Y, voltado à análise da memória de trabalho e da capacidade de exploração, os roedores expostos às dietas desbalanceadas registraram percursos irregulares e menor capacidade de alternância. No teste de reconhecimento de objetos novos, os mesmos animais não conseguiram diferenciar objetos inéditos daqueles aos quais já haviam sido expostos, o que confirmou prejuízos simultâneos na memória imediata e remota.
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Caminhos biológicos distintos da carência e do excesso de sal
Embora o resultado final na memória tenha sido semelhante em ambos os grupos, o caminho percorrido pelo organismo diferiu para a carência e para o consumo excessivo de sal. No grupo em que o sódio foi severamente cortado, o dano cerebral derivou da interrupção do envio de sinais químicos e metabólitos gerados pelas bactérias intestinais, que deixaram de chegar ao cérebro. Por sua vez, a dieta rica em sal gerou uma resposta inflamatória sistêmica no sangue, elevou marcadores de estresse oxidativo no tecido digestivo e reduziu a quantidade de substâncias protetoras no organismo.
Entre as substâncias reduzidas pela sobrecarga de sal estão o propionato e o butirato, que são ácidos graxos sintetizados por bactérias benéficas da microbiota intestinal. A queda acentuada desses dois metabólitos nas fezes enfraqueceu as defesas contra processos oxidativos nos tecidos e facilitou a propagação de marcadores inflamatórios da circulação até o sistema nervoso central.
Metodologia com camundongos e microbiota de doadores humanos
A investigação foi conduzida pelo primeiro autor Anji Chen, pelo professor e orientador Shiguo Chen e pelo professor e coautor Xingqian Ye, todos da Universidade de Zhejiang. A equipe estruturou um modelo pré-clínico de microbiota humanizada, procedimento desenhado para aproximar os resultados metabólicos dos roedores da fisiologia observada em seres humanos.
Antes de iniciar a intervenção dietética, os pesquisadores trataram 32 camundongos machos com antibióticos para eliminar as bactérias nativas de seus tratos gastrointestinais. Em seguida, os cientistas introduziram amostras fecais obtidas de 10 doadores humanos saudáveis. A intervenção com diferentes rações alimentares teve duração de 14 semanas ininterruptas, período no qual os animais permaneceram divididos em grupos específicos de controle e testes.
Parâmetros nutricionais e dados da pesquisa sobre o sal
As diretrizes médicas internacionais enfatizam historicamente o corte de sódio para o controle da pressão arterial e a proteção cardiovascular, deixando a carência extrema de sal com menor atenção nos estudos sobre o cérebro. Na rotina moderna, porém, o consumo elevado continua frequente: cerca de 60% das calorias ingeridas pela população nos Estados Unidos provêm de alimentos ultraprocessados ricos em sódio. Para a população adulta em geral, a Organização Mundial da Saúde recomenda o limite de até 2 gramas diários de sódio, quantidade equivalente a 5 gramas de sal de cozinha.
As formulações dietéticas e a estrutura laboratorial aplicadas durante o experimento na China contemplaram as seguintes variáveis:
- Grupo de controle com dieta normal: fornecimento de ração com teor de 0,5% de sal.
- Grupo submetido à carência severa: alimentação contínua com teor reduzido a 0,1% de sal.
- Grupo submetido à dieta hipernatrêmica: administração de ração com concentração de 8,0% de sal.
- Duração da intervenção alimentar: acompanhamento diário mantido pelo período de 14 semanas.
- Amostra de animais e doadores: 32 camundongos machos povoados com fezes de 10 voluntários humanos.
Limitações do estudo sobre o sal e próximos passos da investigação
Os pesquisadores ponderam que ainda não há comprovação de que o declínio de memória ocorra com a mesma intensidade em seres humanos ou em espécimes fêmeas. O experimento foi realizado exclusivamente em animais machos e utilizou dietas com carência extrema ou dosagens hipernatrêmicas severas, índices distantes do consumo diário comum. Novas investigações científicas são necessárias para determinar faixas de consumo seguro e verificar se eventuais intervenções na microbiota intestinal conseguem barrar os prejuízos cognitivos causados pelo descompasso de sal.
