Nobel de Medicina concedido a Johannes Fibiger completa cem anos sob refutação

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Prêmio Nobel de Medicina Foto: Prêmio Nobel de Medicina - Foto: Bumble Dee / Shutterstock.com

O Nobel de Medicina concedido a Johannes Fibiger por associar vermes a tumores em ratos completa cem anos sob o rótulo de um dos maiores equívocos da história da premiação científica sueca. A honraria formalizada em relação ao ano de 1926 premiou a tese de que infecções parasitárias eram a causa direta do surgimento de neoplasias malignas no estômago de roedores, modelo que acabou totalmente desmontado por pesquisas posteriores nas décadas seguintes.

Embora a conclusão causal do médico e patologista dinamarquês estivesse errada, pesquisadores contemporâneos apontam que o trabalho exerceu um papel relevante no desenvolvimento da oncologia experimental ao introduzir a hipótese de que a irritação contínua dos tecidos orgânicos atua no surgimento de tumores.

Prêmio Nobel - Alexey Fedorenko/ shutterstock.com
Foto: Prêmio Nobel – Alexey Fedorenko/ shutterstock.com

Dados históricos da premiação de Johannes Fibiger

  • Laureado: Johannes Andreas Grib Fibiger, patologista e professor da Universidade de Copenhague.
  • Ano de referência da premiação: Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1926, concedido retrospectivamente em 1927.
  • Data da cerimônia de entrega: sábado, 10 de dezembro de 1927, em Estocolmo.
  • Tese premiada: indução de câncer gástrico em ratos pelo nematódeo Spiroptera carcinoma via baratas hospedeiras.
  • Data da morte do pesquisador: segunda-feira, 30 de janeiro de 1928, aos 60 anos, na Dinamarca.
  • Publicação da revisão histórica: sábado, 3 de outubro de 2026, com atualização nesta segunda-feira (5).

A teoria de Johannes Fibiger e o nematódeo em ratos

A investigação de Johannes Andreas Grib Fibiger, publicada inicialmente em 1913, afirmava que a ingestão de baratas contaminadas por larvas de um nematódeo levava cobaias saudáveis a desenvolverem tumores estomacais. O patologista batizou o parasita de Spiroptera carcinoma, organismo posteriormente reclassificado na taxonomia zoológica sob o nome de Gongylonema neoplasticum. A teoria defendida perante a comunidade internacional sustentava que o verme liberava toxinas e venenos dentro do epitélio gástrico, sendo essa substância química a causadora primária da malignidade celular observada nos animais.

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O experimento utilizava ratos alimentados com insetos infectados provenientes de uma refinaria de açúcar. Fibiger relatou inflamações severas, proliferações teciduais que classificou como epiteliomas e a presença de lesões secundárias nos pulmões dos animais. Como as metástases pulmonares não apresentavam o parasita em seu interior, o médico presumiu que o próprio tecido transformado adquiria a capacidade de se disseminar autonomamente, o que aparentava replicar com perfeição a progressão do câncer humano em laboratório.

Como a carência de vitamina A desmontou a pesquisa de Johannes Fibiger

Estudos independentes conduzidos entre as décadas de 1930 e 1950 revelaram que o pesquisador dinamarquês interpretou de maneira equivocada as alterações histológicas dos roedores. As formações encontradas no estômago dos ratos não eram carcinomas malignos nem metástases verdadeiras, mas sim metaplasias e hiperplasias benignas. Os cientistas que revisaram o experimento descobriram que essas lesões decorriam de uma severa deficiência de vitamina A na dieta fornecida pelo laboratório de Copenhague, intensificada pela agressão física contínua causada pela presença mecânica dos vermes no estômago.

Durante os testes originais, o patologista mantinha os animais confinados recebendo apenas água e pão branco, dieta desprovida de nutrientes essenciais para a integridade dos epitélios biológicos. A avitaminose A, cujos efeitos bioquímicos ainda não haviam sido devidamente elucidados no início do século 20, combinava-se com o atrito mecânico dos parasitas para gerar um espessamento epitelial atípico. Fibiger faleceu em janeiro de 1928, aos 60 anos, antes que a comunidade científica publicasse a refutação definitiva de seu experimento, impedindo qualquer contra-argumentação do autor sobre as falhas no desenho de sua pesquisa.

A visão da ciência atual sobre os controles na pesquisa de Johannes Fibiger

Ana Paula Lepique, professora do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), pondera que a tecnologia e a metodologia vigentes na época restringiam a precisão diagnóstica. Para a imunologista, o modelo experimental de Fibiger continha falhas que hoje seriam impeditivas, como o uso de animais de origem desconhecida sem padronização genética e a completa ausência de isolamento de variáveis nutricionais e ambientais.

“Para comprovar que uma coisa é causal, que é aquilo mesmo que está causando, tem que preencher uma série de critérios definidos por epidemiologistas. Mas isso tudo vem muito depois desse pesquisador”, afirma Lepique. “Imagina você pegar um rato selvagem e alimentar com barata. Por outro lado, tem gente que fala ‘ah, mas foi o primeiro estudo randomizado’. É claro, não tinha nenhum controle disso. Era um ‘eu vejo, e é isso. Se eu alimento com a barata, vejo isso; se não alimento com a barata, vejo aquilo.’ Então, de fato, sim, ele viu um resultado, só que a conclusão que ele tirou estava errada, não foi correta, porque ele não tinha controle de outras variáveis que estavam presentes ali naquele momento”, declara a professora da USP.

O impacto do estudo de Johannes Fibiger para o entendimento do câncer

Apesar da falha central na conclusão diagnóstica, pesquisadores destacam que a proposição conceitual de Johannes Fibiger ajudou a consolidar a investigação sobre a relação entre agentes exógenos, processos inflamatórios persistentes e o surgimento de tumores. A medicina atual comprova que a inflamação tecidual crônica atua como um fator de risco comprovado para diversos tipos de neoplasias, existindo inclusive parasitas reais associados à gênese tumoral no ser humano, como o Schistosoma haematobium, causador de câncer na bexiga, e o Opisthorchis viverrini, relacionado ao colangiocarcinoma no duto biliar.

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“Cientistas falam que esse Nobel não foi merecido. Mas será que não? Porque na época, apesar de o resultado estar errado, trouxe um viés muito forte de que um ambiente irritante poderia causar câncer. E olha, isso é verdade. Há vermes que causam câncer em humanos. Não esse, mas outros”, avalia Ana Paula Lepique. O comitê responsável pela condecoração havia retido a premiação em 1926 por considerar que nenhuma candidatura alcançava os parâmetros formais exigidos no regulamento estatutário, optando por outorgar a láurea de forma retrospectiva ao dinamarquês durante a cerimônia oficial de 1927.

Metodologia dos biotérios modernos frente ao modelo de Johannes Fibiger

O rigor adotado atualmente no manejo de animais de laboratório expõe a distância técnica entre a pesquisa de Johannes Fibiger e os padrões científicos contemporâneos. A manutenção de biotérios modernos segue parâmetros de controle microbiológico, ração balanceada com níveis precisos de vitaminas, regulação térmica estrita, ciclos controlados de iluminação e monitoramento do potencial hidrogeniônico da água oferecida aos animais em experimentação.

Caso tais protocolos fossem conhecidos no início do século 20, grupos de controle alimentados com doses balanceadas de vitamina A teriam impedido o desenvolvimento das lesões epiteliais observadas por Fibiger, comprovando o caráter benigno da hiperplasia. O caso permanece registrado como exemplo do processo de autocorreção inerente à ciência, no qual publicações posteriores invalidam hipóteses consagradas e redefinem a compreensão das causas moleculares e biológicas de enfermidades complexas.

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