Uso de inteligência artificial atinge 82% dos pacientes com câncer
Ferramentas de inteligência artificial já foram utilizadas por 82,3% dos pacientes com câncer e seus familiares para esclarecer dúvidas sobre diagnósticos, procedimentos e medicações. O dado integra um levantamento conduzido pelo Instituto Oncoguia com 1.186 participantes, no qual a compreensão de exames e laudos laboratoriais desponta como o principal motivo para a consulta digital.
Apesar da ampla adesão tecnológica, 58,4% dos entrevistados relataram receio de receber informações imprecisas ou falsas dos sistemas automatizados, o que leva 79,2% das pessoas a checarem os dados obtidos. A figura do médico permanece como o principal validador dessas respostas para 64,6% dos participantes, demonstrando que as plataformas operam como complemento à relação clínica.
Continue lendo: Creatina faz efeito mesmo sem treino? Veja o que a ciência diz sobre ganhar músculos sem exercício
Inteligência artificial e os motivos que levam à busca digital
A necessidade de decifrar termos técnicos presentes em documentos médicos lidera as razões apontadas pelos usuários na pesquisa. Um total de 79% dos entrevistados declarou recorrer aos sistemas digitais para entender laudos de exames, enquanto 67% buscaram compreender melhor o diagnóstico comunicado pelos especialistas. Além disso, 63,9% dos respondentes usaram as ferramentas para pesquisar sobre efeitos colaterais e alternativas para diminuir desconfortos, e 57,3% procuraram informações a respeito de diferentes opções de tratamento oncológico disponíveis.
Para a psicóloga Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, a busca digital reflete os momentos de incerteza vividos fora do ambiente hospitalar. “O efeito colateral acontece em casa, não acontece no consultório”, afirmou a dirigente ao explicar que a tecnologia preenche intervalos nos quais o paciente enfrenta sintomas ou inquietações imediatas.
ChatGPT lidera as ferramentas mais usadas por 1.186 participantes
Entre as plataformas de inteligência artificial generativa mencionadas pelos participantes do questionário, os modelos de linguagem em texto e aplicativos de mensagens dividem a preferência dos usuários:
- ChatGPT: citado por 69,1% dos respondentes como ferramenta de consulta;
- Gemini: utilizado por 57,1% das pessoas ouvidas na pesquisa;
- Meta AI no WhatsApp: indicado por 25,2% dos participantes do levantamento.
A avaliação sobre a utilidade dessas plataformas mostrou-se expressiva, uma vez que 92,9% dos entrevistados afirmaram que a ferramenta auxiliou no entendimento da enfermidade ou dos procedimentos terapêuticos recomendados pelas equipes de saúde.
Continue lendo: Lúnulas vermelhas nas unhas podem indicar doenças cardíacas e hepáticas
Clarissa Baldotto e o diálogo sobre inteligência artificial no consultório
A médica oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), afirmou que o recurso passou a fazer parte do cotidiano clínico e não deve ser desestimulado pelos profissionais. Segundo a médica, “a consulta de oncologia é uma consulta complexa, porque ela tem várias camadas, desde o entendimento do exame até conversas sobre coisas pessoais, com a família”. Ela acrescentou que “muitas vezes o paciente está psicologicamente abalado. Ele não consegue absorver tudo aquilo que é conversado”, o que torna compreensível a busca posterior por dados complementares.
De acordo com a presidente da SBOC, a postura indicada para os especialistas é atuar na curadoria do material apresentado. “Agora é muito comum, todo mundo usa”, observou Baldotto, destacando que 64,9% dos entrevistados já levaram conteúdos gerados por inteligência artificial para debater diretamente com as equipes assistenciais. “Se existe essa lacuna e a IA está sendo usada, que ela sirva para estreitar o laço”, defendeu a médica.
Luciana Holtz avaliou que a atitude dos pacientes reforça a confiança na autoridade técnica dos médicos. “Apesar de ele ir buscar, apesar de ele gostar do que encontra, quando ele está inseguro, ele corre para o médico. Isso é bom”, destacou a presidente do Instituto Oncoguia.
Instituto Oncoguia lança livro eletrônico com regras de segurança
Com base nos resultados apurados no levantamento, o Instituto Oncoguia lançou na quinta-feira, 1 de outubro de 2026, um livro eletrônico gratuito com diretrizes voltadas ao uso seguro da tecnologia por pessoas em tratamento de câncer. A publicação orienta que o usuário jamais tome decisões terapêuticas individuais sem acompanhamento e não altere dosagens de remédios por orientação de robôs virtuais.
O guia adverte que sistemas automatizados podem apresentar respostas incorretas com tom convincente ou até inventar referências bibliográficas. Dessa maneira, o material recomenda solicitar fontes oficiais, como diretrizes de sociedades médicas, além de verificar as datas das referências, visto que protocolos oncológicos mudam constantemente. Para preservar a privacidade, a cartilha recomenda nunca compartilhar documentos com CPF, endereço, telefone ou número da carteirinha de planos de saúde, além de orientar procura imediata a serviços de saúde em casos de urgência física.
Metodologia do levantamento do Instituto Oncoguia entre julho e setembro
A coleta de dados da pesquisa do Instituto Oncoguia foi realizada entre os meses de julho e setembro de 2026 por meio de questionário eletrônico voluntário. Do universo total de 1.186 participantes, 93% eram os próprios pacientes oncológicos, enquanto 4,6% correspondiam a familiares ou cuidadores diretos.
Por não se tratar de uma amostra probabilística e não apresentar divisão geográfica por estados, o levantamento não reflete estatisticamente a totalidade da população brasileira com câncer, servindo como um indicativo sobre o comportamento de pacientes conectados às redes informativas.
