Satélite SMILE capta anel completo da aurora boreal do espaço
O satélite SMILE registrou pela primeira vez em 18 anos o anel completo da aurora boreal sobre o Polo Norte a partir do espaço. As imagens científicas, divulgadas em conjunto pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pela Academia Chinesa de Ciências (CAS), revelam em luz ultravioleta a deformação do campo magnético a 121.000 quilômetros de altitude durante uma subtempestade solar.
A divulgação pública mundial ocorreu na quarta-feira (30) e marcou a conclusão bem-sucedida da fase de testes do projeto sino-europeu Solar wind Magnetosphere Ionosphere Link Explorer. “A missão SMILE é um testemunho da confiança construída entre nossas equipes, de sua dedicação à excelência e de sua determinação em encontrar soluções para qualquer desafio. O SMILE está agora aprovado para iniciar as operações científicas. Este é um marco muito importante, um verdadeiro prazer de anunciar, e tenho certeza de que nossa excelente colaboração entregará dados inovadores para cientistas de todo o mundo”, afirmou a diretora de Ciência da ESA, Carole Mundell, em tradução livre.
Observação do satélite SMILE encerra hiato de 18 anos
Os registros representam a primeira sequência visual panorâmica e ininterrupta do anel auroral completo desde o fim da operação da sonda Polar, operada pela agência espacial norte-americana NASA até 2008. Até a ativação dos sensores da missão atual, a comunidade científica global dependia de imagens fragmentadas obtidas por instrumentos em terra ou espaçonaves situadas em órbitas mais baixas.
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A captação no espectro ultravioleta contorna uma das principais barreiras impostas pela observação tradicional a partir da superfície terrestre. Enquanto estações de solo conseguem enxergar o brilho das partículas apenas durante o período noturno e em trechos geográficos restritos, câmeras espaciais em comprimentos de onda ultravioleta conseguem filmar o fenômeno continuamente, inclusive quando o Polo Norte se encontra iluminado diretamente pela luz solar diurna.
O instrumento responsável pela sequência visual é o Imageador Ultravioleta de Auroras (UVI). Projetado com alta sensibilidade para comprimentos de onda invisíveis ao olho humano desarmado, o equipamento tem capacidade técnica para filmar as regiões polares por até 45 horas ininterruptas a cada passagem pelo ponto mais distante de sua órbita elíptica, situado no apogeu a 121.000 quilômetros de altitude sobre o Hemisfério Norte.
O evento documentado durou 58 minutos, ocorrendo das 00:00 às 00:58 no horário UTC em 24 de julho de 2026. A gravação documentou a dinâmica de uma subtempestade magnética, que é uma liberação violenta de energia gerada pela colisão constante entre o fluxo contínuo de vento solar e a blindagem magnética que envolve a Terra. Na filmagem, o anel luminoso aparece se expandindo, ondulando e cobrindo toda a calota polar ártica.
Cronologia da missão SMILE desde a decolagem em Kourou
O desenvolvimento da missão representou uma parceria estrutural inédita entre engenheiros e pesquisadores da Europa e da China, abrangendo desde a concepção dos sensores científicos até a montagem da plataforma espacial. A professora do Mullard Space Science Laboratory da University College London (MSSL/UCL), Graziella Branduardi-Raymont, atuou como a proponente original do projeto, estruturado para monitorar as conexões diretas entre o Sol e o planeta.
As etapas cumpridas pela sonda espacial entre o transporte ao espaço e a liberação pública dos dados seguiram o calendário técnico institucional:
- 19 de maio de 2026: lançamento do satélite SMILE a bordo de um foguete Vega-C a partir do centro espacial de Kourou, na Guiana Francesa.
- 20 de junho de 2026: alcance da órbita operacional elíptica e início dos trabalhos de comissionamento em voo dos instrumentos a bordo.
- 24 de julho de 2026: captura da sequência de 58 minutos da aurora boreal e da subtempestade solar pela câmera ultravioleta UVI.
- 23 de setembro de 2026: aprovação formal de encerramento do período de testes e liberação oficial para operações científicas contínuas.
- 30 de setembro de 2026: publicação internacional do primeiro pacote de imagens científicas e medições orbitais da missão conjunta.
Sensores do SMILE registram ventos solares e campo magnético
A estrutura científica da nave transporta outros três sistemas projetados para atuar de forma sincronizada com o imageador de auroras. Essa integração permite cruzar visualizações ópticas em grande escala com medições físicas diretas no ambiente espacial. O objetivo central é compreender os mecanismos que impulsionam o clima espacial para aperfeiçoar modelos preditivos de tempestades geomagnéticas severas, fenômenos capazes de desorientar satélites de posicionamento global, danificar redes de distribuição de energia elétrica na superfície e interromper sistemas globais de telecomunicações.
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Na medição das partículas que circulam no espaço próximo, os sensores in-situ MAG (Magnetômetro) e LIA (Analisador de Íons Leves) coletaram registros de alta resolução do plasma e da intensidade das linhas de força magnética nas camadas mais elevadas da atmosfera terrestre. Paralelamente, o telescópio de raios X suaves (SXI) efetuou testes focais direcionados a fontes astronômicas distantes, como remanescentes de supernova, preparando-se para mapear a magnetopausa, a fronteira de equilíbrio onde a pressão do vento solar colide frontalmente com a proteção magnética do planeta.
Ajustes no imageador SXI e próximos passos da missão espacial
Embora a câmera ultravioleta e os detectores de partículas tenham entrado em operação plena sem imprevistos, a equipe técnica da ESA indicou que o instrumento SXI detectou níveis excessivos de luz difusa refletida pela própria Terra durante a etapa inicial de testes em órbita.
Engenheiros de software realizam modificações nos parâmetros operacionais do sensor de raios X para anular esse efeito luminoso indesejado. A expectativa oficial das agências espaciais é que os ajustes de calibração estejam concluídos até meados de outubro de 2026, liberando o satélite para operar seus quatro sistemas simultaneamente na coleta regular de dados sobre o clima espacial.
