Rússia acelera rede de satélites Rassvet após perder Starlink

Starlink Foto: Starlink - daily_creativity/Shutterstock.com

A Rússia acelera a implantação da sua rede própria de internet por satélites de órbita baixa, batizada de Rassvet, desenvolvida pela empresa aeroespacial russa Bureau 1440. O avanço ocorre após as forças armadas do país perderem no início de 2026 o acesso clandestino aos equipamentos da Starlink, operados pela norte-americana SpaceX, expondo vulnerabilidades táticas na transmissão de dados e no comando de drones no território ucraniano.

O diretor de defesa e segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), Clayton Swope, explicou o peso da perda do sistema fornecido pela empresa de Elon Musk. “A Starlink era tão importante que os russos tentaram durante muito tempo usá-la para seus próprios propósitos militares. A Rússia não tinha nada que pudesse competir com isso”, afirmou o especialista.

Diferenças de capacidade entre a rede Rassvet e os satélites da SpaceX

Bandeira da Russia
Foto: Bandeira da Russia – Nick NA/shutterstock.com

A constelação comercial projetada pela Bureau 1440 opera com especificações muito mais modestas do que as concorrentes ocidentais já consolidadas em órbita. Enquanto os aparelhos russos foram desenhados para entregar uma taxa de transferência de 1 Gbps por satélite, as unidades ativas da SpaceX funcionam em patamares substancialmente maiores, sustentando a conectividade em alta demanda de milhares de usuários simultâneos.

O astrofísico do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics e historiador espacial Jonathan McDowell detalhou essa distância técnica entre os modelos em operação. “A atual geração da Starlink tem cerca de 100 gigabits por segundo. A próxima geração terá dez vezes mais do que isso. Até mesmo o sistema OneWeb, disponível na Europa, tem cerca de 10 gigabits por segundo. Portanto, o Rassvet está na extremidade inferior da capacidade desses sistemas de megaconstelações de internet por satélite”, declarou McDowell.

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Clayton Swope destacou ainda a concentração do mercado espacial em poucas operadoras globais. “Existe hoje uma dependência global da SpaceX para lançamentos espaciais e para conectividade, como a Starlink. Há essencialmente apenas um concorrente neste momento. É uma empresa europeia, a OneWeb, que não tem nem de longe a capacidade da Starlink”, disse o analista do CSIS.

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Como a inteligência da Ucrânia avalia a nova rede russa?

Apesar da defasagem em relação aos equipamentos ocidentais, as autoridades em Kiev mantêm monitoramento contínuo sobre os avanços da Bureau 1440 no espaço. O major-general e vice-chefe da Direção Principal de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia, Vadym Skibitsky, indicou que mesmo uma largura de banda menor pode atender a necessidades imediatas das forças russas na frente de combate terrestre.

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“Eles já começaram os lançamentos muito mais rapidamente do que o planejado originalmente. Por enquanto, o sistema só pode operar de forma intermitente, quando um satélite passa sobre nosso território. Quando a Rússia implantar uma constelação completa de satélites, o sistema funcionará como a Starlink. Já há discussões sobre como neutralizá-lo”, afirmou Vadym Skibitsky a respeito das ações em análise.

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O especialista Clayton Swope mantém ressalvas sobre o cumprimento das promessas técnicas de Moscou no prazo pretendido pelo Kremlin. “A grande questão é se isso acontecerá. Nem sequer é quando”, ponderou Swope, ressaltando a complexidade de produzir centenas de espaçonaves e garantir a estabilidade do sinal em áreas de combate sem interrupções operacionais severas.

Problemas de propulsão e altitude na constelação Rassvet

A frota russa tem enfrentado contratempos mecânicos severos desde as primeiras missões de colocação em órbita executadas neste ano. Embora a Bureau 1440 tenha projetado a operação padrão dos satélites a 800 quilômetros de altitude, os aparelhos enviados no segundo semestre não conseguiram acionar a propulsão necessária para atingir essa camada, permanecendo retidos em uma faixa entre 300 e 400 quilômetros da Terra, o que reduz substancialmente a área de cobertura de cada unidade e acelera o desgaste das órbitas.

  • 23 de março de 2026: envio dos primeiros 16 satélites operacionais seriais Rassvet-3 pelo foguete Soyuz-2.1b a partir do Cosmódromo de Plesetsk
  • 6 de junho de 2026: satélite Rassvet-3 número 4 reentra sem controle e se incendeia na atmosfera terrestre após sofrer falha nos motores de elevação
  • 19 de julho de 2026: lançamento do segundo lote composto por 16 satélites a partir de Plesetsk, retidos em órbitas mais baixas do que o planejado
  • 6 de outubro de 2026: apresentação oficial dos primeiros aparelhos receptores de sinal de solo desenvolvidos para uso terrestre

Receptores de solo anunciados pela Bureau 1440

Para viabilizar a conexão entre os satélites e os operadores em terra, a companhia russa de tecnologia revelou equipamentos desenhados para diferentes aplicações logísticas e civis, mirando estruturas de transporte e conexões remotas. A fabricante pertence à holding russa X Holding e acumula testes preliminares conduzidos com protótipos experimentais entre os anos de 2023 e 2024.

  • 1440.ULTRA: antena receptora de alta capacidade de solo com suporte de transmissão para velocidades de até 700 Mbps
  • 1440.ZEMLYA: terminal de conectividade desenvolvido especialmente para instalação e comunicação na malha de transporte ferroviário
  • 1440.MINI: conceito portátil e compacto projetado para mobilidade e transporte rápido por equipes em campo

O programa da Bureau 1440 conta com uma previsão orçamentária conjunta entre recursos públicos e privados estimada em US$ 5,7 bilhões até 2030, planejando atingir 924 satélites até 2035. Enquanto a SpaceX já colocou mais de 11.000 satélites Starlink no espaço e a Ucrânia utiliza mais de 50 mil terminais da companhia norte-americana, a Rússia soma atualmente 31 unidades ativas da rede Rassvet em órbita.

Não há confirmação independente de que a Rússia conseguirá cumprir a meta governamental de colocar 292 satélites Rassvet em operação comercial até o prazo estipulado de 31 de dezembro de 2027, diante das limitações na frequência de decolagens dos foguetes Soyuz e das anomalias registradas nos sistemas de propulsão espacial.

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