Treino com sobrecarga é o gatilho real do ganho muscular, aponta USP

Whey Protein Foto: Whey Protein - Foto: MBLifestyle/Shutterstock.com

O treino de força com sobrecarga mecânica representa o estímulo primário indispensável para a hipertrofia, enquanto os suplementos de proteína atuam apenas em caráter complementar na recuperação dos tecidos. Avaliações conduzidas por especialistas em fisiologia do exercício e nutrição da Universidade de São Paulo (USP), apresentadas nesta quinta-feira (8), detalham que o consumo isolado de nutrientes não provoca o crescimento dos músculos sem o esforço físico com pesos.

Estudos clínicos realizados com adultos jovens e saudáveis revelam que a adição de suplementação proteica a uma dieta já equilibrada proporciona um ganho adicional modesto de 400 g a 500 g de massa magra corporal em comparação com indivíduos submetidos apenas à rotina de exercícios. O resultado contraria a crença disseminada de que pós ou barras proteicas seriam os principais responsáveis pelo desenvolvimento físico em pessoas ativas.

Hamilton Roschel detalha o papel biológico da sobrecarga mecânica

O professor e fisiologista do exercício da Universidade de São Paulo Hamilton Roschel afirmou que o organismo exige o esforço resistido para iniciar as alterações celulares. “O grande gatilho ou o grande estimulador do remodelamento muscular, para o aumento da massa e da força muscular, é o exercício físico”, disse o pesquisador, ao apontar que o papel do nutriente costuma ser superestimado no cotidiano das academias.

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“As pessoas têm a ideia de que a proteína que é a chave do efeito todo e que é isso que vai deixar o sujeito mais musculoso e esquecem que é o exercício que é o gatilho essencial e principal dessa equação”, declarou Roschel. Sobre os números observados nos ensaios clínicos com jovens praticantes de musculação, o especialista enfatizou a moderação dos efeitos adicionais: “O ganho existe. Mas é muito menor do que as pessoas imaginam”.

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A bióloga e divulgadora científica Mari Krüger reforçou a necessidade de priorizar o trabalho físico contínuo em vez de focar no consumo de suplementos em pó. “Trago notícias horríveis: realmente focar na alimentação e no exercício físico traz resultados”, disse. Ela alertou sobre a ilusão de depender de compostos industrializados: “Não adianta só adicionar proteína se a gente não fizer a força. Na verdade, a constância e a progressão de carga são muito mais importantes do que pensar num suplemento de proteína”.

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Consumo alimentar do brasileiro já supera recomendações da OMS

O consumo alimentar habitual da população brasileira já atinge e supera as recomendações proteicas estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o que elimina a necessidade de produtos complementares para a ampla maioria dos adultos sem enfermidades. Pesquisas de saúde pública apontam que a combinação tradicional de alimentos do país, com feijão, arroz, carnes, ovos e laticínios, supre a demanda metabólica para a manutenção e a construção dos tecidos corporais.

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A nutricionista Nadine Marques, pesquisadora da Cátedra Josué de Castro e doutora em saúde pública pela USP, pontua que a proliferação recente de ultraprocessados com apelo proteico decorre de estratégias comerciais que geram uma falsa percepção de deficiência nutricional. O organismo possui um limite biológico diário de processamento anabólico; quando esse teto é ultrapassado, o excesso é eliminado pelo metabolismo ou convertido e armazenado em tecido adiposo.

A ideia da janela de oportunidade rígida logo após o término da atividade física também foi desmistificada pelos especialistas. A ingestão total de proteínas distribuída de forma equilibrada ao longo do dia inteiro tem maior relevância metabólica para a síntese muscular do que o consumo imediato nos minutos que sucedem o treino, o que retira a obrigação de ingerir shakes nos vestiários.

Indicações clínicas e parâmetros do uso de whey protein

O uso de suplementos como o whey protein permanece clinicamente recomendado para públicos com demandas metabólicas específicas ou restrições alimentares severas, atuando sob supervisão profissional como suporte terapêutico. “Ela é uma ferramenta válida, a suplementação de proteína, com certeza, mas ela não é obrigatória para ninguém”, reiterou Mari Krüger ao tratar da dispensa do produto na rotina da população em geral.

  • Idosos com perda severa de massa muscular (sarcopenia) ou redução crítica de apetite, como a voluntária Leonor Sarcob, de 74 anos, avaliada em pesquisas sobre envelhecimento na USP.
  • Atletas e desportistas de alto rendimento com elevado desgaste diário, como o maratonista e influenciador digital Danrley Ferreira, que treina 2 vezes por dia antes de competições.
  • Pacientes inseridos em programas clínicos estruturados de emagrecimento que demandam preservação da massa magra sob restrição calórica severa.
  • Adultos saudáveis com rotina intensa que eventualmente não conseguem atingir a ingestão básica de alimentos sólidos por motivos de logística pessoal.

A contextualização dos estudos foi apresentada pela repórter Mariana Bispo em reportagem veiculada na TV Globo em 2 de outubro de 2026. Ensaios adicionais continuam em andamento na Universidade de São Paulo para monitorar as adaptações teciduais em longo prazo. Não constam publicadas as marcas comerciais analisadas, os protocolos laboratoriais exatos nem as dosagens em gramas por quilo utilizadas nos testes clínicos citados.

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