O vício em exercícios físicos tem sua prevalência superestimada na literatura científica internacional devido ao uso inadequado de questionários de triagem como se fossem laudos definitivos. A conclusão consta de uma revisão sistemática publicada no periódico científico Journal of Behavioral Addictions por pesquisadores das universidades ELTE Eötvös Loránd e Széchenyi István, na Hungria, e da Universidade Flinders, na Austrália.
Embora a condição clínica exista e demande acompanhamento profissional especializado, os autores apontam que altas pontuações registradas nesses formulários de autorrelato costumam refletir paixão, perfeccionismo e elevado comprometimento atlético, e não necessariamente uma patologia comportamental instalada. A verdadeira dependência de treino é considerada rara pela comunidade médica e se caracteriza pela perda de controle da rotina, continuidade dos treinamentos mesmo diante de lesões graves e prejuízos severos às relações sociais e de trabalho.
O que dizem os autores do Journal of Behavioral Addictions sobre o diagnóstico?
“As ferramentas de rastreamento do vício em exercício não são instrumentos diagnósticos, apenas identificam a suscetibilidade ou a possível presença de sintomas. Pontuações elevadas costumam estar associadas à paixão, ao perfeccionismo ou ao comprometimento com o esporte, o que significa que podem refletir características motivacionais, e não uma patologia. Nesse sentido, a verdadeira dependência de exercício é, provavelmente, rara”, afirmaram os pesquisadores Attila Szabo, professor de psicologia da Universidade Széchenyi István e da Universidade ELTE Eötvös Loránd, Zsolt Demetrovics, professor da Universidade Flinders e editor-chefe do Journal of Behavioral Addictions, e Bhavya Chhabra, autor principal do estudo pela Universidade ELTE Eötvös Loránd. A pesquisa contou também com a coautoria de Mark D. Griffiths, pesquisador da Universidade Nottingham Trent, no Reino Unido.
A distorção nos números decorre da aplicação de instrumentos como a Exercise Dependence Scale, conhecida pela sigla EDS, que mensura sete aspectos centrais da relação do indivíduo com o treinamento esportivo. Entre os critérios analisados pela escala estão a necessidade de aumentar progressivamente o volume ou a intensidade da carga física, a manifestação de sintomas de abstinência e desconforto emocional perante a impossibilidade de treinar, a perda de controle sobre o tempo dedicado às sessões e a insistência na prática esportiva mesmo quando ocorrem danos evidentes ao corpo.
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Variação dos índices de risco em modalidades esportivas
A revisão sistemática verificou que os percentuais de pessoas enquadradas em patamares de risco variam amplamente conforme o perfil dos grupos analisados pelas pesquisas acadêmicas. Em amostras restritas de modalidades específicas, os números alcançam diferentes patamares:
- Entre 3% e 42%: intervalo geral de praticantes classificados em risco de dependência nos estudos científicos analisados pela revisão internacional.
- 6,1%: taxa de risco de dependência identificada em levantamento realizado com ciclistas espanhóis.
- 7,6%: índice de atletas classificados na faixa de risco em levantamento com competidores dinamarqueses de elite.
- 15,4%: percentual de participantes apontados sob suspeita de dependência entre maratonistas italianos.
Essa disparidade ocorre em razão das diferenças metodológicas entre as pesquisas, do emprego de amostras reduzidas e selecionadas e da confusão analítica ao tratar notas altas de questionários como constatações clínicas. A dedicação extrema ao esporte e a reestruturação da agenda diária para cumprir metas atléticas são comportamentos frequentes em desportistas amadores e profissionais, sem que isso configure adoecimento psíquico na ausência de sofrimento ou disfunção na vida pessoal.
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Diferença entre disciplina e transtorno segundo o Hospital Israelita Albert Einstein
No Brasil, profissionais que atuam na reabilitação desportiva alertam para os riscos de interpretar a assiduidade irrestrita como o único parâmetro de saúde mental. Everton Crivoi, responsável pela preparação física do Espaço Einstein de Esporte e Reabilitação, do Hospital Israelita Albert Einstein, destaca a necessidade de discernir a postura saudável do comportamento compulsivo.
“Uma pontuação alta na escala não significa necessariamente um diagnóstico”, reforçou Everton Crivoi ao analisar o uso prático de formulários de rastreio. O preparador físico do Hospital Israelita Albert Einstein chama a atenção para a propagação de narrativas sociais que associam a frequência ininterrupta nos treinos a uma suposta força de caráter inabalável e tratam as pausas para descanso biológico como sinal de fraqueza pessoal.
“Se você é dedicado, sabe que precisa descansar e consegue cancelar uma sessão sem que isso provoque transtorno emocional. Quando o exercício afeta demais o humor ou a pessoa não consegue parar mesmo doente ou lesionada, pode ser um problema”, pontuou Everton Crivoi, ao explicar que o treinamento não deve se converter na única válvula de regulação emocional do indivíduo.
Evolução cronológica dos estudos sobre a dependência de exercícios
O debate científico sobre o impacto do excesso de exercícios no comportamento humano começou na década de 1970 nos Estados Unidos e passou por diferentes interpretações teóricas antes de consolidar a diferenciação contemporânea entre dependência primária e secundária:
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- 1 de janeiro de 1970: o psiquiatra norte-americano Frederick Baekeland documenta alterações de sono, insônia e sintomas de ansiedade em estudantes universitários privados de realizar exercícios físicos diários.
- 1 de janeiro de 1976: o psiquiatra norte-americano William Glasser formula a expressão dependência positiva para categorizar o engajamento intenso em atividades físicas benéficas e meditação.
- 1 de janeiro de 1979: o psicólogo do esporte William Morgan publica uma contestação conceitual à abordagem de dependência positiva e elenca prejuízos comportamentais e disfunções originadas pela prática em excesso.
- 5 de outubro de 2026: publicação de reportagem técnica da Agência Einstein na Folha de S.Paulo contextualizando a revisão internacional do Journal of Behavioral Addictions.
- 8 de outubro de 2026: circulação dos dados da revisão acadêmica no portal da revista Superinteressante em São Paulo.
Avaliação clínica detalhada e terapia cognitivo-comportamental
O quadro clínico do vício em exercícios físicos divide-se formalmente em duas manifestações descritas pelos pesquisadores. Na dependência primária, o objetivo central, o prazer e a recompensa psíquica residem na própria execução da atividade corporal. Já na dependência secundária, o volume exagerado de treinamento funciona como um sintoma derivado de outras condições de base, como transtornos alimentares, dismorfia muscular ou transtorno dismórfico corporal.
“Pressões relacionadas à aparência e ao desempenho, juntamente com condições como ansiedade e depressão, tendem a estar por trás do comportamento”, salientaram os autores Attila Szabo, Zsolt Demetrovics e Bhavya Chhabra ao descreverem os mecanismos psicológicos que sustentam a compulsão por atividades corporais intensas em indivíduos vulneráveis.
Os pesquisadores recomendam a realização de entrevistas clínicas detalhadas conduzidas por profissionais de saúde para investigar os fatores emocionais associados à rotina, em substituição ao uso exclusivo de testes numéricos de rastreamento. Quando a pessoa em risco não consegue identificar o perigo de lesões e a perda de convívio social, a intervenção de familiares e amigos torna-se indispensável para direcionar o esportista a serviços especializados de saúde mental.
A abordagem terapêutica mais estudada pela literatura científica para restabelecer uma relação equilibrada com as práticas corporais é a terapia cognitivo-comportamental, que busca devolver a autonomia do paciente. O propósito do tratamento não reside na suspensão definitiva das modalidades desportivas, mas em construir um padrão de treino saudável e funcional. “A ideia não é parar, mas garantir maior flexibilidade e entender que está tudo bem perder dias de treino”, explicou Everton Crivoi, preparador físico do Hospital Israelita Albert Einstein.
A dependência de exercício físico ainda não possui critérios diagnósticos globais padronizados nem reconhecimento formal como transtorno mental em compêndios psiquiátricos oficiais, como o DSM-5 da Associação Americana de Psiquiatria ou a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, permanecendo sob acompanhamento e investigação por redes de pesquisadores internacionais.
