Cidades sob risco de enchente captam menos crédito ambiental

Cidade de Juiz de fora com as fortes chuvas

Cidade de Juiz de fora com as fortes chuvas - Reprodução/RECORD Minas

Municípios brasileiros com histórico de enxurradas e inundações captaram 68% menos recursos por habitante em crédito para prevenção e infraestrutura verde durante o ano de 2025 em comparação a cidades sem essa classificação. O levantamento cruzou registros do Sistema de Análise da Dívida Pública com a lista de áreas de risco elaborada pela Casa Civil em Brasília.

Enquanto 17 cidades vulneráveis contrataram R$ 406,3 milhões, totalizando R$ 64 por morador em ações de resiliência ambiental, 28 prefeituras sem a mesma classificação captaram R$ 292,2 milhões, o equivalente a R$ 197 por pessoa. A discrepância decorre das regras do Tesouro Nacional, que avaliam a solvência dos cofres locais por meio da Capacidade de Pagamento, sem considerar a gravidade da emergência climática local.

Diferença de valores por habitante na prevenção contra enchentes

Foto: Chuvas – Foto: Yngstrom/shutterstock.com

O desequilíbrio na destinação de verbas financiadas pelo Sistema Nacional de Fomento se repete quando outros setores essenciais de atendimento básico e proteção são incluídos na apuração financeira de 2025:

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  • Operações de infraestrutura verde e resiliência: R$ 64 por pessoa em cidades vulneráveis contra R$ 197 nas demais
  • Saneamento e obras verdes somados: R$ 122 por habitante em municípios expostos contra R$ 265 nos não vulneráveis
  • Despesas executadas em Defesa Civil: R$ 11,88 por morador em áreas de risco contra R$ 20,89 nas outras localidades
  • Contrato de drenagem em Unaí: R$ 1,1 milhão aprovado junto ao Banco do Brasil para 1 km de galeria pluvial

Para obter financiamento, as prefeituras precisam comprovar solidez fiscal, processo que atrasa intervenções estruturais em periferias urbanas expostas a cheias constantes. Em Unaí, no estado de Minas Gerais, a prefeitura levou anos para ajustar as contas e atingir a nota máxima Capag A, etapa indispensável antes de contratar o financiamento de escoamento no bairro Chácara Rio Preto, onde moradores aguardavam obras de contenção há vinte anos.

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Por que o crédito para obras verdes depende da capacidade fiscal?

O acesso aos empréstimos públicos bancários exige que o ente municipal esteja enquadrado nas faixas superiores da Capacidade de Pagamento, modelo criado para garantir que a administração consiga pagar as prestações sem gerar rombo orçamentário. O diretor-presidente do Centro de Liderança Pública, Tadeu Barros, declarou que a arrumação prévia das contas municipais continua sendo o passo essencial para pleitear financiamentos bancários formais. No entanto, o gerente de Sustentabilidade, Economia e Inovação da Associação Brasileira dos Bancos de Desenvolvimento, Eduardo Djanikian, afirmou que o modelo não diferencia a finalidade da dívida contraída: “Tomar uma dívida para fazer mais asfalto é uma coisa, tomar uma dívida para fazer resiliência climática na cidade é outra coisa. É mais urgente”.

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Marcos e dados do impacto dos eventos hídricos no Brasil

Um estudo conduzido por cientistas do Cemaden, da Universidade de São Paulo e do Inpe apontou que a vulnerabilidade afeta a quase totalidade do território nacional ao longo das últimas décadas:

  • 1991 a 2024: 91,5% dos municípios brasileiros registraram ao menos um desastre associado à água
  • Total de óbitos no período: 4.774 mortes causadas por excesso ou escassez hídrica
  • Prejuízos econômicos acumulados: mais de R$ 740 bilhões em perdas no território nacional
  • 13 de julho de 2026: publicação dos dados consolidados da pesquisa na revista Environmental Research Letters

O pesquisador do Cemaden Elton Vicente Escobar Silva afirmou que a ocorrência de cheias não é imprevisível: “Quisemos sair da mística de que o desastre é algo sobrenatural, que as causas vêm de forças desproporcionais. Há exceções que os modelos climáticos não conseguem prever, mas, para a maioria dos eventos, órgãos nacionais como o Cemaden emitem alertas e o poder público é informado do que pode vir a acontecer. O problema é a negligência, a falta de estrutura e até ausência de atuação”.

Ausência da lista completa das cidades pesquisadas

A relação integral com a identificação nominal dos 17 municípios vulneráveis e das 28 cidades sem risco hídrico avaliadas no levantamento do Sistema Nacional de Fomento não foi divulgada no estudo.

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O estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe aponta que a crise climática pode cortar até 6,3% do Produto Interno Bruto per capita regional até 2030, o que pressiona estados a estruturarem escritórios técnicos de projetos para destravar operações de crédito antes do início dos períodos chuvosos.