Pesquisadores da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um curativo líquido biocompatível que forma uma película transparente sobre a pele em até 45 segundos. Nos ensaios pré-clínicos, o produto demonstrou potencial para reduzir em até 50% o tempo de cicatrização de feridas em comparação com as coberturas tradicionais.
Aplicada diretamente sobre a lesão por meio de um dispositivo em spray ou aerossol, a solução dispensa o uso de gazes, ataduras ou esparadrapos. “Ele é um curativo proativo, que acelera a cicatrização”, afirmou Rubens Maciel Filho, professor da FEQ da Unicamp e coordenador do estudo, em divulgação realizada em 10 de setembro de 2026 pela Agência de Inovação Inova Unicamp.
Como funciona o curativo líquido da Unicamp na pele?
A formulação tem como base o poliácido lático (PLA), um polímero biocompatível — material que não provoca rejeição no organismo — derivado do açúcar e do ácido lático. Para transformar esse polímero sólido em líquido sem recorrer a substâncias nocivas ao paciente, a equipe de engenharia química desenvolveu um sistema de solventes não tóxicos e de origem renovável, permitindo a aplicação direta sobre o tecido machucado sem causar danos celulares.
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Em contato com a superfície cutânea, o líquido origina uma camada fina, flexível e impermeável à água externa. Essa película imita a matriz celular do próprio corpo para estimular a regeneração tecidual e passa a ser gradualmente absorvida pelo organismo à medida que a ferida fecha. O processo elimina a necessidade de remoção manual da cobertura, o que evita o atrito e a retirada acidental do tecido novo que está em formação.
Por acompanhar os movimentos naturais do corpo, o material adapta-se a regiões de dobras e articulações, como joelhos, cotovelos e tornozelos, locais onde os curativos convencionais costumam descolar com facilidade. A impermeabilidade da barreira permite que o paciente tome banho sem precisar isolar a área afetada, enquanto a transparência do filme possibilita o acompanhamento visual da evolução clínica do ferimento sem retirar a proteção.
“O ferimento afeta a qualidade de vida e a pessoa sacrifica muitas atividades que precisam ser realizadas no dia a dia. O grande atrativo da tecnologia em que a Dermbio se baseou é que ela pode levar a um novo método de cobertura da ferida sem haver nenhum toque nela, sem você colocar uma gaze ou atadura. Estamos formando um filme inteligente, no sentido de que ele interage muito bem com a pele e cria uma condição de barreira contra agentes externos que causam infecção, servindo como substrato”, declarou Rubens Maciel Filho.
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Ensaios na Faculdade de Medicina de Jundiaí e redução de contaminação
Os testes pré-clínicos in vivo — realizados em organismos vivos antes da etapa de estudos em seres humanos — ocorreram em colaboração com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ). Foi nessa fase experimental que os cientistas observaram a queda pela metade no tempo de recuperação das lesões frente aos métodos convencionais. Como os dados restringem-se à etapa pré-clínica, os resultados ainda não representam comprovação de eficácia clínica em humanos.
Além de Rubens Maciel Filho na coordenação, o trabalho científico contou com a participação do pesquisador André Luiz Jardini Munhoz e das doutoras em Engenharia Química pela Unicamp Ana Flávia Pattaro e Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon. O projeto recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp
).A aplicação em jato contínuo foi desenhada também para reduzir o risco de infecções hospitalares e domésticas associadas ao manuseio de materiais de enfermagem.
“O fato de não precisar cortar e não precisar trocar também traz uma potencial diminuição na contaminação cruzada. Porque, se você tem uma manta ou gaze e pega uma tesoura que não está esterilizada para cortar, você corre o risco de levar contaminação de uma região para outra. E o fato de você não precisar trocar e de esse material ser absorvido pelo corpo faz com que você também não gere resíduos biológicos”, disse Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon, doutora em Engenharia Química e sócia da Dermbio Biotech.
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Especificações técnicas e dados do curativo líquido da Unicamp
- Instituição desenvolvedora: Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp, em Campinas (SP), com ensaios em parceria com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ).
- Tempo de secagem: até 45 segundos após a aplicação sobre a lesão.
- Desempenho nos testes pré-clínicos: redução de até 50% no tempo de cicatrização em comparação aos curativos tradicionais.
- Composição química: poliácido lático (PLA) combinado a solventes de origem renovável e não tóxicos.
- Apresentações desenvolvidas: uma versão comercial aplicada por dispositivo em aerossol (spray) e uma versão premium com uso de eletrofiador (equipamento que produz fibras ultrafinas).
- Novas aplicações estudadas: tratamento veterinário, formulação de dermocosméticos antienvelhecimento, recobrimento de implantes e próteses e dispositivo para liberação controlada de antibióticos e anti-inflamatórios.
Licenciamento para a Dermbio Biotech e avaliação na Anvisa
Com o suporte estratégico da Agência de Inovação Inova Unicamp, a tecnologia foi licenciada com exclusividade para a Dermbio Biotech, uma spin-off acadêmica — empresa nascida a partir de pesquisas universitárias — que tem os próprios inventores no quadro societário, incluindo Ana Flávia Pattaro como sócia-administradora e Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon como sócia.
A divulgação do licenciamento integra a série de reportagens do Prêmio Inventores 2026 da Inova Unicamp. Antes do curativo líquido, a Dermbio Biotech já havia licenciado outra tecnologia desenvolvida na universidade voltada à produção de polímeros a partir do ácido lático, estudo que rendeu ao grupo de cientistas o Prêmio Inventores Unicamp em 2024.
O curativo líquido ainda não está disponível para compra em farmácias ou uso em hospitais. Até o momento, não há confirmação sobre o preço estimado de venda ao consumidor nem data prevista para o lançamento comercial no mercado brasileiro.
Para que o produto chegue aos pacientes, a Dermbio Biotech trabalha na estruturação comercial e no cumprimento das etapas regulatórias e avaliações clínicas exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
