O empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, financiou com ao menos R$ 4,3 milhões uma rede internacional de prostituição voltada a festas privadas com aliados e autoridades. Mensagens obtidas em aparelhos celulares apontam que a estrutura recrutava mulheres estrangeiras, incluindo refugiadas de guerra, e funcionava desde 2023 sob apuração da Polícia Federal em São Paulo.
As conversas indicam que o banqueiro participava ativamente da triagem das mulheres, definia a permanência delas nos eventos e autorizava repasses financeiros. Em um dos diálogos, o promotor de eventos Diogo Batista escreveu a Vorcaro que o “chefe manda e a gente executa”, enquanto o empresário determinava em outra ocasião: “Já faz seleção, umas 20”.
Polícia Federal investiga exploração sexual e tráfico internacional no esquema de Vorcaro
A Polícia Federal instaurou inquérito em 1 de maio de 2026 para apurar crimes de favorecimento da prostituição com obtenção de lucro, conduta tipificada como cafetinagem, além de verificar indícios de tráfico internacional de pessoas. Pela legislação brasileira, o trabalho sexual individual exercido de forma voluntária por pessoas adultas não é crime, mas a lei penal pune a exploração econômica da atividade alheia e a manutenção de locais para essa finalidade. Para a caracterização do tráfico humano, os investigadores buscam comprovar eventuais situações de abuso de vulnerabilidade, coação, fraude ou ameaça.
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Entre as mulheres contratadas para as festas particulares estavam argentinas, polonesas, russas, venezuelanas e ucranianas. Os registros mostram que o grupo manteve no Brasil uma jovem ucraniana de 19 anos em situação de refúgio, que havia fugido de bombardeios na Ucrânia após uma viagem de ônibus de 14 horas. Em mensagem registrada nas apurações, Batista relatou que impediu a ida da jovem para a Itália ao declarar: “Segurei ela pq ela ia sair pra se refugiar na Itália”. Diante da situação de recrutamento de estrangeiras afetadas pelo conflito no leste europeu, Vorcaro chegou a escrever: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”.
Estrutura logística e pagamentos autorizados por Daniel Vorcaro
A operação do esquema contava com a atuação direta de Batista na capital paulista, encarregado de selecionar as participantes mediante uma remuneração fixa de R$ 120 mil mensais paga por Vorcaro. A coordenação dos deslocamentos e viagens para o exterior ficava a cargo de Leonardo Serrano, proprietário da empresa norte-americana SL Consulting, responsável por passagens, acomodações e transferências financeiras.
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Os registros sob análise policial incluem reuniões sociais e encontros promovidos em capitais brasileiras e cidades do exterior:
- 31 de outubro de 2023: festa temática de Halloween na casa noturna Madame Satã, em São Paulo, com 74 mulheres contabilizadas por Serrano e outras 40 alocadas por Batista no hotel Rosewood;
- 1 de abril de 2024: evento fechado em Londres, no Reino Unido, que reuniu autoridades de Brasília e contou com o transporte de 99 mulheres;
- Abril de 2024 a março de 2025: emissão de 21 faturas pela SL Consulting à Moriah Asset, que somaram US$ 70 milhões para despesas com hospedagens, eventos e fretamentos aéreos gerais;
- 1 de janeiro de 2025: ordem emitida por Vorcaro para suspender os pagamentos e ressarcimentos regulares destinados a Batista.
Negociação de agência e andamento das apurações contra Daniel Vorcaro
As mensagens detalham ainda negociações para a aquisição de 50% da agência Allure Eventos por R$ 1,5 milhão, divididos em três parcelas de R$ 500 mil. A intermediação buscava formalizar a contratação das participantes para blindar a operação, gerando a mensagem de Batista: “Assim estamos blindados!”. Registros bancários no aparelho de Vorcaro apontam transferência de R$ 500 mil via Pix por meio da Super Empreendimentos. O proprietário da agência, Felipe Nisti Cataldo, admitiu a existência de conversas, mas negou que o contrato tenha sido concretizado e disse que precisaria apurar a origem do repasse.
Diogo Batista e Leonardo Serrano não se manifestaram sobre os fatos investigados. A Polícia Federal mantém as apurações em andamento para concluir o inquérito e definir os eventuais indiciamentos dos envolvidos na estrutura.
