Fósseis em Turvo indicam mamaliaforme de 1,55 metro no Cretáceo

Pegadas fósseis de mamaliaformes encontradas no município de Turvo, no Sul de Santa Catarina, revelaram a presença de animais pré-históricos quadrúpedes que alcançavam 1,55 metro de comprimento corporal durante o Cretáceo Inferior. O estudo paleontológico publicado no periódico científico internacional Journal of South American Earth Sciences aponta que os vestígios superam em dimensões todas as marcas semelhantes já catalogadas no antigo supercontinente Gondwana para aquele intervalo geológico.

A pesquisa detalhou duas trilhas fossilizadas preservadas em lajes de arenito retiradas da pedreira AR Mineração. As peças foram recolhidas e incorporadas ao acervo científico do Laboratório de Paleontologia da Faculdade de Geologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro sob os registros de catálogo UERJ IC-170 e UERJ IC-171, após cooperação entre pesquisadores de cinco instituições brasileiras de ensino superior.

Dimensões das pegadas de Turvo superam registros de mamaliaformes

As marcas impressas no arenito revelam pegadas largas que chegam a 11,4 centímetros de comprimento e até 13,4 centímetros de largura, associadas a um padrão de passada contínua estimado em cerca de 40 centímetros. A análise morfológica constatou que as patas possuíam quatro dedos curtos e arredondados, sem garras longas projetadas, padrão característico do deslocamento sobre substrato arenoso e seco.

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A disposição simétrica das impressões confirmou que o animal se deslocava com postura quadrúpede, apoiando os quatro membros no solo. Os cientistas classificaram as marcas dentro da icnofamília Chelichnopodidae, denominação técnica utilizada na icnologia para agrupar pegadas com traços estruturais semelhantes deixadas por tetrápodes, sem que isso represente uma classificação taxonômica biológica direta da espécie.

Historicamente, a comunidade científica associava os mamaliaformes da Era dos Dinossauros quase com exclusividade a animais de pequeno porte, semelhantes a roedores ou musaranhos. O tamanho corporal de 1,55 metro estimado a partir da amplitude dos passos e do tamanho das patas demonstra que linhagens próximas aos mamíferos atingiram portes médios a grandes muito antes do que os registros convencionais costumavam demonstrar.

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Dados geológicos e morfológicos das amostras de Turvo

As análises laboratoriais e de campo reuniram medições exatas sobre as placas de arenito e o ambiente de deposição fóssil:

  • Comprimento corporal estimado para o animal: 1,55 metro
  • Comprimento máximo verificado nas pegadas: 11,4 centímetros
  • Largura máxima identificada nas impressões: 13,4 centímetros
  • Extensão média da passada entre marcas sucessivas: 40 centímetros
  • Quantidade de dígitos visíveis em cada impressão: 4 dedos
  • Idade geológica estimada da Formação Botucatu: cerca de 130 milhões de anos
  • Origem dos blocos de rocha: pedreira AR Mineração, em Turvo
  • Códigos de depósito museológico: UERJ IC-170 e UERJ IC-171

Paleodeserto Botucatu preservou pegadas em vez de esqueletos

As rochas onde os fósseis foram identificados pertencem à Formação Botucatu, unidade geológica formada há cerca de 130 milhões de anos na Bacia do Paraná. Naquele momento do Cretáceo Inferior, o território correspondente ao Sul do Brasil integrava um gigantesco paleodeserto arenoso caracterizado por dunas ativas e clima árido, inserido no supercontinente Gondwana, bloco de terras que reunia áreas nesta terça-feira (13) divididas entre América do Sul, África, Antártida e Oceania.

Em ambientes desérticos oxidantes e dinâmicos como o paleodeserto Botucatu, restos ósseos e dentes raramente sobrevivem aos processos de fossilização, pois a decomposição e a abrasão do vento destroem o material biológico antes do soterramento definitivo. Em razão dessa característica sedimentar, os icnofósseis constituem o método principal pelo qual os cientistas conseguem mapear os animais que habitaram a região.

A umidade ocasional ou o orvalho nas encostas das dunas permitiam a retenção transitória das pegadas na areia. Camadas sucessivas de sedimentos eólicos recobriram as marcas sem erodi-las, consolidando as impressões no arenito que milhões de anos mais tarde foi exposto pelas atividades de lavra mineral no interior catarinense.

Pesquisa reúne universidades e aponta lacunas anatômicas dos fósseis

O trabalho acadêmico teve a condução inicial do paleontólogo Pedro Victor Buck, professor da Universidade do Estado de Minas Gerais, em parceria com os pesquisadores Hermínio Ismael de Araújo Júnior, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Aline Marcele Ghilardi, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e Marcelo Adorna Fernandes, da Universidade Federal de São Carlos, com suporte de integrantes da UniSATC. O estudo foi aceito e disponibilizado originalmente no Journal of South American Earth Sciences em 1 de agosto de 2026, com desdobramentos de divulgação ocorridos na segunda-feira (12).

Apesar da precisão geométrica das trilhas, a ausência de ossos fósseis impede determinar o gênero e a espécie biológica aos quais o animal pertencia. Detalhes anatômicos externos como presença de pelos, estrutura do crânio, dentição e preferências alimentares exatas permanecem indefinidos, já que a icnologia preserva apenas o comportamento mecânico locomotor sobre o terreno.

As lajes UERJ IC-170 e UERJ IC-171 permanecem sob guarda da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde novas etapas de imageamento tridimensional e comparações morfométricas com pegadas da África e de outras bacias sedimentares do Gondwana serão realizadas pelos pesquisadores.

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