Pacientes com doenças graves enfrentam atrasos da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) na liberação de medicamentos importados em São Paulo, Minas Gerais e Alagoas em outubro de 2026. Os processos sanitários, que antes levavam de dois a cinco dias úteis para conclusão, passaram a demorar semanas ou mais de um mês a partir de setembro, retendo fármacos essenciais para tratamentos de câncer avançado e para um transplante de medula óssea infantil.
Questionada sobre a retenção das remessas, a Anvisa atribuiu a demora ao aumento expressivo de pedidos de importação nos últimos seis meses, especialmente de produtos sem registro no Brasil. O órgão informou que solicitações com indicação médica de urgência têm prioridade, mas afirmou que “é preciso considerar a alta demanda”, com prazos de análise que podem chegar a até 60 dias.
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Atraso da Anvisa no aeroporto de Viracopos adia transplante de menino de 6 anos
Entre os pacientes afetados pela fila de espera da agência reguladora está um menino de 6 anos, identificado pelo nome fictício Lucas para preservar sua identidade, que recebeu aos 3 anos o diagnóstico de síndrome Ipex, uma condição autoimune rara que provoca grave inflamação intestinal e sangramentos nas fezes. Sem tratamento imediato e adequado, a doença evolui rapidamente para quadros de desnutrição extrema, desidratação crônica e disfunção de múltiplos órgãos, razão pela qual a equipe médica indicou o transplante de medula óssea como única chance de cura após outras terapias não apresentarem resultado.
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Para realizar o procedimento, a família mudou-se em julho de 2026 do Espírito Santo para a cidade de São Paulo. Um doador internacional foi localizado, mas a criança precisa cumprir uma etapa preparatória de nove dias de quimioterapia com o medicamento importado Trecondi (treossulfano), indisponível no mercado brasileiro. Comprado com recursos do plano de saúde, o remédio permanece retido em análise sanitária mesmo após pedidos de prioridade.
A mãe da criança, Kiara Ferreira, tentou obter informações pela ouvidoria, pelo telefone e pelo chat da Anvisa, sem sucesso. Desde julho, o menino passou por cerca de cinco internações, e a família teme que a espera comprometa o agendamento com o doador internacional. “Não temos como pedir urgência em uma situação que já é urgente e envolve a vida de uma criança”, disse Kiara Ferreira. “Não podemos ficar escolhendo datas”, afirmou.
Imunoterapia e remédio para tumor seguem retidos pela Anvisa em Minas e Alagoas
Em Pouso Alegre (MG), a corretora de imóveis Andréa Baier, de 60 anos, aguarda a liberação do imunoterápico Keytruda (pembrolizumabe) desde agosto de 2026. Diagnosticada em dezembro de 2025 com melanoma inoperável em estágio avançado, com metástases no pulmão e em linfonodos, ela acionou a Justiça e obteve decisão que obrigou o Estado de Minas Gerais a custear o fármaco.
Com a retenção na Anvisa, a defesa da paciente impetrou um mandado de segurança para tentar liberar o produto. Enquanto espera, Andréa Baier realiza sessões paliativas de quimioterapia a cada 20 dias, enfrentando náuseas e fraqueza sem garantia médica de melhora. Responsável pela guarda da neta de 6 anos e pelo auxílio financeiro à mãe de 84 anos, que mora sozinha em São Paulo, ela relatou o impacto da demora. “Minha vida está em jogo”, declarou. “Tudo que era para eu fazer, eu fiz. Se eu não tomar essa medicação, eu não vou muito em frente”, disse a corretora.
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Situação semelhante ocorre em Boca da Mata (AL) com o aposentado Genauro Bastos, de 72 anos. Diagnosticado com tumor neuroendócrino em 2015, quando passou por cirurgia no pâncreas, ele enfrenta desde 2017 uma recidiva da doença com metástases no fígado e utiliza o medicamento Sandostatin LAR (octreotida) para conter o avanço do quadro. Como o SUS (Sistema Único de Saúde) não fornece o item regularmente, o custeio é feito pelo Estado de Alagoas por meio de ação da Defensoria Pública estadual, exigindo renovação do pedido a cada fim de estoque.
Na renovação mais recente, a empresa especializada FarmaAurora adquiriu o fármaco no exterior, mas a remessa segue bloqueada pela vigilância sanitária no Brasil. Segundo o gestor farmacêutico da FarmaAurora, Paulo Morais, a Anvisa exigiu que a empresa tivesse registro para comercializar o medicamento no país, o que motivou a impetração de um mandado de segurança sob o argumento de que a firma atua apenas como assessoria de importação para acesso a tratamentos de alto custo, e não como comerciante no mercado nacional.
Sem a medicação, Genauro Bastos perdeu cerca de cinco quilos e apresenta dificuldade para se alimentar, além de náuseas e vômitos diários. Para a filha do aposentado, Juliana, a retenção afeta toda a rotina doméstica. “O câncer não mata só meu pai, mas toda a família”, afirmou. “A cada dia que passa, a nossa esperança de melhorar a qualidade de vida e de segurá-lo por mais tempo aqui com a gente se dissipa”, disse Juliana.
Cronologia e dados dos medicamentos retidos na Anvisa em 2026
Além desses três processos, veio a público na quarta-feira (14) o caso do advogado Herberto Alfonso, de 58 anos, diagnosticado em setembro de 2025 com melanoma ocular com metástase no fígado. Importado como pessoa física com auxílio da empresa World Medic, o seu medicamento também permanece retido na agência reguladora apesar de acionamentos feitos à ouvidoria da Anvisa e à Controladoria-Geral da União (CGU). As datas e especificações das quatro remessas paradas são as seguintes:
- Keytruda (pembrolizumabe), para Andréa Baier: chegou ao Brasil em 13 de agosto de 2026 e entrou em análise na Anvisa em 14 de agosto de 2026.
- Sandostatin LAR (octreotida), para Genauro Bastos: adquirido no exterior em 19 de agosto de 2026, desembarcou no país em 2 de setembro de 2026.
- Trecondi (treossulfano), para o menino Lucas: chegou ao Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), em 18 de setembro de 2026.
- Kimmtrak (tebentafusp), para Herberto Alfonso: chegou ao território nacional em 26 de setembro de 2026 e está em análise na agência desde 29 de setembro de 2026.
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Sistema digital da Anvisa adotado em 2025 acumulou processos
O entrave relatado pelos pacientes e empresas importadoras ocorre após uma mudança operacional dentro da autarquia federal. Desde outubro de 2025, a Anvisa passou a adotar um novo sistema digital para centralizar a análise das declarações de importação, substituindo o modelo anterior em que despachantes conseguiam resolver pendências diretamente com os fiscais nos aeroportos no prazo de um a dois dias. Em junho de 2026, a própria agência admitiu dificuldades operacionais na adaptação à plataforma eletrônica e o consequente acúmulo de processos na fila.
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Ao relatar a dificuldade para liberar o Kimmtrak, Herberto Alfonso criticou a falta de respostas específicas no atendimento do órgão. “Mesmo explicando que se trata de tratamento oncológico contínuo e urgente, a orientação recebida é apenas aguardar a tramitação normal. Somos submetidos a um excesso de protocolos, sem um canal efetivo de atendimento capaz de compreender a urgência de situações em que cada dia pode fazer diferença”, declarou o advogado.
Até esta quinta-feira (15), a Anvisa não respondeu sobre o andamento atualizado nem detalhou quais pendências específicas impedem a liberação dos processos de Lucas, Andréa Baier e Genauro Bastos. A agência também não divulgou o número total de pedidos de importação de pessoas físicas que aguardam autorização na fila de análise.
