A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta oficial nesta quinta-feira (15) para desmentir publicações nas redes sociais que indicam o antiparasitário ivermectina como tratamento ou cura para o câncer. O órgão regulador identificou que perfis na internet estão comercializando e-books e protocolos terapêuticos que utilizam o remédio como substância principal contra tumores, prática que não possui respaldo científico e coloca em risco a vida dos pacientes.
Nas postagens monitoradas pela agência, criadores de conteúdo divulgam informações enganosas sobre o suposto início de ensaios clínicos voltados a comprovar benefícios do medicamento em pacientes oncológicos. “No entanto, NÃO existem evidências científicas de que a ivermectina cure câncer ou qualquer outra doença além daquelas previstas em sua bula: o medicamento atua contra várias espécies de parasitas e vermes”, informou a Anvisa, em comunicado oficial.
Como funciona o alerta da Anvisa sobre a ivermectina?
O posicionamento da autarquia federal busca frear a comercialização de guias digitais que prometem reverter quadros oncológicos por meio de substâncias sem eficácia atestada para essa finalidade. “Nas redes sociais, circulam informações a respeito de estudos em laboratório (in vitro) e em animais, sugerindo que o medicamento poderia ter propriedades antitumorais. Várias postagens informam que foram iniciados ensaios clínicos, para demonstrar segurança e benefício real para pacientes com câncer, e comercializam e-books e protocolos de tratamento que têm a ivermectina como medicamento-chave”, declarou a agência na nota.
Para esclarecer a situação regulatória do produto no país e os perigos apontados pela vigilância sanitária, os principais pontos do documento divulgado pelo órgão envolvem:
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- Órgão responsável: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sediada em Brasília (DF), por meio da editoria institucional Anvisa sem desinformação.
- Data da publicação: 15 de outubro de 2026.
- Indicação autorizada em bula: uso restrito exclusivamente ao combate de infecções provocadas por vermes e parasitas.
- Situação de pesquisas em humanos: ausência total de comprovação clínica sobre redução, controle ou eliminação de tumores em pessoas.
- Terapias oncológicas reconhecidas: cirurgia, quimioterapia, radioterapia e imunoterapia, definidas conforme o caso clínico.
Limitações dos testes de laboratório com ivermectina e mebendazol
A sustentação usada pelos vendedores de protocolos nas redes sociais baseia-se em pesquisas preliminares que analisaram a ação da ivermectina e do mebendazol um medicamento antiparasitário e antiprotozoário empregado principalmente no tratamento da doença de Chagas. Esses experimentos observaram algum efeito contra células tumorais, mas ocorreram estritamente em ambiente controlado de laboratório (testes in vitro, feitos em recipientes de vidro ou plástico) e em cobaias animais, especificamente ratos.
A agência reguladora enfatiza que resultados iniciais em cultura celular ou em roedores não autorizam a prescrição para seres humanos, pois a segurança e a eficácia terapêutica dependem de várias fases de testes clínicos posteriores. “Estudos in vitro e em animais são os primeiros realizados em pesquisas iniciais, mas, por si só, NÃO são suficientes para comprovar a eficácia terapêutica de um medicamento”, afirmou a Anvisa no texto.
Além da falta de comprovação científica na literatura médica, o setor farmacêutico não apresentou demandas formais para alterar a destinação do produto no Brasil. “NÃO existe pedido ou estudo de nenhum laboratório junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para que esse medicamento também seja indicado em bula para tratamentos oncológicos”, acrescentou o órgão.
Riscos de abandono do tratamento oncológico e dados sobre a doença
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A principal preocupação sanitária decorrente da circulação desses e-books é a possibilidade de que pessoas diagnosticadas com neoplasias deixem de seguir as orientações médicas tradicionais para adotar os protocolos alternativos vendidos na internet. A substituição de procedimentos validados reduz de maneira expressiva as probabilidades de cura ou de estabilização do quadro clínico.
Outro fator de risco apontado pela vigilância sanitária é a interação medicamentosa. A ingestão de fármacos antiparasitários por conta própria pode interferir diretamente na ação dos medicamentos oncológicos convencionais administrados ao paciente, além de agravar quadros de efeitos colaterais provocados pela terapia padrão.
A complexidade da doença exige acompanhamento especializado e individualizado, considerando a condição física da pessoa, o estágio de avanço e a natureza específica da lesão. Os dados globais citados no alerta da Anvisa e levantamentos científicos demonstram a dimensão do problema de saúde pública:
- Mais de 200: quantidade de tipos diferentes de câncer existentes, o que impede a adoção de um protocolo único para todos os pacientes.
- Mais de 20 milhões: total anual de novos diagnósticos de câncer registrados no mundo, segundo estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS).
- Quase 10 milhões: estimativa anual de mortes provocadas pela doença em escala global, de acordo com a OMS.
- 5%: proporção de compostos testados em modelos animais que efetivamente avançam nas pesquisas e se mostram viáveis para aprovação em seres humanos, segundo estudo publicado em 2024 na revista científica PLOS Biology que avaliou o cenário da Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora dos Estados Unidos.
Origem dos boatos sobre a ivermectina em 2019 e impacto nos Estados Unidos
A disseminação de conteúdos que associam o vermífugo ao combate de tumores não é recente e circula em plataformas digitais desde 2019. Naquele ano, a divulgação de investigações primárias conduzidas em células de laboratório e em camundongos envolvendo a ivermectina e o mebendazol deu início às primeiras ondas de desinformação sobre o tema na internet.
O assunto ganhou novo impulso nas redes sociais em janeiro de 2025, após declarações públicas do ator norte-americano Mel Gibson. Na ocasião, o artista afirmou que três amigos diagnosticados com câncer em estágio avançado teriam alcançado a cura após ingerirem substâncias como a ivermectina.
O reflexo desse tipo de declaração no comportamento de pacientes foi mensurado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Um estudo da instituição publicado no periódico científico JAMA Network Open, em maio de 2026, revelou que o volume de prescrições de ivermectina para pessoas com diagnóstico de câncer mais que dobrou nos Estados Unidos após o episódio de janeiro de 2025, mesmo diante da inexistência de comprovação clínica para a prática.
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Orientation médica: o que pacientes com câncer devem fazer
O alerta emitido pela Anvisa destina-se a todos os pacientes em investigação ou em tratamento oncológico, bem como a seus familiares e cuidadores. A recomendação oficial é recusar a compra de protocolos vendidos em redes sociais e nunca iniciar o uso de medicamentos sem a prescrição direta do médico responsável pelo acompanhamento do caso.
A definição da conduta terapêutica adequada deve ser feita exclusivamente em hospitais, clínicas especializadas e serviços de oncologia habilitados, onde o profissional de saúde avalia a indicação precisa de cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou imunoterapia conforme o tipo específico de tumor.
