A Universidade de Nottingham revelou na terça-feira (13) que a produção pós-romana de chumbo na região do Peak District, em Derbyshire, na Inglaterra, recomeçou em meados do século 7 d.C. A conclusão veio da análise química do esmalte dentário de restos mortais de três cemitérios locais e provou que crianças medievais sofreram exposição ao metal tóxico em níveis equivalentes ou superiores aos de moradores de cidades britânicas durante a Revolução Industrial, entre 1750 e 1850.
O levantamento publicado na revista científica Antiquity reconstruiu o histórico de contaminação infantil entre aproximadamente os anos 650 e 1500 d.C., ao combinar assinaturas químicas preservadas nos dentes com datação por radiocarbono. “A equipe está satisfeita por ter finalmente confirmado de forma definitiva a data em que a indústria de chumbo do início da Idade Média se estabeleceu no Peak District, em meados do século 7 d.C., por meio de evidências fornecidas pelas próprias pessoas, lançando as bases da maior região produtora de chumbo da Europa Ocidental entre o final do século 12 e o século 16”, disse Christopher P. Loveluck, professor de Arqueologia Europeia Medieval no Departamento de Clássicos e Arqueologia da Universidade de Nottingham e autor principal do estudo, em tradução livre.
Como o esmalte dentário preservou a contaminação no Peak District
Os cientistas recorreram aos restos humanos porque o esmalte dentário se forma durante a infância, aproximadamente na faixa etária de 4 a 12 anos, e não passa por remodelação ao longo da vida adulta. Essa característica biológica transformou os dentes das populações antigas em um arquivo químico permanente do chumbo absorvido pelo organismo durante a fase de crescimento nas vilas inglesas.
As medições apontaram que, após o reinício da atividade metalúrgica no século 7, a extração e a fundição ganharam escala rapidamente. Já em meados do século 8 d.C., a produção em grande volume contaminava áreas amplas ao redor de centros de mineração como Castleton. O pico máximo de poluição nos esqueletos analisados foi registrado no final do século 12 e início do século 13, com auge documentado entre aproximadamente 1180 e 1215, período em que a indústria local atingiu seu maior volume.
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Desigualdade social e morte prematura de mulheres em Derbyshire
O chumbo é um metal capaz de danificar os sistemas nervoso, renal e reprodutivo humano, espalhando-se na época por meio de fumaça, poeira e materiais manipulados nas vilas. A pesquisa identificou que a absorção desse poluente variava conforme a posição social e o gênero dos habitantes da região central da Inglaterra.
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Ao cruzar os dados químicos com os itens encontrados nas covas, os arqueólogos descobriram que indivíduos sepultados com bens de prestígio — como uma espada na sepultura 4, um amuleto de esfera de cristal e um pingente de dente de castor engastado em ouro no cemitério de Wigber Low — tinham concentrações de chumbo mais baixas do que pessoas em sepultamentos simples. “Isso sugere que as elites podem ter controlado ou se beneficiado da produção de chumbo, enquanto famílias de status inferior estavam mais diretamente envolvidas no processamento do minério e na fundição, expondo as crianças dentro dessas comunidades a níveis muito mais altos de poluição”, afirmou Loveluck.
A contaminação doméstica teve impacto direto na expectativa de vida das mulheres daquelas comunidades, que morreram predominantemente no início da vida adulta, incluindo três jovens falecidas entre os 17 e os 25 anos com alto índice de exposição infantil ao metal. “Sabemos por estudos modernos que o chumbo pode ter efeitos profundamente nocivos na saúde e no desenvolvimento das crianças: não há nível seguro de exposição. Todos os indivíduos incluídos em nosso estudo sobreviveram até a idade adulta, mas foram expostos ao chumbo enquanto eram jovens e estavam em fase de crescimento. Podemos dizer a partir de seus esqueletos que a maioria dos homens que estudamos viveu até a meia-idade ou velhice, enquanto as mulheres morreram principalmente muito mais cedo, no início da vida adulta”, explicou a doutora Anna Bloxam, pesquisadora da Universidade de Nottingham, coautora do estudo e codiretora das escavações em Castleton.
Segundo a pesquisadora, o risco pode ter sido agravado durante a gestação, fase em que o metal acumulado nos ossos volta a ser liberado na corrente sanguínea. “Nossos resultados indicam que, nessas comunidades mineradoras, meninas e meninos foram criados em ambientes domésticos perigosamente poluídos. Essa exposição provavelmente causou efeitos negativos à saúde em vida e talvez tenha contribuído para taxas mais altas de morte prematura entre mulheres em idade fértil”, declarou Bloxam.
Por que a mineração entre os séculos 16 e 19 apagou os vestígios em Derbyshire
O estudo da Universidade de Nottingham foi o primeiro a medir a contaminação diretamente nas pessoas que extraíram e processaram o minério na maior zona produtora de chumbo da Europa Ocidental medieval, superando uma lacuna física deixada pela própria indústria ao longo dos séculos seguintes. Entre os séculos 16 e 19, os resíduos de chumbo deixados pelos trabalhadores dos períodos romano e medieval foram repetidamente reprocessados e refundidos por mineradores modernos, atividade que destruiu a maior parte dos vestígios arqueológicos industriais na superfície que serviriam para datar o início da exploração.
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Para contornar a falta de ruínas industriais intactas, o trabalho reuniu especialistas do British Geological Survey (o serviço geológico britânico), da Universidade de Sheffield, da organização de pesquisa York Archaeology e da entidade local Castleton Historical Society. A comparação dos esqueletos de Derbyshire com dados de populações de toda a Grã-Bretanha, desde o período Neolítico até a Revolução Industrial, confirmou que a poluição enfrentada pelas crianças do século 7 já igualava ou superava a registrada nas cidades fabris britânicas entre 1750 e 1850.
Cemitérios de Derbyshire analisados e dados da publicação na Antiquity
As amostras biológicas que permitiram a reconstrução histórica vieram de décadas de trabalhos de campo em diferentes pontos do Peak District. As escavações nos dois cemitérios de Castleton foram conduzidas em conjunto pela Universidade de Sheffield e pela Castleton Historical Society entre 2009 e 2026, enquanto as sepulturas de Wigber Low haviam sido escavadas entre 1975 e 1976.
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- Data da publicação: 13 de outubro de 2026, em acesso aberto na revista científica Antiquity (editada pela Cambridge University Press), sob o identificador DOI 10.15184/aqy.2026.10416.
- Título original do artigo: Social dynamics of toxic metal industry in medieval Europe: Peak District lead production, AD 600–1500 (Dinâmicas sociais da indústria de metais tóxicos na Europa medieval: produção de chumbo no Peak District, 600–1500 d.C., em tradução livre).
- Cemitérios analisados (3 locais): Wigber Low (no Derbyshire White Peak, datado do século 7, entre aproximadamente 625 e 685 d.C.), Joule Yard (em Castleton, dos séculos 7 a 11) e Spital Field (em Castleton, associado a um hospital medieval, dos séculos 12 a 15).
- Autores do estudo: Christopher P. Loveluck, Hannah J. O’Regan, Anna Bloxam, Catrin Fear, Jane Evans, Simon Chenery, Carolyn Chenery, Colin Merrony (envolvido no mapeamento dos cemitérios de Castleton), Fiona E. Moore e Angela Darlington.
