Escavação em Apulum revela porta romana sob forte medieval

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Paleontólogos, arqueólogos, fóssil, escavação - Евгений Харитонов/ istockphoto.com Foto: Paleontólogos, arqueólogos, fóssil, escavação - Евгений Харитонов/ istockphoto.com

Arqueólogos do Museu Nacional da União identificaram em Alba Iulia, na Romênia, os vestígios da Porta Praetoria, a entrada principal do lado leste do acampamento militar romano de Apulum. Desenterrada a quatro metros de profundidade durante escavações no bastião Capistrano, a estrutura do século II teve suas fundações reaproveitadas séculos mais tarde na construção da Porta de São Jorge, no período medieval.

Os detalhes sobre a arquitetura e a planimetria da construção foram anunciados publicamente em 22 de setembro de 2026 pela coordenadora científica da escavação, a arqueóloga Anca Timofan. “Depois de 40 anos desde a identificação da porta sul, uma nova porta foi descoberta no lado leste, no âmbito da pesquisa arqueológica sistemática no bastião Capistrano. Pela Porta Praetoria chegava-se, pela Via Praetoria, ao edifício do comando do castro da Legião XIII Gemina. A plataforma maciça da fundação de uma das torres, descoberta a 4 metros de profundidade, nos oferece informações importantes sobre as dimensões e a planimetria da porta romana”, afirmou Timofan, em tradução livre do romeno.

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Escavação no bastião Capistrano revela estrutura da Porta Praetoria

O trabalho da equipe concentrou-se na cidadela de Alba Carolina, onde os pesquisadores localizaram a base maciça da torre norte da entrada romana. A partir da Porta Praetoria iniciava-se a Via Praetoria, estrada interna que conduzia diretamente à principia, nome dado pelos romanos ao edifício de comando e centro administrativo do acampamento militar, chamado de castrum. O forte de Apulum abrigava a Legião XIII Gemina e possuía muralhas de pedra que mediam 480 por 432 metros, o que delimitava uma área interna aproximada de 20,7 hectares.

Para determinar o formato exato do acesso recém-descoberto, os arqueólogos estabeleceram comparações diretas com a Porta Principalis Dextra, a entrada sul do mesmo acampamento, que havia sido localizada em 1986, há 40 anos, e posteriormente passou por uma reconstrução parcial. O cruzamento dos dados permitiu concluir que a Porta Praetoria contava com duas grandes torres retangulares nas extremidades, dois arcos de passagem e uma parede divisória central, chamada de muro mediano. Toda a edificação romana foi levantada por meio da técnica conhecida como opus quadratum, método construtivo que utilizava grandes blocos de calcário cuidadosamente talhados.

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Além da entrada principal do lado leste, as escavações na parte inferior do bastião Capistrano revelaram um segmento da parede leste da palestra do forte romano. Esse espaço funcionava como um edifício quadrilátero dotado de um pátio interno cercado por colunatas, onde os soldados da legião realizavam seus treinamentos físicos e militares. Assim como ocorreu com a entrada do acampamento, o muro da área de treinamento acabou sobreposto séculos depois pelo traçado da muralha medieval.

Reaproveitamento na Porta de São Jorge e relatos do século XVII

A sobreposição das estruturas no mesmo ponto geográfico demonstrou que os construtores medievais aproveitaram os alicerces deixados pelos romanos para erguer a Porta de São Jorge, conhecida localmente como Poarta Sfântul Gheorghe. A um nível mais raso, a três metros de profundidade, os pesquisadores identificaram a estrutura norte do complexo desse acesso medieval. O trecho preservava paredes laterais e pilares de um corredor que ligava a torre de entrada a uma barbacã circular, que funcionava como fortificação avançada de defesa, tudo edificado com o uso de tijolos, fragmentos de calcário e argamassa.

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A comprovação física de que a entrada medieval repousava sobre a base romana validou textos históricos escritos há mais de trezentos anos por observadores que passaram pela região da Transilvânia. “Nossa pesquisa confirmou que as fundações da porta romana foram reutilizadas e incorporadas à estrutura da Porta de São Jorge medieval. Essa sobreposição é ainda mais espetacular, dado que a origem romana da porta medieval já havia sido mencionada nos relatos de viajantes estrangeiros do século XVII”, declarou a coordenadora Anca Timofan, em tradução livre.

Entre os registros históricos confirmados pelo achado arqueológico está a descrição feita pelo cronista do século XVII Wolfgang Bethlen, que relatou a existência de elementos escultóricos clássicos integrados à fortificação posterior. “…tem duas portas gêmeas, uma voltada para o leste, em direção aos rios Mureş e Ampoi, chamada Porta de São Jorge, fortificada com uma barbacã. Acima desta porta encontrava-se a imagem de Rômulo e Remo amamentados pela loba, provavelmente uma relíquia romana”, escreveu Bethlen em relato citado por Timofan, em tradução livre.

De Trajano aos Habsburgo: quatro períodos sob Alba Carolina

A área escavada no bastião Capistrano expôs uma sequência contínua de uso militar e político do terreno ao longo de diferentes eras. O acampamento original de Apulum foi fundado logo após a conquista da província da Dácia pelo imperador Trajano, no início do século II d.C., servindo de quartel-general ininterrupto para a Legião XIII Gemina durante toda a administração romana na região, entre os anos de 106 e 271 d.C., antes de o espaço ganhar novas funções nos séculos seguintes.

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Mais de um milênio após a retirada das tropas imperiais romanas, a Porta de São Jorge assumiu papel central na história política da Romênia. Foi exatamente por esse acesso que o governante Miguel, o Valente, conhecido como Mihai Viteazul, realizou sua entrada triunfal na fortaleza em 1 de novembro de 1599, episódio histórico que passou a ser retratado em diversas obras de arte do país. Posteriormente, entre 1716 e 1735, o Império Habsburgo ergueu sobre os sítios medieval e romano a atual cidadela de Alba Carolina, projetada em estilo Vauban com sete bastiões dispostos em formato de estrela.

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Nas três seções arqueológicas abertas pela equipe do Museu Nacional da União no bastião Capistrano, os especialistas documentaram materiais e estruturas pertencentes a quatro épocas distintas da história europeia:

  • Época romana: estruturas datadas dos séculos II a III d.C., incluindo a base da Porta Praetoria e a parede da palestra;
  • Início do período medieval: vestígios de ocupação compreendidos entre os séculos IX e XII;
  • Principado da Transilvânia: construções e reformas realizadas durante os séculos XVI e XVII;
  • Domínio do Império Habsburgo: fortificações erguidas ao longo dos séculos XVIII e XIX.

Alguns dados estruturais citados em referências anteriores sobre o acampamento de Apulum ainda não foram confirmados nos comunicados técnicos recentes da equipe de escavação sobre a área da Porta Praetoria. Entre esses pontos sem detalhamento oficial na divulgação de setembro de 2026 estão o ano exato em que o forte de terra e paliçada teria sido reconstruído em pedra, apontado preliminarmente como 138 d.C., bem como as medidas específicas de sete metros de altura para a muralha, a espessura superior a dois metros e a existência de um fosso defensivo com profundidade entre cinco e seis metros.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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