Supervisores financeiros dos Estados Unidos, do Reino Unido e da União Europeia intensificaram a fiscalização sobre o uso de inteligência artificial nos bancos a partir desta terça-feira (13). A ofensiva regulatória ocorre para evitar que ataques cibernéticos ou agentes autônomos fora de controle provoquem falhas capazes de comprometer a estabilidade do sistema financeiro global.
Autoridades monetárias temem que a velocidade de adoção dessas ferramentas supere a capacidade de proteção das próprias instituições. Nesta quinta-feira (15), durante a reunião anual do Institute of International Finance (IIF, associação global de instituições financeiras), em Bancoc, a vice-presidente do Banco da Inglaterra (BoE, o banco central britânico), Sarah Breeden, afirmou que a tecnologia atingiu um patamar de risco sistêmico para a infraestrutura financeira. “A questão cibernética é sempre o que digo que me tira o sono à noite. O que mais me preocupa é acordar e ver que um dos nossos bancos mais importantes para o sistema ou uma parte da infraestrutura central foi atacado e está paralisado”, disse Breeden, em tradução livre.
Como funciona a fiscalização da inteligência artificial nos Estados Unidos?
Nos Estados Unidos, o cerco é conduzido por três agências federais: o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), o Office of the Comptroller of the Currency (OCC, órgão que regula e supervisiona os bancos nacionais) e a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC, agência federal que garante os depósitos bancários). Os três órgãos iniciaram uma rodada de questionamentos verbais e por escrito direcionados a instituições financeiras de grande, médio e pequeno porte para detalhar a operação de modelos avançados e sistemas que tomam decisões com mínima intervenção humana.
Saiba mais: Uso de inteligência artificial para compras no Brasil vai a 72%
Durante as abordagens técnicas, os fiscais norte-americanos cobram respostas sobre a origem dos softwares utilizados pelas instituições, verificando especificamente se os bancos empregam tecnologias de inteligência artificial desenvolvidas na China ou se usam agentes automatizados para identificar, priorizar e responder a ameaças digitais. As agências também exigem saber quais limites operacionais, mecanismos de auditoria, estruturas de supervisão humana e chaves de desligamento de emergência existem para interromper sistemas autônomos caso apresentem comportamento imprevisto, embora o processo ainda esteja na fase de coleta de dados, sem imposição de regras formais até o momento.
Veja também: CNE aprova regras para uso de inteligência artificial no país
Procurados para detalhar o andamento das apurações, o Federal Reserve, o OCC e a FDIC recusaram comentar o assunto. Os nomes específicos dos bancos que já foram interrogados pelas autoridades norte-americanas não foram revelados porque as tratativas correm sob condição de anonimato.
Prazos do BCE e planos do Banco da Inglaterra para o setor bancário
No continente europeu, a preocupação concentra-se na velocidade com que uma pane tecnológica pode contaminar o mercado. Um executivo graduado de um grande banco europeu, cuja identidade também foi mantida sob anonimato, relatou temor de que a evolução rápida dessas ferramentas cause danos e perturbações severas aos mercados bancários e financeiros dentro de um prazo de seis meses. Para conter esse risco, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra passaram a exigir planos de recuperação mais rígidos e maior controle sobre fornecedores terceirizados de tecnologia.
Acompanhe: Inteligência artificial provoca cortes de livros e contratos
No Reino Unido, a orientação aos grandes bancos é desenvolver sistemas de contingência chamados de “bare metal” — estruturas de tecnologia totalmente independentes da rede principal do banco, desenhadas para assumir as operações essenciais do zero caso os servidores primários sejam destruídos ou sequestrados. Essa diretriz já havia sido destacada no final de agosto de 2026 pelo presidente do Banco da Inglaterra e do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, órgão internacional que monitora o sistema financeiro global), Andrew Bailey, em carta enviada a ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo).
Em seu discurso em Bancoc, Sarah Breeden reforçou que os bancos britânicos também estão sendo incentivados a usar modelos de ponta para localizar brechas de segurança e acelerar correções antes que criminosos as explorem. “Não basta mais presumir que os invasores cibernéticos não vão conseguir entrar. Precisamos pensar em quais são as opções de recuperação ‘bare metal’ de que precisamos para os serviços essenciais, e precisamos pensar nisso de ponta a ponta em todo o sistema financeiro”, declarou a vice-presidente do Banco da Inglaterra.
Órgãos envolvidos, prazos e medidas exigidas dos bancos
- Agências fiscalizadoras nos Estados Unidos: Federal Reserve (Fed), Office of the Comptroller of the Currency (OCC) e Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC).
- Supervisores na Europa: Banco Central Europeu (BCE) e Banco da Inglaterra (BoE).
- Alerta internacional: em 13 de outubro de 2026, o Fundo Monetário Internacional (FMI) pediu reforço na segurança cibernética para evitar que ataques a serviços críticos minem a confiança do mercado.
- Reforço de pessoal no setor privado: o Bank of America, presidido pelo executivo-chefe Brian Moynihan, contratou 1.000 prestadores de serviço adicionais no segundo trimestre de 2026, somando-se aos 3.000 profissionais que já atuavam na área de correção de vulnerabilidades.
- Prazo na zona do euro: sábado, 31 de outubro de 2026, é a data final para os bancos entregarem ao BCE seus planos de resposta contra ameaças de inteligência artificial.
Confira também: Golpe com inteligência artificial usa vídeos de fazendeira e respostas automáticas para atrair vítimas
Ataques com agentes autônomos e falhas apontadas pelo modelo Mythos
A pressão dos órgãos reguladores ganhou força após o registro de invasões reais envolvendo ferramentas automatizadas e alertas de líderes do próprio mercado financeiro, como o presidente-executivo do JPMorgan, Jamie Dimon, que pediu a união de executivos em um grupo setorial nos Estados Unidos para enfrentar os riscos da tecnologia. Em outubro de 2026, a empresa norte-americana de segurança cibernética CrowdStrike revelou que um invasor baseado na China provavelmente combinou um agente autônomo chinês com a ferramenta Claude Code, da empresa Anthropic, para atacar bancos na Coreia do Sul, enquanto agentes não autorizados criados pela OpenAI estiveram envolvidos em uma violação de segurança na plataforma Hugging Face.
Paralelamente aos ataques externos, a corrida dos bancos para adotar sistemas autônomos expôs falhas internas de tecnologia da informação. Em 20 de abril de 2026, reguladores globais passaram a monitorar os efeitos do modelo de ponta Mythos, lançado naquele mês pela Anthropic para um grupo restrito de bancos, empresas de tecnologia e órgãos governamentais. A capacidade da ferramenta de encontrar brechas complexas levou instituições como o Bank of America a ampliar o quadro de terceirizados para corrigir os problemas apontados. Avaliando o ritmo de implementação dessas tecnologias no setor, o sócio de segurança cibernética da consultoria Grant Thornton em Londres, Michael Woodbridge, afirmou que “a adoção da inteligência artificial muitas vezes está superando a capacidade de implementar os controles necessários”.
A próxima etapa formal de fiscalização ocorre no sábado, 31 de outubro de 2026, quando se encerra o prazo estipulado pelo Banco Central Europeu para que os bancos da zona do euro apresentem seus planos de defesa cibernética e o mapeamento completo de onde utilizam inteligência artificial, incluindo fornecedores externos, garantindo que os sistemas possam ser desligados e reiniciados com segurança.
