Exame de sangue para Alzheimer chega à rede privada do Brasil

Exame de sangue, enfermeira - Kenstocker/istockphoto.com

Exame de sangue, enfermeira - Kenstocker/istockphoto.com

O Hospital Moinhos de Vento, localizado em Porto Alegre (RS), passou a oferecer nesta quinta-feira (15) o primeiro exame de sangue com registro no Brasil capaz de identificar marcadores biológicos associados ao Alzheimer. O teste tem custo estimado de R$ 3 mil na rede privada e analisa a concentração da proteína p-tau217 no plasma sanguíneo.

A chegada da tecnologia ao país permite que a avaliação laboratorial seja executada localmente, inicialmente de forma exclusiva pela instituição gaúcha. Antes do início da operação no Rio Grande do Sul, em 15 de outubro de 2026, todas as amostras coletadas precisavam ser enviadas a laboratórios nos Estados Unidos para esse tipo de processamento.

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Como funciona a medição da proteína p-tau217 na plataforma Lumipulse

Foto: Alzheimer – Foto: Belight/ shutterstock

A testagem funciona de maneira automatizada na plataforma Lumipulse, desenvolvida pela fabricante Fujirebio. O equipamento quantifica no sangue os níveis da p-tau217, que é uma versão quimicamente modificada da proteína tau. A presença dessa alteração na corrente sanguínea acompanha o acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro, processo característico da evolução da doença neurodegenerativa.

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A implementação do procedimento na capital gaúcha foi coordenada por Eduardo Zimmer, Head de Pesquisa (chefe de pesquisa) da Unidade de Neurociência do Hospital Moinhos de Vento. A linha de produtos denominada Lumipulse G pTau 217 Plasma havia sido regularizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 17 de agosto de 2026, com importação realizada pela empresa VR Medical.

Em boa parte dos atendimentos clínicos, a coleta sanguínea pode substituir exames tradicionais que apresentam maior complexidade, desconforto ou custo elevado para a confirmação da patologia. Entre os métodos convencionais que podem ser evitados estão a punção lombar — procedimento invasivo na coluna para coleta e análise do líquor, também chamado de líquido cefalorraquidiano (LCR), fluido que envolve o cérebro e a medula espinhal — e a tomografia por emissão de pósitrons (PET amiloide), exame de imagem nuclear de alto valor financeiro.

Valores, critérios de idade e regras do teste para Alzheimer em Porto Alegre

O exame sanguíneo não funciona como um teste de triagem aberta e obedece a parâmetros clínicos restritos para sua solicitação. Os dados operacionais e requisitos para o acesso ao procedimento na rede hospitalar incluem:

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  • Local de oferta inicial: Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), de forma exclusiva na rede privada.
  • Valor estimado: cerca de R$ 3 mil por exame realizado particularmente.
  • Público-alvo: pacientes com idade mínima de 50 anos que já apresentem sintomas de declínio cognitivo ou funcional e suspeita clínica da doença.
  • Exigência de atendimento: apresentação obrigatória de prescrição médica após avaliação clínica detalhada.
  • Restrição de uso: contraindicado para pessoas assintomáticas ou indivíduos que relatem apenas queixas isoladas de esquecimento sem perda cognitiva comprovada em consultório.
  • Padrão de resultados: o laudo pode ser classificado como positivo, negativo ou inconclusivo (faixa intermediária).

Estudo na revista Nature Medicine e autorização nos Estados Unidos em 2025

A validação internacional da tecnologia ocorreu antes da liberação sanitária no Brasil. Em maio de 2025, a Food and Drug Administration (FDA), agência federal reguladora de medicamentos e alimentos dos Estados Unidos, autorizou a comercialização do teste Lumipulse G pTau217/β-Amyloid 1-42 Plasma Ratio para uso clínico em pacientes com sinais de declínio cognitivo. No mesmo ano de 2025, um estudo de referência publicado na revista científica Nature Medicine avaliou o desempenho da plataforma Lumipulse em um grupo de 1.767 participantes distribuídos entre a Suécia, a Espanha e a Itália.

Os dados dessa pesquisa internacional demonstraram um índice de concordância de 89% a 94% entre o teste sanguíneo e a análise tradicional do líquor, sendo de 89% a 91% quando aplicado um único parâmetro de corte e de 92% a 94% com a adoção de dois limites de referência. Apesar da alta taxa de acerto global, o levantamento publicado na Nature Medicine apontou uma precisão menor nos exames realizados em indivíduos com 80 anos ou mais. Além disso, estima-se que entre 15% e 20% dos testes fiquem na chamada faixa intermediária, considerada inconclusiva, o que exige a realização de exames complementares, como o PET amiloide ou a coleta de líquor, ou a repetição da análise de sangue após o prazo de 12 meses.

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Mesmo quando o marcador biológico é detectado, o exame isolado não confirma o diagnóstico definitivo de demência, servindo como ferramenta complementar ao julgamento médico, conforme a diretriz clínica acompanhada por especialistas da área como Renato Anghinah, professor titular de neurologia da Faculdade de Medicina do ABC e livre-docente da Universidade de São Paulo (USP). A rapidez na identificação biológica, contudo, favorece o início de terapias medicamentosas em pacientes na fase inicial da doença. Fármacos específicos como o donanemabe e o lecanemabe conseguem reduzir a velocidade de progressão do Alzheimer em índices que variam de 20% a 30% quando administrados precocemente.

Quando o exame de sangue para Alzheimer estará disponível no SUS e nos planos?

A data efetiva para a inclusão do exame da proteína p-tau217 na cobertura obrigatória dos planos de saúde ou na rede pública ainda não está confirmada. Da mesma maneira, os resultados específicos da etapa de validação da tecnologia realizada em território brasileiro ainda não passaram por revisão científica independente.

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Quanto à oferta gratuita na rede pública, o Hospital Moinhos de Vento informou ter a expectativa de integrar o teste ao Sistema Único de Saúde (SUS) e aos convênios médicos ainda ao longo de 2026, por meio de parcerias vinculadas ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), iniciativa em que hospitais privados de excelência executam projetos voltados ao sistema público. O Ministério da Saúde, por outro lado, informou que não existe projeto em execução pelo PROADI-SUS com essa tecnologia e que tampouco há solicitação protocolada na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) — órgão que avalia a eficácia, a segurança, a custo-efetividade e o impacto orçamentário de novos procedimentos — para a adoção do teste p-tau217 na rede pública.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.