Relógios inteligentes geram estimativas e elevam a ansiedade

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smartwatch com frequência cardíaca - Nastasic/istockphoto.com Foto: smartwatch com frequência cardíaca - Nastasic/istockphoto.com

Relógios e anéis inteligentes, conhecidos pela sigla em inglês wearables (dispositivos vestíveis), fornecem apenas estimativas de saúde sujeitas a margem de erro e não substituem diagnósticos médicos. Segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e estudos internacionais, o monitoramento contínuo de ritmo cardíaco, qualidade do sono, nível de estresse e oxigenação do sangue pode desencadear ciclos de ansiedade, hipocondria e dependência informacional, especialmente quando os usuários cruzam os relatórios dos aparelhos com ferramentas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT.

A busca por validação clínica diante dos gráficos gerados pelos sensores tem alterado a rotina nos consultórios. O médico psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do Programa de Ansiedade (AMBAN) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HCFMUSP), explica que a incerteza sobre o adoecimento alimenta a checagem repetitiva das telas em pessoas com predisposição à ansiedade, quadro mais incidente em mulheres de 15 a 30 anos. “Então, dados coletados por equipamentos de monitoramento vão servir como um comportamento de busca para reassegurar que você não está doente. E essas interpretações catastróficas causam prejuízo ou sofrimento”, afirmou Bernik.

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Alertas de smartwatches em pacientes cardíacos e 916 exames em um ano

O impacto psicológico das notificações em tempo real foi medido por um estudo da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte (UNC), nos Estados Unidos, publicado em 18 de julho de 2024 no periódico científico Journal of the American Heart Association. A pesquisa avaliou 172 pacientes diagnosticados com fibrilação atrial, um tipo de arritmia cardíaca, dos quais 83 utilizavam dispositivos vestíveis, e constatou que 20% dos usuários (1 em cada 5) sentiram medo e ansiedade intensos após receberem alertas de ritmo irregular e sempre procuraram atendimento médico. Ao longo de nove meses de acompanhamento, o grupo que usava os aparelhos registrou uso maior de recursos hospitalares, com média de 4,05 procedimentos contra 2,70 entre não usuários, além de maior probabilidade de realização de ecocardiogramas, eletrocardiogramas (ECGs) e procedimentos de ablação.

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A líder do levantamento, Lindsey Rosman, psicóloga cardíaca e professora assistente de medicina na divisão de cardiologia da UNC, associa esse comportamento ao Modelo de Incerteza e Antecipação da Ansiedade, teoria segundo a qual o excesso de dados incertos leva o indivíduo a superestimar o pior cenário. “Como psicóloga em uma clínica de cardiologia, vejo frequentemente pacientes muito preocupados com os dados de seus dispositivos vestíveis. Isso provoca muito estresse, levando-os a procurar o pronto-socorro ou outros serviços em busca de ajuda, mesmo quando não se trata de uma emergência real”, declarou a pesquisadora.

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Em outro trabalho científico, publicado em 2020 no Cardiovascular Digital Health Journal por Lindsey Rosman, Anil Gehi e Rachel Lampert, os pesquisadores documentaram o caso de uma paciente de 70 anos com fibrilação atrial paroxística que realizou 916 eletrocardiogramas pelo smartwatch no intervalo de um ano. Dos exames registrados no relógio, 701 tiveram resultado normal e 55 apontaram possível fibrilação atrial, mas a sucessão de alertas inconclusivos ou benignos levou a idosa a procurar o pronto-socorro 12 vezes no período.

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“Os pacientes ficam verificando constantemente a frequência cardíaca e olhando para o smartwatch e, à medida que a ansiedade aumenta, a frequência cardíaca também sobe. Isso acaba confirmando a ideia de que ‘minha frequência cardíaca está em um nível perigoso e preciso continuar monitorando’ e cria-se um ciclo vicioso”, disse Rosman.

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Ortossonia e os números do estudo norueguês sobre aplicativos de sono

No monitoramento noturno, a obsessão por atingir métricas ideais de descanso nos aplicativos recebeu o nome médico de ortossonia. O professor de Neurologia e Medicina do Sono da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP), Alan Luiz Eckeli, adverte que os sensores confundem momentos de imobilidade — como assistir a uma série de televisão em silêncio e sem se mexer — com períodos reais de adormecimento. “O importante é que a população tenha ideia de que os dados desses dispositivos são uma estimativa, porque aquilo não mensura diretamente o sono. Ele tenta estimar o sono, mas dentro disso existem padrões de erro”, explicou o neurologista.

Para Eckeli, a cobrança por pontuações altas nos gráficos noturnos produz o efeito oposto ao desejado pelo usuário. “Isso gera um paradoxo: a ansiedade e a preocupação em ‘dormir bem’ aumentam o estado de alerta, a hipervigilância, impedindo justamente o relaxamento necessário para o início do sono”, afirmou.

A relação entre o rastreamento digital e a insônia foi detalhada no estudo “Sleep in the age of technology: the use of sleep apps and perceived impact on sleep and sleep habits” (O sono na era da tecnologia: o uso de aplicativos de sono e o impacto percebido no sono e nos hábitos de sono, em tradução livre), conduzido pela Universidade de Bergen e pelo Hospital Universitário Haukeland, na Noruega, e publicado em 20 de março de 2026 na revista Frontiers in Psychology. Os dados colhidos na pesquisa norueguesa revelam os seguintes recortes estatísticos:

  • Amostra total avaliada no questionário: 1.002 adultos na Noruega, incluindo 461 usuários de aplicativos de monitoramento do descanso.
  • Preocupação com o descanso: 14% dos usuários sentiram que havia algo errado com o próprio sono a partir dos relatórios.
  • Geração de estresse: 11,2% do total de usuários relataram estresse diretamente ligado aos dados exibidos nas telas.
  • Recorte por faixa etária: a taxa de estresse com o sono atingiu 23% entre jovens adultos de 18 a 35 anos, frente a 2,4% entre pessoas com 66 anos ou mais.
  • Piora clínica percebida: 2,3% apontaram piora real na qualidade do descanso após o início do monitoramento.
  • Mudança positiva de hábito: 29,4% declararam ter passado a priorizar mais o sono graças ao uso do aplicativo.

Autovigilância em aplicativos como Strava e regras da Anvisa no Brasil

O fenômeno da quantificação da rotina também é estudado pela antropóloga cultural Natasha Dow Schüll, professora associada do Departamento de Mídia, Cultura e Comunicação da Universidade de Nova York (NYU), que aponta perda de autonomia e autovigilância constante entre usuários de plataformas como Strava, GymRats e Fitness, do iPhone. Na prática diária, a analista de marketing Maria Luiza Senhorinho, de 29 anos, relata que checa seu smartwatch mais de uma vez por dia para fechar círculos de metas de calorias, tempo em pé, sono e ingestão de três litros de água, chegando a acordar mais cedo no dia seguinte para compensar metas não batidas ou a se preocupar de madrugada com a nota que o relógio dará ao seu descanso.

No Brasil, a comercialização dessas tecnologias passou por escrutínio regulatório recente. Em agosto de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu alerta determinando que softwares e aplicativos integrados a relógios e anéis inteligentes que executam medições de caráter médico — o que inclui pressão arterial, oximetria, glicemia, eletrocardiograma e detecção de ritmo cardíaco irregular — precisam obrigatoriamente de registro formal e comprovação de segurança perante a agência antes de irem ao mercado.

Como reduzir a hipervigilância causada pelos relógios inteligentes

Quando o médico descarta doenças reais apontadas pelas estimativas dos algoritmos, parte dos usuários recusa o diagnóstico clínico. O psicólogo clínico Cristiano Nabuco de Abreu, doutor pela Universidade do Minho, pós-doutor pelo Departamento de Psiquiatria do HC-FMUSP e reitor da Artmed School of Psychology (APSY), observa que os aparelhos funcionam como combustível para quadros pré-existentes. “Há pessoas que, ao não receberem essa validação, trocam de consultório até chegar a um profissional que dirá exatamente o que elas querem ouvir”, declarou.

Para interromper o ciclo de ansiedade de dados, a servidora pública Daniela Loureiro, de 51 anos, substituiu o monitoramento imediato por uma pulseira inteligente sem tela sob orientação médica e retira o acessório durante as férias. Já Cristiano Nabuco recomenda sessões de psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental (TCC), exercícios de respiração profunda e o distanciamento físico dos sensores durante práticas esportivas. “Você vai fazer a sua caminhada, mas, por favor, não leve seu relógio. Procure reparar onde você está andando, quantas pessoas estão fazendo um determinado tipo de atividade, tentar desfocar a atenção do corpo do indivíduo para fora como um recurso adicional para descentralizar essa percepção, porque senão você vai viver alarmado o tempo todo”, orientou o especialista.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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