Melanoma avançado tem eficácia de imunoterapia prevista por marcadores no sangue em estudo de Barretos

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sangue Foto: sangue - spawns/Istock.com

Pesquisadores do Centro de Pesquisa em Oncologia Molecular do Hospital de Amor, em Barretos (SP), identificaram um conjunto de marcadores inflamatórios e hematológicos em amostras de sangue que permite prever, antes da primeira dose, se pacientes com melanoma avançado responderão à imunoterapia anti-PD-1. A pesquisa analisou dados de 136 pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2016 e 2024, com o objetivo de direcionar a terapia de alto custo na rede pública, onde entre 40% e 60% dos doentes não apresentam resposta positiva ao medicamento.

Os resultados do estudo retrospectivo de coorte foram divulgados na quinta-feira, 15 de outubro de 2026, após publicação na revista científica Clinical and Translational Oncology sob o título “A baseline systemic inflammatory signature predicts anti-PD-1 response in advanced melanoma”, em 25 de julho de 2026. Segundo a coordenadora da investigação e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Oncologia Molecular do Hospital de Amor, Lidia Maria Rebolho Batista Arantes, a triagem prévia pela corrente sanguínea busca preservar tanto os pacientes quanto o orçamento público. “É um tratamento caro, de difícil acesso e que o orçamento do Sistema Único de Saúde [SUS] não permite oferecer a todos. Por isso, é importante definir quem tende a não se beneficiar dele. Isso evita tratamentos ineficazes, reduz sofrimento e otimiza recursos”, afirmou.

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Como a imunoterapia anti-PD-1 atua no melanoma avançado

A investigação apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) concentrou-se em pessoas diagnosticadas com melanoma avançado, classificado clinicamente como estágio III irressecável (quando não é possível remover o tumor por cirurgia) ou estágio IV metastático (quando a doença já se espalhou para outros órgãos). Nesses quadros, a abordagem terapêutica avaliada foi a imunoterapia anti-PD-1, que utiliza anticorpos monoclonais (proteínas produzidas em laboratório para se ligar a alvos específicos no corpo) capazes de inibir o receptor de morte celular programada 1.

Tubos de sangue humano
Foto: Tubos de sangue humano – Tubos de sangue humano/ Shutterstock.com

“A imunoterapia revolucionou o tratamento do melanoma avançado e de outros tipos de câncer. Diferentemente da quimioterapia e da radioterapia, que atacam diretamente o tumor, a estratégia da imunoterapia consiste em ativar as células de defesa dos pacientes e bloquear alguns freios da resposta imune, de modo que o próprio organismo consiga combater o tumor”, disse Lidia Rebolho Arantes.

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A engenheira biotecnológica, pesquisadora do Hospital de Amor, bolsista da FAPESP e primeira autora do artigo, Bruna Pereira Sorroche, detalhou que o tumor escapa do sistema imunológico quando uma proteína de sua superfície, chamada PD-L1, se conecta ao receptor PD-1 presente no linfócito T, que é uma célula de defesa. “Quando uma proteína de superfície da célula tumoral, como a PD-L1, se conecta ao receptor PD-1 da célula de defesa, ela envia um sinal que inibe a resposta do linfócito T, ajudando o tumor a escapar do reconhecimento e da ação do sistema imunológico. Essa ligação [entre o tumor e o linfócito T] funciona como um ‘freio químico’ que reduz a capacidade das células de defesa de atacar o câncer, permitindo que a doença continue crescendo”, declarou Sorroche. De acordo com a pesquisadora, os anticorpos monoclonais infundidos no paciente bloqueiam justamente essa ligação, desfazendo a camuflagem para que a célula imunológica volte a atacar a doença.

Taxas de resposta à imunoterapia e os marcadores no sangue

Na prática clínica atual, não há um marcador biológico padronizado que antecipe quem reagirá aos medicamentos antes do início das aplicações, pois a avaliação costuma depender apenas de biópsias do próprio tecido tumoral para checar a presença da proteína PD-L1. “Mas isso é insuficiente, pois muitos pacientes com tumores PD-L1 negativos respondem bem, enquanto pacientes com tumores PD-L1 positivos podem não se beneficiar do tratamento”, afirmou Sorroche. Lidia Arantes acrescentou a mudança de foco adotada pela equipe em Barretos: “Até agora, a busca por esses sinais se concentrou quase exclusivamente em características do tumor descobertas por meio de biópsias. Este estudo integra uma linha de pesquisa que busca identificar, a partir de exames de sangue, sinais capazes de antecipar quais pacientes poderão responder a essa abordagem”.

Para mapear o preparo do sistema imunológico antes do início da terapia nos 136 pacientes do SUS, os cientistas quantificaram citocinas plasmáticas (proteínas sinalizadoras produzidas pelas células para modular a resposta imune) por meio de uma técnica laboratorial chamada ensaio cytometric bead array, além de avaliarem parâmetros hematológicos em exames de sangue de rotina e características moleculares registradas nos prontuários clínicos. “Eles têm IL-6 [citocina inflamatória] alta e um nível elevado de monócitos [células do sistema imune], o que indica um estado inflamatório mais acentuado e pode estar associado a mecanismos de imunossupressão. Ao mesmo tempo, exibem IL-10 baixa, uma citocina que pode estar envolvida na regulação da resposta imune e na manutenção da função dos linfócitos T”, explicou Bruna Sorroche sobre o perfil de quem não reage ao medicamento.

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Além das taxas medidas no plasma, os pacientes que responderam ao tratamento apresentaram menor proporção entre as citocinas IL-6 e IL-10, maior contagem de eritrócitos (glóbulos vermelhos do sangue) e maior positividade para a proteína PD-L1, somados a um indicador genético do próprio tumor incorporado ao painel. Na análise estatística multivariada do estudo, a razão de chances (medida conhecida como Odds Ratio, ou OR, que calcula a probabilidade de um evento ocorrer em relação a outro) com intervalo de confiança de 95% (IC 95%) apontou os seguintes índices para a falha ou o sucesso da imunoterapia:

  • Contagem elevada de monócitos no sangue: razão de chances (OR) de 4,57 (IC 95%: 1,67-13,86) para a não resposta ao tratamento.
  • Níveis aumentados da citocina inflamatória IL-6 no sangue: razão de chances (OR) de 2,70 (IC 95%: 1,08-7,21) para a não resposta ao tratamento.
  • Níveis mais altos da citocina reguladora IL-10 no sangue: razão de chances (OR) de 0,16 (IC 95%: 0,04-0,51), atuando como preditor independente de resposta favorável (menor chance de falha).
  • Presença da mutação genética BRAF V600 no tumor: razão de chances (OR) de 0,32 (IC 95%: 0,13-0,76), também identificada como preditor independente de resposta favorável à terapia.

Letalidade do melanoma no Brasil e estudos anteriores em Barretos

O avanço no rastreamento sanguíneo mira o tipo mais letal entre os tumores malignos de pele: embora o melanoma represente menos de 4% do total de casos dermatológicos, sua alta capacidade de provocar metástase agrava o prognóstico. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar 9.360 novos casos anuais da doença no triênio de 2026 a 2028, enquanto dados do Ministério da Saúde contabilizam cerca de 2 mil mortes por ano no país em decorrência desse câncer. De acordo com o National Cancer Institute (NCI), órgão de pesquisa dos Estados Unidos, a chance de sobrevida em cinco anos supera 90% quando o diagnóstico ocorre no início, mas cai para 35% nos quadros metastáticos.

A investigação publicada em 2026 dá sequência ao trabalho conduzido pela mesma equipe no Hospital de Amor (antigo Hospital de Câncer de Barretos). Em julho de 2025, em um estudo anterior divulgado na revista Journal of Molecular Medicine, Bruna Pereira Sorroche e Lidia Maria Rebolho Batista Arantes analisaram amostras de tecido tumoral de 35 pacientes com melanoma avançado tratados entre 2016 e 2021. Naquela etapa, as pesquisadoras identificaram quatro genes (CD24, NFIL3, FN1 e KLRK1) cuja expressão aumentada elevava em 230 vezes o risco de o organismo não responder à imunoterapia. O novo artigo ampliou o escopo para os exames de sangue e contou com a coautoria dos pesquisadores Renan de Jesus Teixeira, Vinícius Gonçalves de Souza, Vinicius de Lima Vazquez, Letícia Rafaela Ziquiel, Katiane Tostes, Caio Augusto Dantas Pereira e Iara Viana Vidigal Santana, envolvendo os departamentos de Patologia, Oncologia Clínica e Cirurgia de Melanoma, Sarcoma e Tumores Mesenquimais da instituição em Barretos.

Imunoterapia no SUS e o projeto da calculadora biológica

Embora a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) tenha recomendado a inclusão da imunoterapia na rede pública, o custo elevado das doses e a eficácia variável ainda restringem sua adoção rotineira como primeira opção de combate ao câncer no SUS. Para alterar esse quadro, o próximo passo do grupo de pesquisa do Hospital de Amor será validar os biomarcadores sanguíneos e genéticos em um estudo maior, com um número ampliado de pacientes, permitindo que a ferramenta chegue à rotina médica.

“Nosso objetivo é desenvolver, no futuro, uma espécie de calculadora biológica que reúna os principais preditores de resposta ao tratamento. Isso ajudaria a tornar a imunoterapia uma opção inicial para pacientes com melanoma avançado no Brasil. Hoje, por ser cara e com eficácia incerta, ela costuma ser usada apenas quando a doença já está metastática e outras terapias, como quimioterapia e radioterapia, não funcionam mais. Ter parâmetros que permitam mudar essa lógica seria um avanço importante para a sobrevida dos pacientes”, declarou Lidia Arantes.

Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

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