O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve declarações sobre economia, programas sociais e segurança pública confrontadas com dados oficiais após sabatina do segundo turno realizada na quinta-feira (15), no Rio de Janeiro. A verificação apontou informações verdadeiras sobre a prisão de um aliado da família Bolsonaro e o perdão de dívidas de microempreendedores, mas identificou dados falsos e exageros sobre o déficit fiscal herdado em 2022 e a criação de empregos.
Na entrevista concedida à jornalista Renata Lo Prete a partir das 21h15, Lula acertou ao mencionar a prisão do ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito pelo Rio de Janeiro Márcio Canella (União Brasil), que recebeu 197.178 votos em 2026. “Hoje a PF esteve no Rio de Janeiro interferindo numa das pessoas importantes do clã do Bolsonaro, que foi preso, e a mãe do Flávio ia ser suplente dele no Senado”, declarou o presidente.
Canella e o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual da Polícia Civil do Rio de Janeiro, foram presos pela Polícia Federal na quinta-feira (15) durante a 8ª fase da Operação Unha e Carne, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. A investigação apura um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou R$ 7,6 bilhões em seis anos por meio de postos de combustíveis. Antes de desistir da disputa ao Senado após ser preso em flagrante com um fuzil em 7 de julho e concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa, Canella havia anunciado Rogéria Nantes Braga Bolsonaro, mãe do senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL), como sua primeira suplente na chapa majoritária.
Dados fiscais, criação de empregos e relação de Lula com o FMI
No campo econômico, Lula deu uma informação falsa ao afirmar que assumiu o terceiro mandato com rombo nas contas públicas e acertou a projeção enviada para os próximos anos. “É importante lembrar que nós apresentamos um orçamento com superávit primário, 0,1%, é pouco. Mas é importante lembrar que eu peguei com um déficit de 2,8%”, disse o candidato petista.
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Os registros do Tesouro Nacional mostram que o governo de Jair Bolsonaro (PL) encerrou 2022 com superávit primário — resultado das receitas menos despesas, sem contar os juros da dívida — de R$ 46,4 bilhões, equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). O déficit primário ocorreu em 2023, primeiro ano da atual gestão petista, quando o saldo negativo somou R$ 228,5 bilhões (2,1% do PIB), montante que incluiu o pagamento de R$ 92,4 bilhões em precatórios, que são dívidas judiciais definitivas. Sobre a meta futura, procede o dado citado pelo candidato: a proposta orçamentária para 2027 prevê superávit primário efetivo de R$ 18,6 bilhões, ou 0,13% do PIB.
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Ao relembrar o fim de seu segundo mandato, em 2010, Lula acertou ao declarar que o Brasil ocupava a sétima posição entre as maiores economias mundiais e que o PIB cresceu 7,5% naquele ano, mas exagerou ao contabilizar 22 milhões de postos de trabalho abertos em oito anos. De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), banco de dados oficial sobre o trabalho com carteira assinada no país, o estoque de vínculos formais passou de 28,6 milhões em 2002 para 44,1 milhões em 2010, um saldo real de 15,3 milhões a 15,4 milhões de empregos criados no período, além de o Brasil ter emprestado US$ 10 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2009 após a crise imobiliária dos Estados Unidos, valor abaixo dos US$ 15 bilhões citados pelo presidente.
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A checagem também apurou imprecisões na evolução do ranking global do PIB e nas reservas internacionais mencionadas por Lula: o país era a 13ª economia do mundo no fim de 2002 (e não a 12ª), ocupava o 11º lugar em 2023 e encerrou 2025 na 10ª colocação, enquanto o colchão de dólares em 2010 somava US$ 288,5 bilhões, acima dos US$ 270 bilhões informados na entrevista.
Pacote aprovado para MEIs, números da fome e Mais Médicos
Lula mencionou na sabatina o perdão de débitos para microempreendedores individuais (MEIs) após o envio do Projeto de Lei Complementar (PLP) 267/2026 pelo governo na terça-feira (13). A proposta foi unificada ao PLP 186/2026 pelo relator, deputado federal Rubens Pereira Júnior (PT-MA), e aprovada na Câmara dos Deputados na quarta-feira (14), por 461 votos a 4, e no Senado Federal na quinta-feira (15), por 78 votos a 0.
Conforme a exposição de motivos assinada pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, a carteira de MEIs na Dívida Ativa da União acumula R$ 12,86 bilhões distribuídos entre 3,67 milhões de devedores, sendo R$ 11,05 bilhões (85,94% do total) classificados como irrecuperáveis ou de difícil recuperação. Além de perdoar os débitos inscritos até 13 de outubro de 2026 — desde que o contribuinte mantenha as obrigações mensais em dia por seis meses após a vigência da lei e desista de ações judiciais, gerando impacto fiscal estimado em R$ 3,04 bilhões em três anos —, o texto altera o teto anual atual de R$ 81 mil: eleva o limite de faturamento para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, além de ampliar de um para dois o limite de empregados contratados.
Sobre os indicadores sociais e de saúde, o presidente acertou números sobre o endividamento das famílias e cirurgias, mas exagerou sobre a erradicação da fome e o total de médicos contratados. “Eu tinha acabado com a fome em 2014. Quando eu voltei, tinha 33 milhões de pessoas passando fome outra vez”, afirmou Lula. O 2º Inquérito Nacional da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), divulgado em junho de 2022, confirma que 33 milhões de brasileiros passavam fome antes do terceiro mandato, mas o relatório de 2014 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), quando o país saiu do Mapa da Fome sob a gestão de Dilma Rousseff (PT) por ter subnutrição abaixo de 5%, ainda registrava 3,4 milhões de pessoas nessa condição.
No programa Mais Médicos, os registros do Ministério da Saúde apontam que o total de profissionais em atividade subiu de 13.716 em dezembro de 2022 para 26.660 em outubro de 2026, um acréscimo de 12.944 médicos, inferior às 16 mil contratações declaradas pelo candidato. Já no Sistema Único de Saúde (SUS), o painel SUS360º contabilizou 14,8 milhões de cirurgias eletivas em 2025, próximo aos 15 milhões citados, enquanto a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) atestou que 77,9% das famílias estavam endividadas em 2022, confirmando o índice de 78% mencionado por Lula.
Articulação no Congresso, histórico de reformas e calendário até o dia 25
Na avaliação política de seu mandato, Lula exagerou ao dizer que todas as legendas, exceto o PL, integraram seu ministério e que aprovou 99% do que enviou ao Legislativo. Partidos como Novo, PSDB, PRD, Podemos, Avante, Solidariedade e PV não chefiaram pastas na Esplanada, a bancada eleita pelo PT em 2022 foi de 69 deputados federais (um a menos que os 70 citados) e nove senadores, e 17% dos vetos presidenciais analisados até 2025 foram derrubados pelo parlamento.
O presidente também comentou episódios de governos anteriores, acertando que a Medida Provisória 870/2019 retirou o status de pasta autônoma de dez ministérios no início da gestão de Jair Bolsonaro e que o empresário Silvio Santos o procurou no Palácio do Planalto em 22 de setembro de 2010 diante da crise contábil no Banco PanAmericano. Por outro lado, subestimou as obras federais paralisadas ao fim do governo anterior — eram 8.674 segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), e não 6 mil — e atribuiu apenas à sua gestão, em conjunto com o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos e o ex-presidente do STF Nelson Jobim, a Reforma do Judiciário (Emenda Constitucional nº 45, de 8 de dezembro de 2004).
“A declaração do presidente está certa em parte. De fato, a base ministerial do governo Lula imprimiu muito esforço no arranjo final da chamada Reforma do Poder Judiciário, a primeira grande reforma pós-88. Mas é importante notar que o início dos trabalhos do Congresso em torno desta reforma se deu no ano de 1992. Ao todo, foram, portanto, 11 anos de tramitação das PECs e de seus substitutivos, até que, ao fim e ao cabo, viesse a ser promulgada a Emenda à Constituição nº 45”, afirmou Gustavo Sampaio, professor de direito constitucional da Universidade Federal Fluminense (UFF).
A sabatina de Lula, que já havia sido entrevistado no primeiro turno em 27 de agosto de 2026 pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos, abriu a série de compromissos finais da disputa presidencial. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) ficou em primeiro lugar com 56.104.503 votos (47,03% dos votos válidos), contra 53.879.538 votos (45,16%) recebidos por Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual. O cronograma oficial até a votação final prevê os seguintes eventos:
- Sexta-feira, 16 de outubro de 2026, às 21h15 (horário de Brasília): entrevista do candidato Flávio Bolsonaro (PL) à jornalista Renata Lo Prete, nos Estúdios Globo.
- Domingo, 18 de outubro de 2026, às 20h (horário de Brasília): debate presidencial do segundo turno com a presença confirmada de Lula e Flávio Bolsonaro.
- Sexta-feira, 23 de outubro de 2026: último debate presidencial do segundo turno, mediado pelo jornalista César Tralli.
- Domingo, 25 de outubro de 2026: votação do segundo turno das eleições presidenciais em todo o país.
