O Acidente Vascular Cerebral (AVC) provocou 50.424 mortes e 182.253 internações na rede pública entre janeiro e julho de 2026, de acordo com dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus) divulgados pela Rede Brasil AVC. O volume representa uma média de 860 hospitalizações e 238 óbitos por dia, o que equivale a uma morte a cada seis minutos.
Nas unidades de saúde e na totalidade do território nacional, as estimativas apontam cerca de 400 mil ocorrências anuais da doença, popularmente chamada de derrame. O quadro clínico se instala quando há interrupção súbita da circulação de sangue para o cérebro, provocada pelo entupimento de uma artéria ou pelo rompimento de um vaso sanguíneo. A neurologista Sheila Martins, presidente da Rede Brasil AVC, afirma que o aumento de registros entre pessoas com menos de 50 anos exige atenção redobrada ao reconhecimento imediato dos sinais. “O crescimento das internações em adultos jovens é um alerta importante. Sintomas nessa faixa etária costumam ser confundidos com enxaqueca, estresse ou intoxicação. Uma pessoa de 30 anos que sofre um AVC pode ter sequelas que a impeçam de trabalhar, estudar ou cuidar dos filhos”, declarou a médica.
Mecanismo de lesão cerebral e diferenças entre os tipos isquêmico e hemorrágico
O tecido cerebral necessita de fornecimento ininterrupto de oxigênio e nutrientes transportados pela corrente sanguínea para manter as funções vitais do organismo. No momento em que uma placa de gordura ou um coágulo bloqueia uma artéria, ou quando a parede de um vaso se rompe, a região afetada sofre privação imediata de oxigênio, processo médico denominado isquemia, que causa a morte de células nervosas em poucos minutos.
A classificação médica divide a doença em duas categorias principais conforme a origem do problema vascular. O AVC isquêmico responde por cerca de 85% dos diagnósticos e ocorre pela obstrução física da passagem do sangue por trombos ou êmbolos. Já o AVC hemorrágico representa aproximadamente 15% dos atendimentos e decorre do extravasamento de sangue para o interior do tecido cerebral ou para o espaço entre o cérebro e a meninge, condição frequentemente ligada a picos de hipertensão arterial ou ao rompimento de aneurismas. No quadro hemorrágico, o líquido acumulado eleva a pressão intracraniana e comprime estruturas neurais adjacentes, apresentando letalidade proporcionalmente superior à forma isquêmica.
A extensão do dano neurológico varia segundo a área anatômica atingida e o tempo decorrido sem irrigação adequada. Lesões localizadas em centros responsáveis pelo comando motor, pela articulação da linguagem ou pelo armazenamento da memória deixam incapacidades definitivas, como paralisia em um dos lados do corpo, perda da fala e problemas de deglutição, caso a circulação não seja restabelecida em caráter de urgência.
Identificação rápida de sintomas pelo protocolo de emergência e acionamento do SAMU
O reconhecimento imediato dos sinais físicos nos primeiros minutos após a manifestação do quadro define a sobrevivência do paciente e a preservação de sua independência funcional. Na avaliação inicial fora do ambiente hospitalar, equipes médicas utilizam mundialmente o protocolo FAST — sigla em inglês para Face (rosto), Arms (braços), Speech (fala) e Time (tempo) — como método prático de triagem para leigos e socorristas verificarem a presença de assimetria facial, perda de força nos membros superiores e alterações na voz.
A orientação do Ministério da Saúde e da Rede Brasil AVC determina que um observador peça para a pessoa sorrir, levantar os dois braços simultaneamente e repetir uma frase simples. Caso a boca apresente desvio para um dos lados, um dos braços caia por falta de sustentação ou a voz saia arrastada e incompreensível, o socorro médico deve ser acionado imediatamente pelo telefone 192, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), ou pelo número 193, do Corpo de Bombeiros, mesmo que as manifestações pareçam regredir espontaneamente após alguns instantes. Os sintomas clássicos que exigem chamado de emergência incluem:
- Fraqueza súbita, formigamento ou dormência na face, no braço ou na perna, acometendo especialmente apenas um lado do corpo;
- Dificuldade repentina para articular palavras, falar com clareza ou compreender o que outras pessoas dizem, acompanhada de confusão mental;
- Perda abrupta da visão em um ou nos dois olhos, escurecimento visual ou percepção de visão dupla;
- Tontura sem causa aparente, perda súbita de equilíbrio, falta de coordenação motora ou incapacidade repentina para caminhar;
- Dor de cabeça súbita e de alta intensidade, sem histórico ou motivo evidente, sintoma prevalente nos episódios de natureza hemorrágica.
Janela terapêutica de 4,5 horas, trombectomia mecânica e uso de inteligência artificial
A chegada precoce à unidade hospitalar condiciona a aplicação das terapias capazes de reverter o quadro clínico antes que a lesão cerebral se torne irreversível. Nos prontos-socorros, a equipe médica realiza exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética de crânio, logo na admissão para diferenciar se o evento é isquêmico ou hemorrágico e definir a conduta imediata. Na rede pública e privada do país, contudo, apenas 30% dos pacientes conseguem dar entrada no hospital dentro do período ideal para intervenção medicamentosa.
Para os pacientes diagnosticados com AVC isquêmico, a infusão intravenosa de medicamentos trombolíticos — fármacos que dissolvem o coágulo sanguíneo — possui eficácia comprovada somente quando administrada nas primeiras 4,5 horas a partir do início exato dos sintomas. Em centros médicos especializados, a realização da trombectomia mecânica, procedimento em que um cateter é introduzido pelos vasos sanguíneos para retirar fisicamente o trombo que obstrui a artéria, permitiu ampliar a janela de tratamento para até 24 horas em casos selecionados por exames de imagem.
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Nos episódios de AVC hemorrágico, o protocolo hospitalar veda o uso de trombolíticos e prioriza o controle rigoroso da pressão arterial, além de intervenções neurocirúrgicas para drenar hematomas, aliviar a compressão sobre o cérebro e reparar vasos sanguíneos rompidos. Hospitais estruturados com unidades dedicadas exclusivamente ao atendimento da doença, denominadas na literatura médica como stroke units (unidades de AVC), registram redução de até 20% no índice de mortalidade em comparação com enfermarias convencionais.
O diagnóstico hospitalar incorporou ferramentas de inteligência artificial equipadas com algoritmos que leem exames de imagem cerebral em poucos minutos, agilizando a decisão médica durante o plantão de emergência. Na prevenção de novos episódios, o uso de classes mais seguras de medicamentos anticoagulantes diminuiu a reincidência da doença em portadores de fibrilação atrial, tipo de arritmia cardíaca associada a 20% das ocorrências de obstrução vascular cerebral. Após a alta da fase aguda, o paciente inicia o processo de reabilitação multidisciplinar com sessões contínuas de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional para recuperar movimentos e capacidades cognitivas.
Aumento de casos entre adultos jovens e estatísticas de mortalidade até 2026
Os levantamentos epidemiológicos mostram expansão contínua dos atendimentos hospitalares no intervalo de cinco anos anterior a 2026. Entre 2020 e 2025, o total de internações por AVC na rede pública subiu 23,6%, passando de 236.930 para 292.930 registros anuais. No recorte específico de adultos jovens, na faixa etária de 15 a 49 anos, as hospitalizações cresceram 16,9% no mesmo período, subindo de 34.896 em 2020 para 40.788 em 2025.
A série histórica do Ministério da Saúde para o grupo de pacientes entre 14 e 50 anos documenta elevações sucessivas ao longo da década: foram 36.841 internações em 2021, subindo para 39.724 em 2022, atingindo 41.646 em 2023 e alcançando o pico de 42.269 hospitalizações em 2024. Em proporção global, os estudos indicam que cerca de 25% de todos os episódios da doença atingem pessoas com menos de 65 anos, sendo que uma em cada quatro pessoas adultas no planeta sofrerá um evento cerebrovascular ao longo da vida.
Nos registros de mortalidade compilados pela Central de Informações do Registro Civil (CRC Nacional), com base nos atestados de óbito emitidos em cartórios de todo o país, o AVC provocou 89.490 mortes em 2025, ante 85.959 em 2024, 84.931 em 2023, 87.749 em 2022, 81.822 em 2021, 76.382 em 2020 e 75.553 em 2019. Apenas no primeiro trimestre de 2026, entre 1º de janeiro e 31 de março, os cartórios contabilizaram 20.461 óbitos pela doença, divididos em 7.123 registros em janeiro, 6.269 em fevereiro e 7.067 em março. Já pela metodologia ampliada do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Datasus, que agrupa todas as classificações de infarto cerebral, hemorragias e sequelas (códigos CID G45-G46 e I60-I69), o total atingiu 106.501 mortes em 2024, posicionando a condição ao lado do infarto agudo do miocárdio entre as duas maiores causas de óbito no país.
Sobrecarga financeira no SUS, desigualdade regional e sequelas em sobreviventes
O tratamento de urgência e o acompanhamento prolongado geram impacto direto no orçamento público e nas famílias afetadas. Apenas nos primeiros sete meses de 2026, o Sistema Único de Saúde desembolsou R$ 216,1 milhões diretamente com hospitalizações motivadas pelo AVC. Quando somados os custos de internação, procedimentos de alta complexidade e programas de reabilitação nas redes pública e suplementar ao longo de doze meses, a despesa anual ultrapassa a marca de R$ 2 bilhões.
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A distribuição da rede de assistência médica apresenta disparidades geográficas que influenciam a taxa de sobrevivência. Estados das regiões Norte e Nordeste contam com menor concentração de unidades hospitalares especializadas em neurologia vascular quando comparados ao Sul e ao Sudeste, fator que eleva os índices de letalidade locais. Para reduzir o tempo de diagnóstico em municípios distantes dos grandes centros urbanos e em áreas rurais, hospitais gerais utilizam redes de telemedicina, permitindo que neurologistas avaliem exames remotamente e orientem médicos emergencistas durante a janela crítica de atendimento.
Entre os pacientes que sobrevivem ao episódio agudo, cerca de 50% permanecem com algum grau de comprometimento físico ou cognitivo que restringe sua autonomia nas atividades diárias. Além da limitação motora e da dificuldade de acesso a serviços contínuos de fisioterapia e fonoaudiologia fora das capitais, até 30% dos sobreviventes desenvolvem quadros clínicos de depressão e transtornos de ansiedade após o evento, demandando acompanhamento psicológico e psiquiátrico integrado na rede de saúde.
Controle da hipertensão arterial, fatores de risco e calendário anual de prevenção
A literatura médica estabelece que até 90% dos casos estão associados a fatores de risco modificáveis e que a adoção combinada de hábitos saudáveis reduz em até 50% a probabilidade de ocorrência da doença. A hipertensão arterial figura como o principal agente causador, estando presente em cerca de 70% dos pacientes acometidos. O controle rigoroso da pressão por meio de medicação contínua e corte no consumo de sódio, aliado ao monitoramento do diabetes — condição que lesiona a parede dos vasos sanguíneos ao longo dos anos — e das taxas de colesterol, constitui a base da prevenção clínica. Nos casos de obstrução transitória, conhecida como Ataque Isquêmico Transitório (AIT), picos de colesterol elevado, inclusive quando precipitados pelo uso sem controle de substâncias ou hormônios, funcionam como sinal de alerta imediato antes de uma isquemia definitiva.
O hábito de fumar multiplica por dois o risco de sofrer um derrame, uma vez que os compostos químicos do tabaco agridem o revestimento das artérias e aceleram a formação de coágulos sanguíneos; interromper o tabagismo corta esse risco pela metade em poucos anos. Da mesma forma, o consumo abusivo de bebidas alcoólicas e a utilização de drogas ilícitas estimulantes, como a cocaína, provocam elevações abruptas da pressão arterial capazes de romper vasos cerebrais. As diretrizes médicas recomendam limitar a ingestão de álcool a no máximo uma dose diária para mulheres e duas doses para homens, além de combater a obesidade e o sedentarismo. As medidas práticas recomendadas pelas sociedades médicas e o cronograma anual de mobilização compreendem:
- Prática regular de pelo menos 150 minutos semanais de atividades físicas de intensidade moderada, como caminhada rápida ou natação;
- Manutenção de cardápio diário baseado em frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes de gordura insaturada, como azeite de oliva e peixes, evitando alimentos ultraprocessados e excesso de açúcar;
- Realização de exames clínicos e laboratoriais de rotina anualmente, em especial a partir dos 40 anos de idade, para aferição de pressão arterial, glicemia e perfil lipídico;
- Gerenciamento do estresse crônico por meio de atividades de relaxamento e lazer, prevenindo descargas hormonais que elevam a tensão vascular;
- Janeiro a dezembro: execução de programas permanentes de capacitação de equipes de pronto-socorro e monitoramento ambulatorial de pacientes hipertensos e diabéticos;
- 29 de outubro: mobilização do Dia Mundial do AVC, data coordenada internacionalmente pela Organização Mundial do AVC (World Stroke Organization – WSO) e promovida em território nacional pela Rede Brasil AVC com mutirões de exames e orientação pública em hospitais e comunidades;
- Novembro: intensificação das campanhas educativas voltadas à preservação da saúde cardiovascular em postos de atendimento e instituições de ensino.
Pesquisas experimentais com células-tronco e mobilização de outubro
No campo científico, centros de pesquisa clínica conduzem estudos com terapias regenerativas baseadas no uso de células-tronco para tentar reparar áreas de tecido cerebral necrosado e reverter sequelas motoras antigas. Esses protocolos permanecem em estágio experimental e ainda não têm eficácia definitiva ou liberação regulamentada para aplicação de rotina nos hospitais.
Para ampliar o índice de pacientes socorridos dentro da janela de 4,5 horas, as secretarias de saúde, a Sociedade Brasileira de AVC e a Rede Brasil AVC concentram na quinta-feira, 29 de outubro de 2026, as atividades centrais da campanha anual do Dia Mundial do AVC, com ações gratuitas de aferição de pressão arterial, testes de glicemia e treinamento da população sobre o acionamento imediato do telefone 192.
