O congelamento ou corte no valor de benefícios sociais e previdenciários pode provocar uma retração econômica severa nos municípios do interior do Brasil, segundo estudo divulgado na sexta-feira, 16 de outubro de 2026, pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (Made/FEA-USP). As projeções para os próximos três anos indicam que, sem reajustes acima da inflação nos repasses públicos, a renda agregada do interior do país sofreria uma queda de 6,8% a 10,8% em comparação ao cenário com valorização real.
O levantamento analisou o impacto das aposentadorias, do programa de transferência direta de renda Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), auxílio assistencial pago pelo governo federal a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Nas cidades localizadas fora dos grandes centros urbanos, esses pagamentos representam até 50% do orçamento das famílias mais pobres, que possuem rendimento mensal per capita de até 1,5 salário mínimo. “Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, disse a economista e co-diretora do Made-USP, Luiza Nassif.
Peso do Bolsa Família, BPC e aposentadorias nos 5.569 municípios do país
A pesquisa do Made/FEA-USP avaliou a estrutura econômica dos 5.569 municípios brasileiros e identificou que aproximadamente 4.000 dessas cidades estão situadas fora das regiões metropolitanas. Nesses municípios menores e mais afastados das capitais, o peso das transferências públicas de renda sobre a atividade econômica local chega a ser o dobro do índice registrado nas áreas metropolitanas, o que amplia a dependência do setor de comércio e serviços em relação aos pagamentos mensais feitos pela União.
Essa diferença de impacto entre as capitais e o interior aparece nos dados regionais levantados pelos pesquisadores da universidade paulista. No Ceará, por exemplo, os benefícios sociais e previdenciários respondem por 22% de toda a renda agregada de Fortaleza e de sua região metropolitana. Quando o recorte analisa exclusivamente as cidades do interior cearense, a participação desses mesmos auxílios e aposentadorias salta para 40% da renda total em circulação.
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Segundo a diretora do centro de pesquisas, a redução na capacidade de compra dos beneficiários afeta toda a cadeia produtiva das cidades menores. “Isso geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público”, declarou Luiza Nassif.
Projeções do Made/FEA-USP para a queda de renda nos estados em três anos
Para calcular o efeito no mercado local nos próximos três anos, o estudo comparou dois modelos distintos de correção dos valores pagos pelo governo federal. Os pesquisadores tomaram como base o período de 2022 a 2025, quando houve crescimento real no salário mínimo, nas aposentadorias e no BPC, e confrontaram esse desempenho com as regras aplicadas entre 2019 e 2022, período em que não ocorreram ganhos reais no piso nacional e houve congelamento nos repasses assistenciais. A aplicação da regra sem ganho real resultaria nas seguintes retrações na renda total do interior de cada unidade da federação:
- Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí: queda estimada de 17% a 18% na renda total do interior.
- Amazonas, Sergipe e Pernambuco: retração projetada na faixa de 15% na renda do interior.
- Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia: perda calculada entre 10% e 13% na renda do interior.
- Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina: retração máxima projetada de até 6,5% na renda do interior.
Qual é o impacto do congelamento de benefícios sociais na pobreza do interior?
Além da retração no comércio e na arrecadação das prefeituras, o estudo mediu o efeito direto da falta de correção real sobre a linha de vulnerabilidade social fora das regiões metropolitanas. As simulações feitas pelo Made/FEA-USP demonstram que, se não houvesse ocorrido ganho real nos benefícios entre os anos de 2022 e 2025, cerca de 2,7 milhões de moradores do interior teriam entrado na condição de pobreza, sendo que 2,4 milhões dessas pessoas cairiam diretamente para a faixa de extrema pobreza.
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“Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, afirmou Luiza Nassif. De acordo com a economista, a ausência de atualização acima da inflação retira o poder de compra imediato de quem compromete metade da renda familiar com alimentação e itens básicos.
Na divisão por estados em números absolutos, a simulação sem ganhos reais entre 2022 e 2025 aponta que o maior contingente de novos pobres no interior seria registrado na Bahia, com aumento de até 336 mil pessoas nessa condição. Na sequência das maiores altas absolutas aparecem os estados de São Paulo, com até 263 mil pessoas a mais na pobreza, e Minas Gerais, com acréscimo de até 251 mil pessoas, seguidos por Maranhão, Pará e Ceará, que registrariam aumento superior a 200 mil pessoas cada um.
Dados consolidados do estudo do Made/FEA-USP sobre transferências de renda
Os números centrais apurados pelo levantamento da Universidade de São Paulo reúnem a abrangência territorial da pesquisa e os limites financeiros avaliados pelos economistas:
- Instituição responsável: Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (Made/FEA-USP), sediado em São Paulo (SP).
- Data de divulgação: sexta-feira (16).
- Abrangência do levantamento: 5.569 municípios brasileiros, incluindo cerca de 4.000 cidades fora de regiões metropolitanas.
- Programas analisados: aposentadorias previdenciárias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC).
- Teto de renda familiar avaliado no impacto de 50% do orçamento: famílias com rendimento per capita de até 1,5 salário mínimo.
Ao avaliar os resultados das simulações para o triênio seguinte, a co-diretora do centro de pesquisa destacou a relação direta entre a política de reajuste do governo federal e a manutenção das atividades comerciais fora das capitais. “Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica nítido o estrago que uma trava no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais”, disse Luiza Nassif. “Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”, declarou a economista.
