Roberta Luchsinger propõe delação premiada contra Lula e Lulinha em investigação da Polícia Federal

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lobista Roberta Luchsinger - Reprodução/Rede Sociais Foto: lobista Roberta Luchsinger - Reprodução/Rede Sociais

Um acordo de colaboração premiada com autoridades policiais e judiciais passou a ser o objetivo declarado da empresária e lobista Roberta Moreira Luchsinger, de 41 anos. Em manifestação pública realizada em São Paulo neste sábado (17), a diretora da RL Consultoria e Intermediações afirmou que pretende detalhar informações às investigações sem poupar o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem o filho dele, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Alvo de apurações conduzidas pela Polícia Federal, ela direcionou críticas ao chefe do Executivo federal, a quem qualificou como “canalha”, “covarde”, “mau-caráter” e “grande mentiroso”.

O posicionamento da investigada foi motivado por declarações feitas pelo presidente em 1º de outubro de 2026. Na ocasião, Lula afirmou desconhecer a empresária, referiu-se a ela como uma “pilantra muito grande” e a comparou ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, ao chamá-la de “Vorcaro feminino”. Roberta sustentou que decidiu colaborar com a Justiça para não servir de “boi de piranha” nos processos e relatou ser alvo de mais de 50 ameaças de morte diariamente desde o pronunciamento do petista, situação que também atingiria suas duas filhas com intimidações e episódios de bullying. “Eu não vou poupar nenhum detalhe, eu não vou poupar ninguém. Pode ser presidente da República, que, a meu ver, é um grande mal-caráter, é um grande mentiroso. E, eu repito: um grande covarde. Não vou poupar filho de presidente”, disse Roberta.

Advogado-geral da União e indicado ao Supremo Tribunal Federal, Jorge Messias, e presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). — Foto: Ricardo Stuckert / PR
Foto: Advogado-geral da União e indicado ao Supremo Tribunal Federal, Jorge Messias, e presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). — Foto: Ricardo Stuckert / PR

Relatos de encontros com ministros e executivo de construtora

As declarações da lobista contestam a versão do Palácio do Planalto sobre a ausência de trânsito político de Fábio Luís Lula da Silva na administração federal. O filho do presidente realizava encontros semanais com integrantes do primeiro escalão e chegou a viajar para a residência do ministro da Educação, Camilo Santana, no estado do Ceará. Ela acrescentou que titulares de pastas ministeriais iam até a casa dela em busca de espaço na agenda de Lula, que teria conhecimento das articulações conduzidas pelo filho. "É público, é notório que o Fábio Luís, o Lulinha, inúmeras vezes esteve com ministros, inclusive viajou para a casa de ministro, do ministro Camilo [Santana]. Então, Lula é um grande mentiroso quando fala 'ela é uma pilantra, mas meu filho não. Meu filho jamais se sentava com ministro'. Mas o filho dele sentava semanalmente com ministro, seja para trocar figurinha, para trocar qualquer tipo de diálogos", afirmou.

Outro ponto levantado pela empresária envolve reuniões frequentes atribuídas a Lulinha com Amauri Rodrigues Pinha, presidente da Empresa de Construção Brasil (ECB), companhia vinculada à empreiteira portuguesa Mota-Engil. Segundo o relato de Roberta, o executivo seria vizinho do filho do presidente, e o grupo empresarial venceu o leilão bilionário destinado à construção do túnel submerso entre os municípios de Santos e Guarujá, no litoral paulista. Apesar de anunciar a intenção de firmar a delação, a investigada não confirmou a abertura de negociações formais com a Polícia Federal ou com a Procuradoria-Geral da República (PGR), órgão máximo do Ministério Público Federal. As menções à construtora portuguesa foram apresentadas por ela como conversas que presenciou, sem a entrega de provas documentais.

Operação Sem Desconto e os três inquéritos que tramitam no Supremo

A situação jurídica de Roberta Luchsinger e de Fábio Luís Lula da Silva abrange três inquéritos em andamento na Polícia Federal e no Supremo Tribunal Federal (STF) que apuram suspeitas de tráfico de influência. Duas dessas frentes investigativas estão sob a relatoria do ministro André Mendonça, enquanto o terceiro procedimento é conduzido pelo gabinete do ministro Flávio Dino. A empresária tornou-se alvo de mandados de busca e apreensão, bloqueio judicial de bens e determinação para uso de tornozeleira eletrônica no âmbito da Operação Sem Desconto, ação conjunta da Polícia Federal com a Controladoria-Geral da União (CGU) que investiga um esquema de cobranças e descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), com desvios estimados pelos investigadores em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.

Os investigadores verificam se Roberta, Lulinha e o empresário Fernando Bittar compunham um núcleo voltado a defender interesses privados junto a órgãos federais. Entre os fatos apurados estão negociações em favor do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, com o objetivo de fornecer produtos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde entre o final de 2024 e o início de 2025. A Polícia Federal também rastreou um repasse de R$ 300 mil ordenado por Antunes para a empresa RL Consultoria e Intermediações.

Durante interrogatório prestado à Polícia Federal em maio de 2026, a lobista confirmou ter apresentado Lulinha a Antônio Carlos Camilo Antunes, mas negou a existência de transferências financeiras para o filho do presidente e declarou ter encerrado o vínculo contratual assim que as denúncias sobre o INSS vieram a público. O advogado de Fábio Luís Lula da Silva, Guilherme Suguimori Santos, afirma que seu cliente não teve participação nas fraudes previdenciárias nem cometeu ilícitos. Já em julho de 2026, os defensores de Roberta, Bruno Salles e Marco Antonio Chies Martins, protocolaram pedido ao ministro André Mendonça para que a PGR arquive o inquérito, argumentando que os trabalhos prestados a Antunes consistiam em estudos técnicos regulares sobre a regulamentação de canabidiol, emitidos com nota fiscal. Ex-esposa do ex-delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz e candidata a deputada estadual em São Paulo pelo PT no pleito de 2018, Roberta também citou empréstimos concedidos a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência da República; a defesa do ex-assessor declarou que o montante de R$ 249 mil referia-se a um empréstimo pessoal já quitado em sua totalidade.

Frentes de apuração e medidas envolvendo a lobista

  • Três inquéritos no STF: dois processos sob relatoria do ministro André Mendonça e um sob responsabilidade do ministro Flávio Dino para apurar suspeita de tráfico de influência.
  • Medidas cautelares aplicadas: cumprimento de mandados de busca e apreensão, bloqueio de bens e valores e imposição de monitoramento por tornozeleira eletrônica.
  • Alvo central na Saúde: apuração sobre tratativas entre o fim de 2024 e o início de 2025 para venda de produtos de canabidiol ao Ministério da Saúde em interesse de Antônio Carlos Camilo Antunes.
  • Movimentações analisadas: verificação de um depósito de R$ 300 mil para a RL Consultoria e Intermediações e de empréstimo pessoal de R$ 249 mil a Marco Aurélio Santana Ribeiro.

Nota oficial da Presidência e acionamento da Procuradoria-Geral

A reação do governo federal ocorreu ainda neste sábado (17), por meio de comunicado emitido pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República. "O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desconhece inteiramente os fatos relatados pela senhora Roberta Luchsinger. Como já esclareceu em outras ocasiões, jamais manteve qualquer interlocução com ela, nunca recebeu suas demandas e tampouco tem conhecimento de supostas tratativas como as mencionadas. Importante ressaltar que não existe nenhum contrato do governo federal com a Roberta". O órgão acrescentou na nota que vê com estranheza a divulgação de acusações desacompanhadas de provas às vésperas da votação do segundo turno presidencial.

Integrantes da Esplanada dos Ministérios e parlamentares da oposição também se manifestaram sobre o caso. A assessoria de Camilo Santana informou que o ministro nunca se reuniu com Lulinha para discutir negócios ou pautas governamentais e negou qualquer vínculo com a lobista, posicionamento acompanhado pelos ministérios da Educação e das Comunicações, que descartaram tratativas com ambos. Na noite deste sábado (17), o deputado federal e líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, encaminhou ofício ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, requerendo a inclusão de Roberta no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita) e a instauração de investigação criminal para apurar tanto as ameaças de morte relatadas pela empresária quanto a conduta de Lula, Lulinha e Camilo Santana.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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