O vilarejo montanhoso de Bolotana, na região central da Sardenha, na Itália, entrou na lista de candidatos a nova zona azul — nome dado às regiões do planeta com alta concentração de centenários — após um levantamento científico publicado em 5 de outubro de 2026 identificar sobrevivência tardia incomum entre suas moradoras. As mulheres locais que completam 70 anos apresentam 13,83% de probabilidade de atingir os 100 anos, índice que supera o triplo da média nacional italiana.
A descoberta ocorreu fora do território sardo tradicionalmente reconhecido pela longevidade. “O importante é que, pela primeira vez em mais de 25 years, encontramos um local para a longevidade fora da zona azul convencional na Sardenha”, afirmou o pesquisador da Universidade de Sassari e autor principal do estudo, Giovanni Mario Pes, em tradução livre. Além de Pes, que é cocriador do conceito de zona azul, assinam o trabalho S. Jay Olshansky, professor emérito de epidemiologia na Universidade de Illinois em Chicago (UIC), Dan Buettner, explorador da National Geographic e fundador da Blue Zones, Steven N. Austad, professor de biologia na Universidade do Alabama em Birmingham, e Salvatore Pedde, presidente da associação cultural Orminas em Bolotana.
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Dados da pesquisa sobre a sobrevivência em Bolotana
Os cálculos dos pesquisadores tomaram como base as tábuas de mortalidade registradas entre 2021 e 2025 e posicionaram a população feminina da vila em segundo lugar no mundo entre os grupos comparados na pesquisa, atrás apenas de Hong Kong. Enquanto na localidade sarda uma mulher de 70 anos vive em média mais 20,85 anos, o tempo adicional de vida para a mesma faixa etária cai nas demais regiões analisadas pelo levantamento.
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- Publicação oficial: revista científica Frontiers in Aging, sob o título A new blue zone? exceptional late-life survival in Bolotana, Sardinia, com artigo recebido em 28 de julho de 2026 e aceito em 8 de setembro de 2026.
- Localização: montanhas de Marghine, na província de Nuoro, a cerca de 110 quilômetros (70 milhas) a oeste da zona azul original da Sardenha.
- Probabilidade feminina de chegar aos 100 anos aos 70: 13,83% em Bolotana, contra 4,43% na Sardenha, 4,33% em Nuoro, 3,6% nos Estados Unidos e 3,54% na Itália.
- Expectativa de vida adicional para mulheres aos 70 anos: 20,85 anos em Bolotana, ante 18,61 anos em Nuoro, 18,4 anos na Sardenha e 18,06 anos na média italiana.
- Indicadores masculinos aos 70 anos: 4,92% de chance de atingir os 100 anos (ante 1,74% em Nuoro, 1,69% na Sardenha e 1,41% na Itália) e sobrevida média de 16,02 anos (contra 15,48 anos da média nacional).
Validação de documentos e perfil das centenárias de Bolotana
Pesquisas voltadas para populações de idade extrema enfrentam questionamentos na comunidade científica sobre a confiabilidade das certidões de nascimento e óbito, tema que rendeu o prêmio Ig Nobel de 2024 ao demógrafo Saul Justin Newman, da Universidade de Oxford, por demonstrar falhas documentais em áreas conhecidas por abrigar centenários. Para impedir distorções ou fraudes estatísticas na coleta de dados em Bolotana, a equipe científica e o coautor Salvatore Pedde examinaram os arquivos demográficos municipais, cruzaram certidões civis com registros paroquiais de batismo e casamento, reconstituíram linhagens familiares completas, analisaram fotografias antigas e rastrearam moradores nascidos no vilarejo que haviam emigrado ao longo do século 20.
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“O que torna Bolotana extraordinária é que ela possui um registro histórico incrível que nos permite avaliar definitivamente as idades no nascimento e na morte. Os registros municipais e de batismo remontam a séculos e nos permitiram verificar as idades de forma independente”, declarou S. Jay Olshansky. O epidemiologista resumiu o patamar demográfico encontrado na investigação: “Achamos que esta é a população feminina mais longeva do mundo, ou perto disso.”
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A checagem documental comprovou que, dos 3.060 indivíduos nascidos na vila entre 1900 e 1925, 38 alcançaram ao menos 100 anos, número que representa uma taxa de longevidade 57% superior à média italiana. Em 2025, o povoado contabilizava 12 moradores centenários, proporção equivalente a cerca de 12 vezes a média da Sardenha. Seis deles morreram desde então, incluindo o último homem do grupo, Giovanni Madau, falecido em julho de 2026 poucos meses antes de completar 102 anos.
Em outubro de 2026, todas as seis pessoas centenárias vivas na localidade eram mulheres. As decanas são Tonia Giglio e Maddalena Falchi, ambas com 102 anos. A lista segue com a ex-professora de idiomas Filomena Scarpa, que fez 100 anos em janeiro de 2026, e com Giovanna Marras, de 101 anos, que divide a casa com a irmã Mariangela. Ao relatar o cotidiano das duas irmãs após visita em outubro de 2026, Giovanni Mario Pes descreveu a autonomia da dupla: “Elas moram juntas, cozinham juntas, conversam facilmente uma com a outra. Não havia absolutamente nenhum sinal de declínio cognitivo.” A projeção demográfica local aponta que mais duas habitantes devem atingir o centenário até o fim de 2026 e outras duas ao longo de 2027, entre elas Mariangela Marras.
Como Bolotana se diferencia das outras zonas azuis do mundo
O predomínio feminino observado nas montanhas de Marghine contrasta com a primeira zona azul da própria Sardenha, demarcada em 1999 por Giovanni Mario Pes e pelo demógrafo Michel Poulain. Naquela ocasião, o levantamento identificou vilarejos nas encostas centrais e orientais da ilha onde a marca histórica era a longevidade dos homens.
Ao lado do território original sardo, integram o grupo das cinco zonas azuis tradicionalmente reconhecidas no mundo a ilha de Okinawa, no Japão, a Península de Nicoya, na Costa Rica, a ilha de Ikaria, na Grécia, e a comunidade de Loma Linda, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos.
Por que Bolotana ainda é apenas candidata a zona azul?
Apesar dos índices elevados no recorte de 2021 a 2025, os cientistas mantiveram Bolotana na condição de candidata e não oficializaram o título de zona azul porque o porte reduzido da população provoca variações estatísticas entre períodos curtos. Em uma análise de sensibilidade feita pela própria equipe sobre os anos de 2015 a 2019, a probabilidade de uma moradora de 70 anos completar um século de vida ficou em 1,46%, com expectativa de vida adicional de 18,3 anos, sendo que diferenças metodológicas também restringem a comparação direta entre os dois intervalos. Os autores ressaltam ainda que o estudo tem caráter demográfico e não comprova relação de causa e efeito sobre quais fatores explicam a longevidade das mulheres locais, o que exige acompanhamento por mais tempo.
Entre as hipóteses levantadas para investigações futuras estão a topografia de ruas íngremes em uma cidade sem academia de ginástica — onde o prefeito Francesco Manconi relata que idosas chegam a caminhar até 20 quilômetros por dia —, a alimentação abastecida por hortas próprias, o uso de um azeite de oliva local rico em ácidos graxos de cadeia ímpar e o consumo de doces típicos como a seada (sobremesa recheada com queijo) e os mustazzolus (biscoitos condimentados matinais). O convívio comunitário também entra na pauta dos cientistas. “Há uma abundância de afeto natural, seja de familiares, vizinhos ou amigos, em relação aos nossos idosos”, disse o prefeito Manconi.
Para Dan Buettner, a confirmação dos registros abre uma etapa de investigação prática sobre os hábitos da vila. “Agora sabemos que algo extraordinário está acontecendo em Bolotana. O próximo passo é entender o porquê e se as lições podem ajudar pessoas em outros lugares a viver vidas mais longas e saudáveis”, afirmou o coautor, que tem o lançamento de seu novo livro sobre o tema, intitulado The Blue Zones Evolution, previsto para 5 de janeiro de 2027.
