Um estudo liderado pela Universidade de Oxford sobre a origem dos animais na Terra indica que os primeiros seres desse grupo podem ter surgido entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás. Publicada em 2 de outubro de 2026 na revista científica Science Advances, a pesquisa analisou amostras da Mongólia e antecipa em até 200 milhões de anos a cronologia baseada nos primeiros registros fósseis corporais definitivos.
O trabalho contou com a participação de cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley, ETH Zürich, Universidade Yale e Virginia Tech. Os pesquisadores situam o aparecimento dos primeiros animais (Metazoa) durante a Era Neoproterozoica, no intervalo entre o final do período Toniano e meados do Criogeniano. Coautor do estudo e professor de Ciências da Terra e Planetárias na Universidade Yale, “o momento do surgimento dos animais, mesmo em formas tão simples quanto as esponjas, é de grande interesse”, em tradução livre.
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Mais de 140 amostras na Biota de Kheseen e ausência de animais
Para investigar as etapas iniciais da evolução, a equipe examinou mais de 140 amostras de microfósseis com preservação excepcional retiradas da Biota de Kheseen, localizada perto do Lago Khuvsgul, na Mongólia, incluindo materiais de áreas ainda não documentadas em levantamentos anteriores. Utilizando a técnica de microscopia eletrônica de varredura, que permite observar detalhes minúsculos da superfície das rochas, os cientistas identificaram estruturas semelhantes a embriões com células internas preservadas e novas espécies de acritarcos, que são organismos esféricos minúsculos com espinhos. O levantamento na Formação Kheseen ampliou a diversidade conhecida do depósito para 16 espécies de acritarcos, sendo 8 registradas no local pela primeira vez, mas nenhum exemplar pôde ser confirmado definitivamente como um animal.
A ausência de registros animais na Biota de Kheseen é o ponto central que alterou os cálculos dos paleontólogos. Esse depósito da Mongólia é mais de 40 milhões de anos mais jovem que a Biota de Weng’an, na China, e formou-se em um período em que os animais comprovadamente já habitavam outras regiões do planeta, como o sul da China e a Namíbia.
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Até então, a falta de fósseis animais na Biota de Weng’an — que também tem conservação excepcional — era usada como prova científica de que os animais ainda não haviam surgido naquela época. Ao encontrar um depósito mais recente na Mongólia igualmente bem preservado e também sem vestígios animais, os cientistas derrubaram essa premissa.
Ross Anderson, professor associado no Museu de História Natural da Universidade de Oxford e autor sênior do estudo, explicou a mudança de interpretação: “A Biota de Kheseen quebra o argumento de que os microfósseis excepcionais de Weng’an significam que teríamos visto fósseis animais no conjunto se eles existissem na época. Os microfósseis de Kheseen são tão bem preservados quanto, mas os animais continuam ausentes — apesar do fato de sabermos que naquele ponto eles já existiam”.
De acordo com os autores, os primeiros animais eram pequenos e tinham corpo mole, sem ossos ou conchas. A falta de registro desses organismos na Mongólia indica que eles habitavam ambientes diferentes daqueles representados na Biota de Kheseen ou que as condições químicas do local impediram a fossilização.
Recalibração do relógio molecular para 800 milhões de anos
Para calcular a época de surgimento dos animais, a ciência utiliza o método do relógio molecular, uma técnica que analisa as diferenças genéticas entre espécies atuais para estimar quando diferentes grupos compartilharam um ancestral comum. Esse cálculo depende de registros fósseis para estabelecer limites de tempo.
Ao descartar a Biota de Weng’an como a idade máxima possível para o surgimento do grupo e recalibrar o relógio molecular utilizando depósitos geológicos mais antigos, a estimativa para o ancestral comum dos animais recuou para a faixa de 800 milhões a 700 milhões de anos atrás. A comparação das idades geológicas consideradas na pesquisa mostra a diferença entre os períodos analisados:
- 850 milhões a 730 milhões de anos atrás: idade dos depósitos geológicos mais antigos usados para recalibrar o relógio molecular;
- 720 milhões de anos atrás: período aproximado das glaciações extremas globais conhecidas como Terra Bola de Neve (Snowball Earth);
- 650 milhões a 635 milhões de anos atrás: idade das rochas onde foram identificados biomarcadores químicos de esponjas marinhas;
- 590 milhões de anos atrás: idade aproximada da Biota de Weng’an, na China, antigo limite máximo de referência;
- 574 milhões de anos atrás: idade aproximada dos fósseis corporais macroscópicos mais antigos de animais na Biota de Ediacara;
- 550 milhões a 526 milhões de anos atrás: idade da Biota de Kheseen, na Mongólia;
- 539 milhões a 487 milhões de anos atrás: intervalo do Período Cambriano, pouco antes do qual os animais surgem de maneira abrupta no registro fóssil.
Impasse dos lipídios de esponjas e glaciações de 720 milhões de anos
A nova linha do tempo proposta pela equipe liderada pela Universidade de Oxford ajuda a resolver um antigo impasse da paleontologia sobre os vestígios químicos da vida primitiva. Antes dessa pesquisa, cientistas já haviam encontrado biomarcadores químicos — vestígios de lipídios compatíveis com esponjas marinhas — em rochas formadas dezenas de milhões de anos antes dos primeiros fósseis corporais do período Ediacarano, o que contradizia o limite imposto pela Biota de Weng’an. Além disso, o recuo na datação abre a possibilidade científica de que a vida animal tenha surgido antes ou durante os eventos de congelamento global da Terra Bola de Neve, resistindo a condições climáticas severas.
Os autores ressaltam, porém, que o estudo ainda não confirma de forma definitiva a presença de animais há 800 milhões de anos, uma vez que nenhum fóssil corporal de animal anterior ao período Ediacarano foi encontrado até o momento.
Orin Lole Durbin, primeiro autor do estudo, doutorando na Virginia Tech e ex-graduando da Universidade de Oxford, detalhou o alcance dos dados obtidos: “Fósseis corporais de animais pré-ediacaranos ainda nos escapam, e esta análise não prova que os animais existiam há 800 milhões de anos. No entanto, nossa nova evidência fóssil da Mongólia enfraquece um dos principais argumentos para restringir as origens animais ao intervalo Ediacarano. Enquanto isso, nossas análises de relógio molecular mostram o quão mais para trás sua história evolutiva poderia se estender”.
