Aposentadorias, BPC e Bolsa Família sem ganho real podem reduzir a renda do interior em até 18% até 2029

Cofrinho com moedas de 1 real, poupança, dinheiro - cifotart / shutterstock.com

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Um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), projeta que a ausência de ganhos reais em aposentadorias, no Benefício de Prestação Continuada (BPC, auxílio pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda) e no Bolsa Família pode deixar a renda agregada de cerca de 4 mil municípios do interior brasileiro entre 6,8% e 10,8% menor até 2029. Nas regiões mais vulneráveis do país, a retração estimada chega a 18% no período de três anos.

Divulgado em 17 de outubro de 2026, o trabalho consta na Nota de Política Econômica nº 90 do Made-USP, intitulada “Quanto perdem as economias do interior quando os benefícios sociais deixam de crescer? Simulações dos efeitos na renda e na pobreza”. Os economistas Luiza Nassif Pires (professora da Unicamp e codiretora do Made-USP), Clara Zanon Brenck, Clara Saliba e Theo Diogo assinam o documento, elaborado com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2025.

“Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, afirmou a economista Luiza Nassif Pires.

Peso do Bolsa Família, BPC e aposentadorias em 4 mil municípios

Dos 5.569 municípios brasileiros analisados pela equipe da FEA-USP, aproximadamente 4 mil estão situados fora das capitais e das regiões metropolitanas, onde o peso das transferências públicas de renda chega a ser o dobro do registrado nos grandes centros urbanos. Nessas localidades com menor presença de grandes indústrias e centros empresariais, os pagamentos previdenciários e assistenciais funcionam como a principal fonte de demanda para supermercados, farmácias, feiras e pequenos estabelecimentos comerciais.

Foto: bolsa família – Foto: PhotoGranary02 / Shutterstock.com

O estado do Ceará foi utilizado pelos pesquisadores como exemplo dessa diferença geográfica. Enquanto aposentadorias, pensões, BPC e Bolsa Família respondem por 22% da renda agregada na capital Fortaleza e em sua região metropolitana, a fatia sobe para 40% nas cidades do interior cearense. Na prática, de cada R$ 100 que compõem a renda agregada do interior do estado, R$ 40 têm origem nesses repasses federais.

Nas famílias de menor renda do interior brasileiro — aquelas com rendimento mensal de até 1,5 salário mínimo por pessoa —, a dependência é ainda maior. Nesses domicílios, a soma de aposentadorias, BPC e Bolsa Família representa cerca de 50% de todo o orçamento doméstico.

Veja também: Estagnação no Bolsa Família e BPC segundo a USP levaria 2,7 milhões de pessoas à pobreza

Projeções do Made-USP para a renda do interior entre 2027 e 2029

Os pesquisadores simularam o comportamento da economia entre 2027 e 2029 comparando um cenário de referência, que mantém o ritmo de crescimento real dos benefícios observado de 2022 a 2025, com cenários hipotéticos de congelamento nominal ou ausência de valorização acima da inflação. As simulações não representam cortes aprovados pelo governo nem perdas já registradas, mas projeções matemáticas sobre diferentes regras de reajuste.

A diferença negativa na renda agregada dos municípios fora das regiões metropolitanas varia conforme a dependência de cada estado em relação aos repasses federais:

  • Média dos cerca de 4 mil municípios do interior: renda agregada entre 6,8% e 10,8% abaixo do cenário de referência até 2029.
  • Interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí: perda projetada de 17% a 18% na renda agregada regional.
  • Interior do Amazonas, de Sergipe e de Pernambuco: redução estimada em torno de 15% na renda agregada.
  • Interior do Ceará, do Maranhão, de Alagoas e da Bahia: retração calculada entre 10% e 13% na renda agregada.

Efeito multiplicador atinge comerciantes e quem não recebe o BPC ou Bolsa Família

Cerca de um terço de toda a diferença de renda projetada pelo Made-USP para o triênio de 2027 a 2029 decorre do efeito multiplicador indireto sobre o setor de comércio e serviços. Quando o poder de compra das aposentadorias e das transferências sociais diminui, o impacto ultrapassa o orçamento dos beneficiários diretos e reduz o faturamento de comerciantes, a contratação de trabalhadores formais e informais e a arrecadação de impostos das prefeituras.

Nos municípios com maior concentração de empregos formais e salários pagos pelo setor privado, a perda proporcional tende a ser menor. Já nas cidades menos diversificadas, a queda no valor real dos benefícios reduz a circulação de moeda em sucessivas transações econômicas, afetando moradores que nunca receberam repasses governamentais.

Simulação entre 2022 e 2025 aponta 2,7 milhões de pessoas a mais na pobreza

Além das projeções até 2029, a Nota de Política Econômica nº 90 realizou um exercício contrafactual retrospectivo para medir o que teria ocorrido entre 2022 e 2025 caso os benefícios sociais e previdenciários não tivessem registrado ganho real. Mantendo as demais fontes de renda constantes, o estudo identificou que o congelamento dos valores teria deixado números mais altos de vulnerabilidade social fora das regiões metropolitanas:

  • Cenário de congelamento total entre 2022 e 2025: acréscimo estimado de 2,7 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza nos municípios do interior, das quais 2,4 milhões estariam em situação de extrema pobreza.
  • Cenário sem ganho real do salário mínimo (padrão de reajustes do período de 2018 a 2022): aumento estimado de 1,8 milhão de pessoas na pobreza, sendo cerca de 1,4 milhão na extrema pobreza.
  • Estados com maior aumento absoluto de pessoas na pobreza na simulação de congelamento: Bahia (até 336 mil pessoas a mais), São Paulo (até 263 mil) e Minas Gerais (até 251 mil).
  • Outros estados com alta expressiva no mesmo exercício retrospectivo: Maranhão, Pará e Ceará teriam registrado acréscimo superior a 200 mil pessoas em situação de pobreza cada um.

Debate sobre ajuste fiscal de R$ 250 bilhões e salário mínimo

O estudo da FEA-USP foi elaborado em meio às discussões econômicas sobre propostas de ajuste fiscal estimadas em cerca de R$ 250 bilhões — valor equivalente a aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país). Entre as medidas debatidas por analistas está a desvinculação dos reajustes das aposentadorias e do BPC da política de valorização real do salário mínimo, que foi retomada em 2023. Os autores destacam que o levantamento mede exclusivamente os efeitos distributivos sobre a renda e a pobreza regional, sem calcular o custo fiscal completo de cada alternativa para o orçamento da União.

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol