Doença de Newcastle leva China e Chile a barrarem aves de SC enquanto México suspende todo o Brasil

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Frango, frigorífico, aves - BearFotos/shutterstock.com Foto: Frango, frigorífico, aves - BearFotos/shutterstock.com

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) anunciou nesta terça-feira (20) que a China e o Chile suspenderam temporariamente as importações de produtos avícolas de Santa Catarina, enquanto o México bloqueou as compras de todo o Brasil. As restrições comerciais ocorreram após a confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial com cerca de 6 mil perus de corte em Nova Itaberaba, no Oeste catarinense, e atingem diretamente 14 unidades frigoríficas do estado habilitadas a vender para o mercado chinês.

De acordo com a pasta, a decisão de Pequim de restringir o bloqueio apenas ao estado do Sul ocorreu após uma solicitação da embaixada brasileira na capital chinesa. “No caso da China, a restrição foi limitada a Santa Catarina após negociação conduzida pelo governo brasileiro. A atuação do Mapa permitiu evitar a suspensão das importações de todo o território nacional”, informou o Ministério da Agricultura e Pecuária em nota oficial divulgada ao meio-dia.

Restrições de China, México e Chile às aves do Brasil

A Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC, órgão que controla a entrada de mercadorias no país asiático) atualizou o sistema oficial e suspendeu temporariamente os embarques de 14 estabelecimentos catarinenses, de um total de 61 unidades brasileiras autorizadas a exportar carne de aves para os chineses. O bloqueio no estado atinge cinco plantas da Cooperativa Aurora, cinco da Seara, três da MBRF e uma da JBS Aves. O Chile também limitou o veto a Santa Catarina, mas aplicou uma lista que barra carnes frescas de aves, produtos cárneos contendo carne fresca de aves, ovos férteis, ovos SPF (livres de patógenos específicos, usados na produção de vacinas e pesquisas), ovos para consumo humano, pintinhos de um dia e aves ornamentais.

Na direção oposta, o México suspendeu as compras de produtos avícolas de todo o território brasileiro na noite de segunda-feira (19), por decisão da Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural mexicana e da Secretaria Nacional de Sanidade, Inocuidade e Qualidade Agroalimentar (Senasica, agência sanitária daquele país). O embargo mexicano abrange aves vivas, carne e miúdos de aves, ovos férteis, pintinhos de até três dias de vida, além de aves canoras, ornamentais, de rapina destinadas à comercialização e de companhia. “A medida foi tomada com o objetivo de proteger a produção avícola nacional, uma vez que o México é um país livre da Doença de Newcastle“, declarou o Ministério da Agricultura do México em comunicado.

Volume de exportações e dados do foco em Nova Itaberaba

A suspensão afeta o comércio com dois importantes compradores da avicultura nacional e um estado com forte participação nos embarques do setor, conforme os dados oficiais do comércio exterior e da defesa agropecuária:

  • 420 mil toneladas: volume de carne de frango exportado pelo Brasil para a China entre janeiro e setembro de 2026, o que equivale a cerca de 10% do total vendido pelo país no período;
  • 182 mil toneladas: quantidade de carne de frango comprada pelo México do Brasil de janeiro a setembro de 2026, ocupando a posição de sétimo maior importador (cerca de 4,5% do total);
  • 44,8% (29,5 mil toneladas): fatia de Santa Catarina nas exportações brasileiras de carne de peru em 2025, na liderança do ranking nacional;
  • 23,3% (1,20 milhão de toneladas): participação catarinense nos embarques brasileiros de carne de frango em 2025, na segunda colocação do país;
  • 133 propriedades rurais: total de granjas monitoradas pelas equipes de defesa agropecuária na área perifocal de aproximadamente 10 quilômetros ao redor do foco.

O consumo de carne de aves e ovos oferece risco à saúde humana?

Tanto o Ministério da Agricultura e Pecuária quanto a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc, órgão estadual de defesa sanitária) afirmaram que a ingestão de carne de aves e ovos inspecionados pelo serviço veterinário oficial identificados com os selos SIM (municipal), SIE (estadual) ou SIF (federal) não representa perigo para a população. “Eu queria destacar, porque acho que é importante a gente enfatizar, que o consumo dessa carne não traz nenhum risco às pessoas”, disse o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, durante coletiva de imprensa na segunda-feira (19).

A doença de Newcastle é provocada por um vírus virulento do paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1), que atinge aves domésticas e silvestres com problemas respiratórios, digestivos e neurológicos, mas a infecção em humanos é rara e costuma causar apenas conjuntivite leve em quem tem contato direto com animais infectados. O caso em Nova Itaberaba foi confirmado no domingo, 18 de outubro de 2026, pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), unidade de referência da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), a partir de amostras coletadas em 21 de setembro de 2026 e de análises complementares de quarta-feira (14) durante ações de vigilância ativa.

De acordo com a presidente da Cidasc, Celes Regina de Matos, nenhuma ave da propriedade saiu para o abate e o lote de cerca de 6 mil perus será eliminado na própria granja interditada. “Já estamos em loco, contendo e erradicando a presença desse vírus. Vírus esse que não desenvolveu a doença, foi apenas confirmada a presença. As aves não estão tendo sintomas e nem mortalidade. Porém, segundo preconiza a Organização Mundial de Saúde Animal, nós vamos tratar o local como um foco, será feita a erradicação, a desinfecção e a Cidasc só vai sair de lá quando o foco for eliminado”, afirmou a dirigente.

Acordo com a China e o antecedente de Anta Gorda em 2024

Pelo acordo sanitário bilateral firmado entre Brasil e China, a confirmação de doença de Newcastle ou de gripe aviária em granja comercial aciona inicialmente um autoembargo preventivo das exportações até que as autoridades chinesas decidam se o bloqueio vale para o país inteiro ou somente para o estado com registro. No caso anterior da doença no Brasil, identificado em julho de 2024 em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, a China, a Argentina e o México chegaram a suspender as compras de carne de frango de todo o território nacional no período inicial. Cerca de um mês depois daquele episódio, os chineses retomaram as compras dos demais estados, mas o produto gaúcho só foi liberado em janeiro de 2026.

Veja também: BR-101 em Santa Catarina lidera ranking nacional de acidentes da PRF com 987 casos no primeiro trimestre

Para conter a situação atual em Santa Catarina, o governo federal declarou estado de emergência zoossanitária pelo prazo de 60 dias nos municípios de Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim, por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira (19). Além das decisões de China, México e Chile, o protocolo de certificação sanitária brasileiro prevê restrições preventivas automáticas conforme acordos bilaterais limitadas ao estado para mercados como União Europeia, União Aduaneira Euroasiática, Cazaquistão e Ucrânia, ou restritas a um raio de 10 km a 25 km do foco para outros parceiros. “A situação dos demais mercados segue em monitoramento pelo ministério, que divulgará novas informações à medida que houver atualizações confirmadas”, concluiu a nota oficial do Mapa.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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