A consciência em bebês e fetos é investigada por pesquisadores da Universidade de Cambridge, da Universidade de Tübingen, do Trinity College Dublin e da Universidade de Nova York com o uso de ressonância magnética funcional e sensores magnéticos. Os estudos buscam identificar o momento exato em que o cérebro humano passa a integrar estímulos externos e internos, com evidências de que recém-nascidos já apresentam redes cerebrais ativas semelhantes às de adultos acordados.
Para o neonatologista da Universidade de Cambridge, Topun Austin, o fenômeno envolve a recepção de estímulos do ambiente combinada à atividade interna do indivíduo. “A consciência é um processo de receptividade ao mundo exterior e de combinação disso com nosso próprio mundo interior, criando a sensação de quem somos e de onde estamos”, disse Austin. O médico ressalta que, embora a ciência ainda debata o ponto exato de partida dessa percepção, há uma certeza sobre o desenvolvimento infantil: “uma coisa de que podemos ter certeza é que eles se tornarão conscientes”.
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Testes de sons inesperados e sensores magnéticos na Alemanha
Para avaliar bebês que ainda não falam, não fixam o olhar nem respondem a instruções verbais, os cientistas adaptaram testes aplicados em adultos. Um dos métodos principais é o paradigma oddball, um teste de sons inesperados no qual o participante escuta repetidamente uma sequência de três tons graves seguidos por um tom agudo e, de repente, ouve quatro tons graves consecutivos.
Em adultos conscientes, essa quebra de padrão gera um sinal cerebral breve e característico, que não aparece em pacientes em coma ou em pessoas adormecidas. Em um experimento conduzido na Alemanha, recém-nascidos foram posicionados em um berço especial revestido de sensores capazes de captar minúsculas flutuações magnéticas e receberam fones de ouvido. Ao escutarem as combinações de tons graves e agudos, os bebês produziram sinais cerebrais distintos em resposta à mudança sonora.
A filósofa e professora assistente de bioética na Universidade de Nova York (NYU), Claudia Passos-Ferreira, avalia que o resultado aproxima a atividade infantil do padrão maduro. “Isso mostra que o cérebro do recém-nascido já funciona de modo muito próximo ao que observamos no cérebro de um adulto”, afirmou Passos-Ferreira. Apesar do avanço, a própria pesquisadora e outros cientistas apontam que um indicador isolado não é conclusivo, pois outros experimentos falharam em detectar marcadores distintos de percepção consciente na mesma faixa etária.
O neurocientista cognitivo da Universidade de Tübingen, Joel Frohlich, defende a busca por múltiplos sinais simultâneos para estabelecer um marco seguro. “Se observarmos muitos indicadores aparecendo ao mesmo tempo, isso será um forte indício de que é nesse momento que a consciência começa”, declarou Frohlich, que também classifica o campo de pesquisa como uma fronteira científica: “Realmente vejo isso como uma área de fronteira na ciência da consciência”.
Mapeamento de 428 bebês no Developing Human Connectome Project
Outro conjunto de evidências veio do Developing Human Connectome Project (dHCP), consórcio científico sediado no Reino Unido que adaptou aparelhos de ressonância magnética funcional para examinar centenas de crianças em Londres. Em vez da mesa tradicional usada por adultos, engenheiros construíram um pequeno berço acoplado a uma bobina neonatal — uma proteção plástica para a cabeça — para registrar a atividade elétrica e sanguínea espontânea durante exames de ressonância magnética funcional em estado de repouso (rs-fMRI) com duração de 15 minutos.
A equipe liderada pela neurocientista e professora de psicologia no Trinity College Dublin, na Irlanda, Lorina Naci, analisou os exames do projeto britânico para observar como diferentes áreas cerebrais se comunicam sem tarefas externas. Na análise de uma amostra de 282 recém-nascidos a termo e 146 prematuros (sendo 73 avaliados na idade equivalente ao termo e 73 antes dessa marca), comparada a 176 adultos, o grupo de Naci constatou que regiões cerebrais dos bebês nascidos no tempo regular ativam-se de forma coordenada. Essa atividade inclui a relação recíproca entre a rede de modo padrão (default mode network, ligada ao fluxo interno de pensamentos) e as redes frontoparietais de atenção dorsal e controle executivo, padrão que costuma desaparecer em adultos anestesiados ou dormindo, mas que nos prematuros avaliados antes da idade equivalente ao termo mostrou subdesenvolvimento acentuado na arquitetura de comunicação regional.
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Quando começa a consciência no feto segundo os estudos de 2026
A identificação de redes ativas em recém-nascidos levou os laboratórios a investigarem o período pré-natal. No Hospital Universitário de Tübingen, Joel Frohlich e seus colegas utilizam a magnetoencefalografia fetal (fMEG), técnica em que gestantes voluntárias apoiam a barriga em um equipamento projetado para captar os tênues campos magnéticos gerados pelo cérebro do feto ainda no útero.
Na comunidade científica, há acordo de que a percepção consciente exige conexões neurais maduras o suficiente para receber sinais dos sentidos e integrá-los em uma experiência unificada, estrutura física que não existe antes de aproximadamente 24 a 26 semanas de gestação. A partir desse limite biológico, as estimativas variam, conforme demonstram os marcos temporais levantados pelas pesquisas sobre o tema:
- 1 de janeiro de 1839: ano em que o naturalista britânico Charles Darwin iniciou seu caderno de observações sobre o primeiro filho, William.
- 12 de outubro de 2023: publicação da revisão científica “Consciousness in the cradle: on the emergence of infant experience” na revista Trends in Cognitive Sciences, assinada por Tim Bayne (professor de filosofia na Universidade Monash, na Austrália), Joel Frohlich, Rhodri Cusack, Julia Moser e Lorina Naci, apontando que a consciência provavelmente já está presente no nascimento ou logo após.
- 1º de junho de 2026: publicação do levantamento “A survey of views about infant consciousness” na revista Neuroscience of Consciousness, conduzido por Claudia Passos-Ferreira e pelo filósofo e professor do Departamento de Filosofia da NYU, David J. Chalmers.
- 20 de outubro de 2026: divulgação das análises compiladas pelo jornalista de ciência Carl Zimmer sobre os avanços de neuroimagem neonatal.
No estudo publicado em 1º de junho de 2026 por Passos-Ferreira e Chalmers, feito com participantes de duas grandes conferências sobre consciência, a maioria dos especialistas respondeu que os recém-nascidos já possuem consciência sensorial e afetiva ao nascer. No mesmo levantamento, a maior parcela relativa (pluralidade) dos entrevistados estimou que a consciência emerge no período pré-natal após 24 semanas de gestação, enquanto a autoconsciência — a percepção mais elaborada de si mesmo — surge no período pós-natal, após os 6 meses de idade.
De Charles Darwin às cirurgias sem anestesia e aos dilemas da bioética
A visão de que bebês percebem o mundo desde o nascimento contrasta com o entendimento predominante na ciência desde o século 19. Ao observar seu primogênito William em 1839, Charles Darwin acreditava que os humanos repetiam na infância a evolução da espécie, partindo de reflexos simples como espirrar, soluçar, bocejar, espreguiçar-se, sugar e gritar até alcançar o pensamento complexo. Como comportamentos como reconhecer-se no espelho, falar palavras simples e estender as mãos para objetos só surgiam meses depois, o naturalista anotou à época: “Não há vestígio de consciência em crianças muito pequenas”.
Na prática médica, essa mesma premissa fez com que gerações de profissionais presumissem que recém-nascidos não sentiam dor de forma consciente, o que levou à realização rotineira de cirurgias e procedimentos como a circuncisão sem aplicação de anestesia. A conduta só foi abandonada após exames comprovarem que o cérebro neonatal processa sinais dolorosos em múltiplas regiões, de modo semelhante ao de adultos, além de estudos comportamentais indicarem que bebês reconhecem rostos como um todo integrado e executam operações matemáticas simples antes de aprenderem a falar. No campo ético atual, a busca por marcadores não verbais de percepção também ganhou peso diante de debates filosóficos sobre inteligência artificial e de experimentos recentes que implantaram milhões de células cerebrais humanas funcionais em camundongos.
Apesar dos avanços na neuroimagem e na medição de sinais magnéticos, ainda não há consenso científico definitivo sobre qual teoria da consciência está correta nem sobre o momento exato em que ela começa no feto ou no recém-nascido. Na literatura médica, persiste a divergência teórica entre os pesquisadores que defendem o surgimento precoce — no fim da gestação ou logo no parto, com base na conectividade cerebral e na resposta a sons — e os que sustentam o surgimento tardio, após maior maturação pós-natal. “Não há um consenso com o qual todos concordemos”, resumiu Joel Frohlich sobre o estágio atual das investigações nos laboratórios europeus e norte-americanos.
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