Pesquisadores da Universidade de Yale, da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD) e do J. Craig Venter Institute (JCVI) identificaram uma comunidade ativa de micro-eucariotas marinhos ancestrais nas águas avermelhadas de Blood Falls, conhecida como Cachoeira de Sangue, no Glaciar Taylor, na Antártida. O estudo, publicado na revista científica Nature Geoscience em 3 de agosto de 2026, comprova que organismos dotados de células com núcleo continuam vivos, realizando fotossíntese e mantendo rotas metabólicas ativas após ficarem isolados do oceano aberto sob espessas camadas de gelo.
A investigação foi liderada por Angela Zoumplis, autora principal do estudo, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Yale e cientista visitante no JCVI, tendo como autor sênior Andrew E. Allen, professor no JCVI e no Scripps Institution of Oceanography da UCSD, além da coautoria de Nicholas Schulte, pesquisador de diatomáceas na Universidade do Colorado em Boulder. “Era uma comunidade inteira. Isso nos surpreendeu profundamente. Como algo mais complexo do que bactérias poderia sobreviver nessas condições?”, afirmou Angela Zoumplis, em tradução livre.
Sequenciamento de RNA comprova atividade celular e fotossíntese em Blood Falls
Para garantir que estavam diante de organismos vivos e metabolicamente ativos, e não apenas de restos genéticos antigos preservados pelas baixas temperaturas antárticas, a equipe científica optou por extrair e sequenciar o ácido ribonucleico (RNA), molécula que indica síntese proteica em tempo real, em vez de focar apenas no DNA. Os pesquisadores aplicaram técnicas de metatranscritômica, método que analisa o conjunto de genes expressos por uma comunidade no momento da coleta, aliadas à amplificação do gene 18S rRNA nas amostras retiradas da lama vermelha, do gelo e dos sedimentos próximos à extremidade da geleira. “Confiamos no RNA no momento mais como um sinal de vida em comparação ao DNA”, explicou Zoumplis.
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As análises moleculares demonstraram que a comunidade microbiana de Blood Falls é composta por eucariontes fototróficos ativos, grupo que engloba diatomáceas, dinoflagelados, hapudófitas (microalgas marinhas conhecidas em inglês como haptophytes) e ciliados. O sequenciamento indicou que entre 60% e 80% da comunidade de diatomáceas presente nas amostras próximas à Cachoeira de Sangue está associada ao ambiente marinho. Contudo, a nomenclatura específica dos gêneros de diatomáceas, citados preliminarmente como Fragilariopsis e Chaetoceros, bem como da família de dinoflagelados Gymnodiniaceae, ainda não foi confirmada de maneira independente por todas as instituições envolvidas no levantamento, que tratam os grupos em seus comunicados técnicos apenas pelas classificações gerais de diatomáceas marinhas e dinoflagelados.
Os dados obtidos pelo sequenciamento genético confirmaram a ativação contínua de rotas metabólicas ligadas à fotossíntese, à respiração celular, ao transporte de íons e ao reparo direto de DNA. Segundo o levantamento, esses micro-organismos acionam mecanismos próprios de osmoadaptação e tolerância ao estresse salino no momento em que a salmoura subglacial emerge à superfície e interage tanto com a luz solar quanto com a água de derretimento do gelo. Quando enfrentam períodos desfavoráveis e ausência de recursos na superfície, as células conseguem entrar em estados de dormência ou encistamento, estratégia biológica que preserva a viabilidade dos organismos no gelo por longos intervalos.
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Números, coleta e localização do estudo no Glaciar Taylor
O trabalho de campo que permitiu mapear a vida microbiana no gelo avermelhado teve início com a coleta presencial de material conduzida pelas pesquisadoras Angela Zoumplis e Natalie Aranda. Os parâmetros geográficos e quantitativos da expedição nos Vales Secos de McMurdo, na região da Terra de Vitória, abrangem as seguintes medições:
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- Data da coleta das amostras em campo: janeiro de 2023.
- Data de publicação e divulgação oficial pelo JCVI: 3 de agosto de 2026.
- Total de material analisado: 167 amostras de água, gelo, lama, sedimentos e ar.
- Divisão exata da amostragem: 18 amostras colhidas diretamente em Blood Falls, 14 amostras de ar e correntes de vento, 109 amostras de córregos nos Vales Secos de McMurdo e 26 amostras de água oceânica no Estreito de McMurdo.
- Extensão total do Glaciar Taylor: cerca de 54 quilômetros (35 milhas) ao longo dos Vales Secos de McMurdo.
- Distância até o mar: cerca de 32 quilômetros (20 milhas) separam Blood Falls do oceano aberto mais próximo.
Isolamento geográfico e diferenças genéticas em relação ao Estreito de McMurdo
O mapeamento de redes genéticas conduzido pela equipe revelou divergências entre as populações de diatomáceas encontradas em Blood Falls e as espécies marinhas modernas que habitam atualmente o Estreito de McMurdo (McMurdo Sound). Para descartar a hipótese de contaminação recente, os cientistas cruzaram os dados genômicos com análises das correntes de vento locais, comprovando que os micróbios não foram transportados pelo ar a partir da costa oceânica. “Este é um ambiente que parece quase completamente isolado do oceano atualmente. Mas, quando observamos as assinaturas moleculares dos organismos que vivem na lama vermelha e nos sedimentos ao redor de Blood Falls, vimos um sinal marinho surpreendentemente forte. Isso nos diz que este local pode estar preservando vestígios de uma conexão mais antiga entre os Vales Secos e o mar”, disse Angela Zoumplis.
As pesquisas biogeoquímicas indicam que a salmoura subglacial teve origem quando antigas incursões oceânicas inundaram o vale durante períodos interglaciais mais quentes da Terra. Com o posterior resfriamento e o avanço do Glaciar Taylor, essa água do mar acabou aprisionada em um reservatório subterrâneo, sem contato direto com a atmosfera. O tempo exato em que essa água permaneceu isolada sob o gelo apresenta variações conforme diferentes estimativas geológicas citadas pelos pesquisadores, oscilando entre mais de 1,5 milhão de anos e a faixa de 2 milhões a 2,5 milhões de anos.
A descoberta de Thomas Griffith Taylor em 1911 e a química da salmoura
O fenômeno natural da Cachoeira de Sangue foi registrado pela primeira vez em 1911 pelo geólogo australiano Thomas Griffith Taylor, durante a expedição Terra Nova na Antártida. Na época do descobrimento, a hipótese inicial dos exploradores era a de que a coloração avermelhada do gelo resultava da proliferação de algas vermelhas na superfície. Análises químicas posteriores refutaram essa ideia inicial e comprovaram que o tom de sangue decorre da rápida oxidação do ferro presente em alta concentração na salmoura hipersalina no instante em que o líquido emerge das fendas e entra em contato com o oxigênio do ar.
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A manutenção dessa água em estado líquido debaixo do Glaciar Taylor, mesmo submetida a temperaturas constantemente abaixo de zero, ocorre por dois fatores físicos combinados: a extrema concentração de sal reduz o ponto de congelamento do líquido, enquanto o calor latente liberado durante o processo de congelamento parcial ajuda a sustentar o fluxo contínuo. Antes do estudo publicado em 2026, levantamentos científicos realizados em Blood Falls haviam identificado apenas a presença de bactérias e arqueas (micro-organismos procariontes sem núcleo celular definido) adaptadas àquele ambiente subglacial escuro, desprovido de oxigênio e rico em ferro e sulfato, sem registros confirmados de eucariontes complexos em atividade.
A confirmação de que organismos marinhos fotossintetizantes conseguem sobreviver e manter funções celulares em salmouras subglaciais transforma o Glaciar Taylor em um refúgio biológico de eras geológicas passadas. “Isso potencialmente nos leva a uma nova compreensão da resiliência microbiana. Revela algo muito empolgante sobre como certos organismos podem se adaptar a novas condições e persistir em ambientes extraordinariamente hostis”, declarou Angela Zoumplis. Os resultados estabelecem um novo modelo prático para cientistas investigarem como ecossistemas polares reagem a variações climáticas e fornecem parâmetros diretos para a busca de biossinaturas e vestígios de vida em corpos celestes congelados fora da Terra.
