Character.AI pede recuperação judicial e busca venda nos EUA

Character.AI - Instagram

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A Character Technologies, Inc., operadora da plataforma de chatbots de inteligência artificial Character.AI, protocolou pedido voluntário de recuperação judicial na Corte de Falências dos Estados Unidos para o Distrito de Delaware em 12 de outubro de 2026. O processo, amparado pelo Chapter 11 (a lei norte-americana que permite a reorganização financeira ou venda de empresas sob supervisão judicial), tem como proponente inicial a Disney Worldwide Services, Inc., que ofereceu US$ 20 milhões pelo licenciamento de parte da propriedade intelectual da companhia.

O objetivo da medida é conduzir a venda supervisionada pela Justiça da totalidade ou de quase todos os ativos do negócio. O atual diretor-executivo (CEO) da empresa, Colin Adams, atribuiu a crise financeira aos elevados custos jurídicos, à dificuldade para atingir lucratividade e ao receio de investidores diante dos processos enfrentados pela plataforma. “No último ano, o Character.AI deu passos importantes para sustentar e melhorar seus negócios diante de significativos ventos contrários legais, regulatórios e operacionais”, afirmou Adams em declaração ao tribunal, em tradução livre.

Proposta da Disney pelo Character.AI exclui aplicativo e dados de usuários

Antes de oficializar o pedido na Justiça, a companhia sediada na Califórnia fechou um acordo para que a Disney atue como proponente inicial (modalidade conhecida no mercado norte-americano como stalking horse bidder, que estabelece um piso para o leilão judicial). O lance de US$ 20 milhões garante à empresa de entretenimento uma licença perpétua e não exclusiva sobre determinadas propriedades intelectuais e reivindicações legais, além de serviços de transição.

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O pacote negociado com a Disney deixa de fora o aplicativo voltado ao consumidor, a marca Character.AI, os modelos de inteligência artificial já finalizados, as bases de treinamento e todo o acervo de dados e históricos de conversas dos usuários. A aproximação entre as duas empresas ocorreu mesmo após uma disputa em 2025, quando a Disney enviou uma notificação extrajudicial exigindo que a plataforma removesse personagens protegidos por direitos autorais.

Além da proposta financeira pela tecnologia, a Disney contratou a maior parte da equipe do Character.AI antes da abertura do processo de falência. Entre os profissionais transferidos está o ex-CEO da plataforma, Karandeep Anand, que assumiu o cargo de diretor de tecnologia (CTO) da Disney em 2 de outubro de 2026.

Procuradores de 40 estados cobram proteção a conversas no Character.AI

Na quarta-feira (14), uma coalizão bipartidária de procuradores-gerais estaduais, reunindo representantes de 40 estados norte-americanos, protocolou uma notificação formal na Corte de Falências de Delaware. O grupo exige a criação de salvaguardas de privacidade para proteger informações sensíveis e históricos de conversas privadas de consumidores e menores de idade em qualquer venda de ativos. Segundo relato do CEO Colin Adams à Justiça, 46 estados e territórios dos Estados Unidos investigam a empresa atualmente.

A procuradora-geral de Nova Jersey, Jennifer Davenport, declarou que o acervo de diálogos da plataforma não pode ser negociado livremente no leilão. “Os chatbots do Character.AI acumularam vastas quantidades de conversas profundamente pessoais e sensíveis. Essa informação não deve ser tratada como uma mercadoria a ser vendida a quem der o maior lance sem salvaguardas significativas”, disse Davenport, em tradução livre.

O procurador-geral da Pensilvânia, Dave Sunday, também se manifestou no processo sobre os riscos envolvendo menores de idade. “Vimos repetidas vezes empresas de tecnologia priorizarem os lucros em detrimento da segurança de seus usuários — muitos deles crianças —, por isso devemos continuar fazendo tudo ao nosso alcance para proteger esses consumidores”, afirmou Sunday. Na mesma linha, o chefe de IA e Avaliações Digitais da organização Common Sense Media, Robbie Torney, alertou para o volume de registros armazenados: “Há muitos dados de crianças no sistema do Character.AI que estão potencialmente à venda agora”.

Foto: Gráfico, finanças – Garun .Prdt/shutterstock.com

Números financeiros e base de usuários do Character.AI

Os documentos apresentados à Corte de Delaware detalham a dimensão operacional da plataforma de criação de chatbots para interpretação de papéis (roleplaying) e o impacto das despesas com pessoal e litígios no caixa da empresa:

  • Ativos e passivos declarados: faixa estimada entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões para ambos os indicadores no pedido de recuperação judicial.
  • Receita anual: cerca de US$ 23,6 milhões registrados no total do ano fiscal de 2025.
  • Audiência global: aproximadamente 12 milhões de usuários ativos por mês no mundo, incluindo ao menos 2 milhões de crianças e adolescentes.
  • Tempo de uso: média diária de 120 minutos (cerca de duas horas) por usuário dentro da plataforma.
  • Transição de equipe: cerca de 65 funcionários receberam ofertas de emprego da Disney, com custo anual estimado de remuneração de US$ 60 milhões previsto em termo judicial.

Acordo de US$ 2,7 bilhões com o Google e ações judiciais contra o Character.AI

Fundado em 2021 pelos ex-engenheiros do Google Noam Shazeer e Daniel De Freitas, o Character.AI abriu sua versão beta ao público em setembro de 2022 e atingiu avaliação de mercado de US$ 1 bilhão em março de 2023, quando captou US$ 150 milhões em uma rodada de investimentos Série A liderada pela firma Andreessen Horowitz. Em agosto de 2024, o Google pagou cerca de US$ 2,7 bilhões em dinheiro por uma licença não exclusiva da tecnologia de grandes modelos de linguagem (LLM, sistemas treinados com grandes volumes de texto para gerar respostas) da startup, recontratando Shazeer e De Freitas e gerando liquidez aos investidores sob uma avaliação próxima de US$ 2,5 bilhões.

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Nos anos seguintes, a operação passou a ser alvo de ações judiciais movidas por famílias nos Estados Unidos, que acusaram os chatbots da plataforma de contribuir para casos de automutilação e suicídio de adolescentes. No início de 2026, o Character.AI e o Google firmaram acordos para encerrar diversos desses processos nos estados da Flórida, Colorado, Texas e Nova York. A empresa também sofreu ofensivas estatais diretas em 2026: em janeiro, o procurador-geral do Kentucky processou o serviço apontando riscos a crianças e, em maio, o estado da Pensilvânia acionou a companhia na Justiça após um robô de conversação afirmar falsamente ser um psiquiatra licenciado na região.

O que muda para os usuários e datas do leilão do Character.AI

A plataforma do Character.AI continua funcionando normalmente para os usuários durante a tramitação do processo na Justiça de Delaware. Caso a venda supervisionada não atraia uma proposta viável que sustente a continuidade das operações, o serviço será encerrado. Ainda não há confirmação se outros compradores farão ofertas para manter o aplicativo no ar ou se a ferramenta será desativada após a conclusão do processo judicial, prevista para ocorrer entre o fim de novembro e o início de dezembro de 2026. O destino do banco de dados com milhões de conversas privadas também depende de decisões do tribunal.

O cronograma proposto à Corte de Falências de Delaware estabelece o dia 20 de novembro de 2026 como prazo final para que outros interessados apresentem lances concorrentes pelos ativos da empresa, com a realização do leilão marcada para 23 de novembro de 2026.

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol