Cânion de Mar del Plata: cientistas identificam 57 novas espécies na missão que filmou estrela-do-mar

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Estrela do Mar - Instituto Oceanográfico Schmidt /Instagram Foto: Estrela do Mar - Instituto Oceanográfico Schmidt /Instagram

O Cânion Submarino de Mar del Plata, no litoral da Argentina, abriga 57 novas espécies e cinco novos gêneros de animais marinhos recém-identificados pela ciência. O anúncio oficial foi feito em 1 de outubro de 2026 pelo programa internacional Nippon Foundation-Nekton Ocean Census, pelo Instituto Oceanográfico Schmidt e pelo Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (CONICET), a partir de amostras da mesma expedição que ganhou repercussão em 2025 ao transmitir ao vivo imagens de uma estrela-do-mar semelhante ao personagem Patrick Estrela.

A catalogação foi concluída por uma equipe internacional formada por 20 taxonomistas (especialistas na classificação de seres vivos) e pesquisadores em início de carreira da América Latina e da Europa. Segundo Michelle Taylor, chefe de ciência do programa Ocean Census, descobrir 57 novas espécies e cinco novos gêneros em apenas duas semanas demonstra a velocidade e o poder da taxonomia colaborativa em relação ao mar profundo, que guarda alguns dos ecossistemas menos compreendidos da Terra. Ela afirmou ainda que a união entre a experiência científica da América Latina e especialistas internacionais, conectada à plataforma de acesso aberto Ocean Census NOVA, acelera de forma drástica a compreensão da biodiversidade marinha.

Divisão das 57 novas espécies no Cânion de Mar del Plata e dados da missão

O trabalho de triagem e confirmação científica ocorreu durante um encontro internacional de descoberta de espécies (Species Discovery Workshop), sediado na Universidade Maimónides, em Buenos Aires. Sob a coordenação local dos pesquisadores Martín Brogger e Valeria Teso, ambos do CONICET, o grupo examinou os invertebrados recolhidos no fundo do Oceano Atlântico e confirmou cinco novos gêneros científicos, distribuídos entre corais, pepinos-do-mar e crustáceos.

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  • Local de coleta: Cânion Submarino de Mar del Plata, na costa da Argentina, fenda com profundidade estimada em mais de 3.500 metros (mais de 11.000 pés).
  • Período da expedição no mar: 23 de julho a 12 de agosto de 2025, a bordo do navio de pesquisa R/V Falkor (too).
  • Período de análise em laboratório: 13 a 24 de julho de 2026, na Universidade Maimónides, em Buenos Aires.
  • Equinodermos catalogados: 22 novas espécies (incluindo pepinos-do-mar e crinoides).
  • Copépodes catalogados: 20 novas espécies (grupo de pequenos crustáceos).
  • Cnidários catalogados: 14 novas espécies (abrangendo octocorais, penas-do-mar e corais pétreos).
  • Moluscos catalogados: 1 nova espécie de molusco escafópode.

Pepino-do-mar Loki e animais achados a até 2.625 metros de profundidade

Um dos principais exemplares documentados no Cânion de Mar del Plata é um pepino-do-mar do gênero Peniagone, encontrado a 2.577 metros de profundidade (8.454 pés). Os cientistas apelidaram o animal de Loki, em referência ao deus da mitologia nórdica, porque a espécie apresenta apêndices no corpo que lembram chifres.

O levantamento abissal registrou ainda um pepino-do-mar roxo do gênero Benthothuria e uma pena-do-mar pertencente ao gênero Pseudumbellula. Em áreas que variam de 1.909 a 2.625 metros abaixo da superfície, onde não há luz solar e a pressão da água é extrema, a equipe identificou um copépode do gênero Pseudotachidius. Já a 1.954 metros de profundidade, os aparelhos recolheram um octocoral de coloração vermelho-alaranjada do gênero Orstomisis.

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Daniel Lauretta, pesquisador principal do CONICET e do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia (MACN), atuou como líder científico da expedição e destacou o peso do trabalho conjunto para a formação de especialistas na região. De acordo com Lauretta, a cooperação internacional em taxonomia é fundamental, sobretudo em grupos com poucos especialistas ativos, e o workshop em Buenos Aires acelerou a identificação e o reconhecimento de espécies novas para a ciência, além de ampliar a capacitação de taxonomistas locais em início de carreira que estudam a fauna do mar profundo.

A estrela-do-mar da campanha Talud Continental IV e o robô SuBastian

A maioria das amostras biológicas que resultaram nas 57 novas espécies foi recolhida durante a expedição Talud Continental IV, também denominada Underwater Oases of the Mar del Plata Canyon. Para alcançar o fundo do cânion a partir do navio R/V Falkor (too), do Instituto Oceanográfico Schmidt, os cientistas utilizaram o SuBastian, um veículo operado remotamente (ROV, na sigla em inglês) equipado com câmeras de alta definição e braços mecânicos para coleta.

Durante os mergulhos realizados em agosto de 2025, as transmissões ao vivo da missão somaram quase 4 milhões de espectadores. Foi nessa etapa, cujo balanço inicial veio a público em 15 de agosto de 2025, que o robô SuBastian filmou uma estrela-do-mar laranja com formato semelhante ao do personagem Patrick Estrela, do desenho animado Bob Esponja. Os biólogos constataram que aquele animal pertencia a uma espécie já conhecida pela ciência e optaram por deixá-lo intacto no leito marinho.

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Para a diretora-executiva do Instituto Oceanográfico Schmidt, Jyotika Virmani, o interesse popular pelas transmissões abriu caminho para o avanço científico consolidado em outubro de 2026. Virmani declarou que a expedição ao Cânion de Mar del Plata capturou a imaginação do público durante a primeira transmissão ao vivo do mar profundo da Argentina e que os resultados demonstram a força do encontro entre tecnologia, experiência técnica e colaboração científica internacional. Segundo a diretora, ao identificar novas espécies, os cientistas ampliaram o entendimento sobre a vida marinha do Atlântico Sul e, por meio do programa Ocean Census, garantiram que os dados fiquem acessíveis em escala global.

Confluência Brasil-Malvinas e o que falta analisar nas amostras da Argentina

A diversidade encontrada na fenda submarina, que tem quase o dobro da profundidade do Grand Canyon, nos Estados Unidos, é explicada pelas condições oceanográficas da costa argentina. O Cânion Submarino de Mar del Plata fica na zona da Confluência Brasil-Malvinas, área em que correntes subtropicais quentes e salgadas colidem com águas subantárticas frias e carregadas de nutrientes, formando um ambiente de alta produtividade biológica. Além dos organismos recolhidos pelo robô SuBastian em 2025, o mutirão científico em Buenos Aires examinou amostras históricas guardadas desde 2012 e 2013, quando o CONICET realizou as campanhas argentinas Talud Continental I, II e III com o uso de redes e arrastos.

O número de novas espécies na região deve crescer à medida que o restante do material for processado. Até o momento, os taxonomistas analisaram apenas cerca de 10% do total de amostras de copépodes coletadas na expedição, mas 100% dos exemplares verificados nesse lote inicial revelaram ser espécies inéditas para a ciência. A equipe também apontou dois possíveis novos gêneros e uma possível nova família entre os corais, que ainda aguardam testes e análises genéticas para confirmação oficial.

Todos os dados confirmados na missão foram inseridos na plataforma pública Ocean Census NOVA para consulta de pesquisadores de qualquer país, enquanto os espécimes físicos ficarão depositados em caráter permanente em coleções nacionais da Argentina, incluindo o acervo do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, em Buenos Aires.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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