Estudantes com alta precisão auditiva processam vogais do inglês sem filtro da língua nativa

Alunos, estudantes - DisobeyArt / shutterstock.com

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Cientistas da University College London (UCL), no Reino Unido, e da Universidade de Tohoku, em Sendai, no Japão, demonstraram que a precisão auditiva para notar variações acústicas sutis em sons não verbais ajuda estudantes a identificar vogais estrangeiras com menor interferência da língua materna. Os dados constam em um estudo divulgado oficialmente pelas duas instituições em 14 de outubro de 2026 e indexado na sexta-feira (16) no periódico científico Journal of Experimental Psychology: General, da American Psychological Association (Associação Americana de Psicologia, organização científica e profissional de psicólogos dos Estados Unidos).

De acordo com a investigação, alunos capazes de distinguir diferenças mínimas de frequência, duração e timbre em sinais sonoros sem conteúdo de fala tiveram desempenho superior ao reconhecer fonemas do inglês, independentemente do histórico de aulas. “Aprendizes com um ‘bom ouvido’ para diferenças auditivas conseguem ouvir um novo som de língua estrangeira de forma objetiva, sem processá-lo imediatamente como ‘linguagem’. Em vez disso, seus cérebros analisam a própria informação acústica, e essa pode ser a chave para explicar por que algumas pessoas assimilam novos idiomas com mais facilidade do que outras”, afirmou Kazuya Saito-van Poeteren, autor principal do estudo e professor de Educação em Segunda Língua no UCL Institute of Education, em tradução livre.

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Testes de precisão auditiva avaliaram distinção de até 2 Hz

O trabalho científico, intitulado originalmente “Individual differences in motor and auditory activation in second language speech learning: Roles of domain-general auditory processing” (Diferenças individuais na ativação motora e auditiva no aprendizado da fala em segunda língua: papéis do processamento auditivo de domínio geral), saiu publicado no volume 155, edição 10, entre as páginas 2394 e 2414 da revista. Além de Saito-van Poeteren, assinam a autoria os pesquisadores Hyeonjeong Jeong e Motoaki Sugiura, ambos da Universidade de Tohoku, Adam Tierney, pesquisador em ciências cognitivas da instituição britânica Birkbeck, University of London, e os coautores Kotaro Takizawa, Diego Elisandro Dardon, Chunlin Liu e Magdalena Kachlicka.

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Foto: Jovens, alunos, estudantes – Divulgação/ MEC

Na primeira fase experimental, os cientistas aplicaram testes com fones de ouvido em 140 estudantes universitários japoneses que aprendiam inglês, avaliando a capacidade de cada voluntário para diferenciar variações acústicas puras, incluindo mudanças de frequência (tom) com limite mínimo de apenas 2 Hz. Em seguida, os participantes precisaram distinguir as vogais inglesas /æ/, presente na palavra “cat” (gato), e /ʌ/, encontrada nos termos “cup” (xícara) e “cut” (cortar), dois sons vocálicos que não possuem equivalentes diretos no sistema fonético do idioma japonês.

Na média geral do experimento inicial, os estudantes universitários japoneses registraram aproximadamente 70% de acerto na identificação dessas duas vogais inglesas, índice comparado pelos autores à pontuação quase perfeita obtida por falantes nativos britânicos na mesma tarefa. A análise estatística revelou que a precisão auditiva para notar diferenças em tons simples teve peso semelhante ao tempo de intercâmbio no exterior ou à realização de treinamentos específicos de pronúncia no resultado individual dos alunos.

Ressonância em Sendai mapeou precisão auditiva em 67 alunos

Para observar o funcionamento cerebral durante o reconhecimento dos fonemas, a equipe conduziu um segundo experimento em Sendai com 67 estudantes japoneses de inglês, contabilizando 207 participações somadas nas duas etapas da pesquisa. Esses voluntários realizaram tarefas de distinção entre as vogais /æ/ e /ʌ/ e entre sons não verbais enquanto passavam por exames de ressonância magnética funcional (fMRI), exame de imagem que mede a atividade do cérebro detectando variações no fluxo sanguíneo.

Os resultados de neuroimagem mostraram que os alunos com menor precisão auditiva apresentaram maior ativação na rede sensório-motora do hemisfério esquerdo do cérebro, área responsável pelo processamento da linguagem e pelo planejamento e execução dos movimentos da fala. Segundo a conclusão dos pesquisadores, ao enfrentar dificuldades para isolar as características puras do som, esses participantes recorreram aos padrões motores de pronúncia da língua materna japonesa para tentar decodificar os fonemas desconhecidos do inglês.

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Em sentido oposto, os participantes com alta precisão auditiva dependeram menos do sistema sensório-motor esquerdo ao escutar as palavras estrangeiras. Nesses indivíduos, os padrões de atividade cerebral registrados durante a audição das vogais do inglês foram semelhantes aos observados quando o cérebro analisa sinais acústicos sem significado verbal, o que reduziu a interferência das referências preexistentes do idioma nativo.

Aptidão linguística no aprendizado de idiomas na vida adulta

No campo de estudo sobre a aquisição de uma segunda língua na idade adulta, a literatura científica investiga um conjunto de fatores conhecido como aptidão linguística, conceito que reúne as habilidades cognitivas e perceptivas que influenciam a velocidade e o sucesso no domínio de outro idioma. Embora o estudo anglo-japonês tenha focado especificamente no processamento auditivo de domínio geral, os cientistas apontam que o desempenho de um estudante adulto também depende da memória de trabalho, do controle de atenção, da memória procedural, da consciência fonêmica e da quantidade de prática acumulada.

Com base nas evidências obtidas nos laboratórios de Londres e Sendai, os autores defendem mudanças nos métodos pedagógicos tradicionais voltados ao ensino de línguas. “A maioria das pessoas aborda o aprendizado de línguas estrangeiras memorizando vocabulário e ouvindo a fala, mas nosso estudo indicou que os estudantes de idiomas também podem se beneficiar do treinamento das habilidades auditivas que sustentam o próprio aprendizado da língua. O ensino de línguas estrangeiras deve ir além de uma abordagem baseada em ‘mais prática’ e avançar para uma que desenvolva o ouvido dos alunos para o aprendizado de idiomas de acordo com suas características auditivas”, declarou Saito-van Poeteren, em tradução livre.

Limitações dos testes de precisão auditiva e próximos passos

Apesar da correlação identificada entre a percepção de frequências sonoras e o reconhecimento de vogais, a eficácia prática de exercícios auditivos combinados ao ensino tradicional de idiomas ainda não foi confirmada, pois o estudo avaliou os voluntários em um único recorte de tempo e analisou apenas o par de línguas formado por japonês e inglês.

Como desdobramento direto da publicação, a equipe de pesquisadores da University College London e da Universidade de Tohoku anunciou que pretende desenvolver e testar em estudos futuros um novo formato de treinamento integrado de idioma e percepção auditiva, projetado para aprimorar a detecção de diferenças sutis de frequência e de outras propriedades acústicas.

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol