Cientistas da Universidade Harvard identificaram que taxistas e motoristas de ambulância apresentam as menores proporções de mortes atribuídas à doença de Alzheimer entre 443 profissões analisadas nos Estados Unidos. O levantamento avaliou 8.972.221 certidões de óbito de adultos e foi publicado na revista científica The BMJ.
A equipe liderada pelo autor sênior Anupam B. Jena, professor da Harvard Medical School e médico no Massachusetts General Hospital, em Boston, cruzou registros do Sistema Nacional de Estatísticas Vitais dos Estados Unidos. Sem ajuste estatístico, 3,88% (348.328) do total de falecidos tiveram a doença de Alzheimer listada como causa de morte, frente a 171 óbitos entre 16.658 taxistas e 10 mortes entre 1.348 motoristas de ambulância.
Proporção ajustada de óbitos por Alzheimer nas profissões de transporte
Os pesquisadores — incluindo o primeiro autor Vishal R. Patel, do Brigham and Women’s Hospital, e os coautores Michael Liu e Christopher M. Worsham — aplicaram ajustes para idade no óbito, sexo, raça, grupo étnico e escolaridade. O efeito de menor mortalidade não se repetiu para a demência vascular nem atingiu categorias que seguem rotas predefinidas:
- Motoristas de ambulância: 0,91% de mortes atribuídas ao Alzheimer (intervalo de confiança de 95% entre 0,35% e 1,48%), a menor taxa entre as 443 ocupações.
- Taxistas: 1,03% de óbitos pela doença (intervalo de confiança de 95% entre 0,87% e 1,18%).
- População geral estudada: 1,69% no índice percentual ajustado.
- Motoristas de ônibus: 1,65% de mortalidade ajustada (263ª posição no ranking).
- Capitães de embarcações: 2,12% de óbitos ajustados (23ª maior posição).
- Pilotos de aeronaves: 2,34% de proporção ajustada (4ª maior taxa entre as 443 profissões).
Estímulo ao hipocampo e navegação em tempo real contra o Alzheimer
A principal hipótese científica para os números do estudo norte-americano envolve o estímulo contínuo do hipocampo, estrutura cerebral responsável pela memória e pela orientação espacial que figura entre as primeiras áreas a sofrer atrofia na doença de Alzheimer, uma vez que taxistas e condutores de ambulância precisam calcular rotas inéditas e tomar decisões de tráfego em tempo real, ao contrário de profissionais submetidos a itinerários fixos. “Nossos resultados destacam a possibilidade de que alterações neurológicas no hipocampo ou em outras regiões entre taxistas e motoristas de ambulância possam explicar as taxas mais baixas da doença de Alzheimer”, afirmou Anupam B. Jena, em tradução livre.
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“A hipótese dos autores é que existe uma diferença entre repetir uma rota conhecida e precisar construir caminhos variados em tempo real. Uma mudança de destino, uma rua interditada ou um trajeto pouco familiar exigem reorganizar o mapa mental”, disse o psiquiatra e psicogeriatra Gustavo Omena. O psiquiatra Raphael Boechat, professor de Medicina do Centro Universitário UNICEPLAC, destacou que o redirecionamento rápido da atenção mobiliza funções cognitivas distintas. Já a neurologista Mariana Lino explicou que o uso de aplicativos de GPS transfere parte do esforço de orientação para o aparelho, embora não cause prejuízo direto ao cérebro. Taxista desde a década de 1980, Francisco Moreno relatou ter reduzido o uso do aplicativo Waze após notar dificuldade em percursos antes memorizados.
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Cronologia dos estudos sobre memória espacial e Alzheimer
A relação entre o treinamento de rotas urbanas e a estrutura física do cérebro soma mais de uma década de investigações clínicas e populacionais:
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- 8 de dezembro de 2011: As neurocientistas Eleanor Maguire e Katherine Woollett, da University College London (UCL), publicam na revista Current Biology o estudo sobre o exame The Knowledge, que exige memorizar 25.000 ruas em Londres durante três a quatro anos.
- 1º de janeiro de 2020 a 31 de dezembro de 2022: Período das certidões de óbito de adultos com 18 anos ou mais coletadas nos Estados Unidos pelos pesquisadores de Harvard.
- 17 de dezembro de 2024: Publicação original do artigo científico de Harvard na edição especial de Natal do periódico The BMJ.
- 21 de outubro de 2026: Repercussão analítica dos dados de mortalidade e navegação espacial por especialistas médicos no Brasil.
Limitações da pesquisa sobre Alzheimer e prevenção cognitiva
No levantamento de 2011 da University College London com 79 aspirantes a taxistas em Londres, exames de ressonância magnética comprovaram aumento no volume de substância cinzenta na parte posterior do hipocampo apenas nos 39 candidatos aprovados, sem alterações nos reprovados nem nos 31 integrantes do grupo de controle. Apesar dessa capacidade de adaptação, conhecida como neuroplasticidade, tanto a equipe de Harvard quanto os médicos brasileiros ressaltam que o estudo no periódico The BMJ é observacional e baseado em atestados de óbito, o que impede a confirmação de relação direta de causa e efeito ou a garantia de que exercitar a memória espacial impeça o surgimento do Alzheimer.
“Vemos essas descobertas não como conclusivas, mas como geradoras de hipóteses”, declarou Jena, em tradução livre. Para estimular o cérebro fora do trabalho, Lino indica aprender idiomas, tocar instrumentos, dançar, jogar xadrez e controlar pressão arterial, diabetes, colesterol, tabagismo e qualidade do sono.
