Inteligência Artificial na saúde exige cautela em consultas médicas

Telemedicina, consulta médica online - Chay_Tee/ Shutterstock.com

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O uso de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) antes e depois de consultas médicas recebeu quatro diretrizes práticas de segurança divulgadas em 21 de outubro de 2026 pelo cardiologista e diretor médico da Afya, Ronaldo Gismondi. As orientações partem de um levantamento realizado pela Conexa e pela Afya no Brasil, segundo o qual 64% dos pacientes utilizam recursos de IA no dia a dia.

De acordo com os dados da pesquisa, 49% dos pacientes ouvidos recorrem à tecnologia especificamente para tratar de questões de saúde. “A IA pode ajudar o paciente a entender melhor uma situação, mas existe uma diferença importante entre buscar informação e decidir sozinho o que fazer a partir dela”, explicou Ronaldo Gismondi, que também atua como editor-chefe médico do Portal Afya e Whitebook e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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Quatro orientações de Ronaldo Gismondi para o uso de Inteligência Artificial

Foto: Inteligência Artificial, Médico gerado por IA – Summit Art Creations/ Shutterstock.com

Para evitar que a busca por informações digitais comprometa a segurança do tratamento, o diretor médico da Afya estruturou recomendações voltadas ao preparo do paciente e à compreensão do atendimento clínico. A premissa central estabelece que os sistemas automatizados servem para organizar dados e facilitar o diálogo no consultório, mas a definição de diagnósticos e a prescrição terapêutica exigem avaliação profissional presencial ou por telemedicina.

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A primeira orientação médica determina que o paciente utilize a ferramenta tecnológica apenas para estruturar o histórico clínico em uma linha do tempo, abstendo-se de solicitar um diagnóstico ao programa. Uma dor de cabeça, por exemplo, pode estar associada a diferentes condições clínicas, e a interpretação correta depende de fatores como exame físico e histórico detalhado que não estão disponíveis em uma interação automatizada. O usuário deve revisar o resumo gerado antes de apresentá-lo no consultório, corrigindo eventuais erros ou omissões para impedir que o algoritmo filtre por conta própria o que considera relevante.

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“Na consulta, o médico precisa investigar. Às vezes, uma informação que parece irrelevante para o paciente muda completamente as hipóteses que precisam ser consideradas”, afirmou Ronaldo Gismondi. Para montar esse histórico cronológico e formular questionamentos adequados na segunda etapa de preparação, o especialista indica reunir dados objetivos sobre a condição física:

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  • Registro do início, evolução, duração e intensidade dos sintomas observados;
  • Identificação de fatores específicos que parecem agravar ou aliviar o quadro clínico;
  • Relato de doenças prévias, alergias conhecidas e exames realizados recentemente;
  • Listagem completa de medicamentos de uso contínuo ou esporádico e suplementos alimentares;
  • Estruturação de perguntas sobre objetivos de exames solicitados, riscos e benefícios de tratamentos e cuidados necessários na recuperação.

Limites da Inteligência Artificial e riscos de respostas automatizadas

A segunda diretriz foca na transformação de dúvidas e preocupações em perguntas estruturadas para o profissional de saúde, sem confundir uma lista de possibilidades gerada pelo computador com uma avaliação individualizada. Segundo o cardiologista, o programa desconhece a totalidade do histórico da pessoa e pode apresentar hipóteses incorretas com aparência de certeza.

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“A IA genérica tende a concordar com você e utiliza uma linguagem muito natural e educada. Isso pode transmitir a sensação de que estamos diante de uma resposta confiável, quando não necessariamente estamos”, declarou Gismondi.

Já a terceira recomendação aborda o período posterior ao atendimento médico, momento em que o paciente lida com múltiplas instruções sobre mudanças de hábitos e acompanhamento. Nessa fase, os recursos digitais auxiliam na organização das orientações recebidas e no resumo de instruções escritas para identificar pontos que não ficaram claros, mas o usuário não deve delegar à máquina a interpretação definitiva de exames nem a decisão de iniciar, interromper ou modificar um tratamento prescrito. Caso uma resposta automatizada ou encontrada em mecanismos de busca apresente aparente contradição com a conduta médica, a indicação é confirmar a informação diretamente com o profissional ou com a equipe de saúde responsável, além de verificar como a plataforma trata a privacidade dos dados, evitando inserir identificadores pessoais, documentos ou informações clínicas desnecessárias.

Quando a Inteligência Artificial não deve ser usada antes do médico?

A quarta orientação estipula que a consulta a assistentes virtuais não pode funcionar como etapa prévia diante de quadros clínicos agudos, persistentes, recorrentes ou em piora progressiva. Respostas tranquilizadoras emitidas por sistemas digitais não descartam condições que demandam investigação imediata e exame clínico presencial.

O paciente deve procurar atendimento médico ou acionar um serviço de emergência imediatamente, sem aguardar por respostas digitais, quando apresentar manifestações súbitas, intensas ou potencialmente graves, tais como dor no peito, falta de ar importante, alteração do nível de consciência e perda súbita de força ou de sensibilidade no corpo.

“O bom companheiro nas decisões de saúde é o médico que te ouve, entende o que você sente, como reage a isso, e alinha com você um plano de cuidado, que nem sempre é o que se quer, mas é o que é possível e realista”, disse o diretor médico da Afya.

Dados do estudo da Afya e Conexa sobre Inteligência Artificial no Brasil e no exterior

Os números que baseiam as orientações médicas integram o estudo “Panorama do Uso de IA em Saúde: Perspectivas do Médico e do Paciente”, conduzido pelo Research & Innovation Center da Afya (centro de pesquisa e inovação da instituição de educação médica) em parceria com o Conexa Research Center (núcleo de pesquisa da plataforma de telemedicina). Entre os pacientes que relataram usar a tecnologia na área da saúde, as finalidades mais frequentes foram esclarecer dúvidas sobre sintomas, interpretar exames laboratoriais ou de imagem e buscar informações sobre medicamentos.

O levantamento nacional e pesquisas internacionais do King’s College London, no Reino Unido, e da organização KFF, nos Estados Unidos, registraram os seguintes indicadores sobre o comportamento de profissionais e usuários diante dessas ferramentas:

  • 551 médicos e 511 pacientes compuseram a amostra total ouvida no estudo realizado pela Afya e pela Conexa;
  • 78% dos médicos entrevistados no levantamento brasileiro já utilizam IA na prática profissional para pesquisa de medicamentos, apoio à decisão clínica e atualização científica;
  • 67% dos pacientes ouvidos no relatório nacional afirmam preferir conversar diretamente com o médico a utilizar ferramentas de IA;
  • 56% dos pacientes brasileiros declararam que não confiariam em uma consulta médica conduzida 100% por Inteligência Artificial;
  • 15% do público britânico já buscou aconselhamento de saúde em sistemas de IA em vez de procurar o atendimento de atenção primária, segundo o King’s College London;
  • 42% dos usuários de IA para questões de saúde física nos Estados Unidos não procuraram um profissional posteriormente para discutir as respostas obtidas, conforme a pesquisa da KFF.
Jeronimo Santos: Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing