O avanço da transição de carreira no Brasil tem levado executivos, médicos e advogados a abandonar profissões consolidadas para fundar negócios próprios que movimentam cifras milionárias e bilionárias. Apenas no primeiro semestre de 2026, uma das empresas criadas a partir desse movimento de mudança profissional comercializou R$ 1 bilhão em mercadorias no varejo.
De acordo com especialistas de instituições de ensino de São Paulo, o aumento da expectativa de vida e a evolução acelerada de ferramentas como a inteligência artificial tornaram a reinvenção profissional mais frequente. “Mudanças de carreira ocorrem por eventos externos e internos. Os externos podem ser uma demissão, ser preterido em uma promoção, um evento imprevisível, como a pandemia, ou uma nova tecnologia, como a inteligência artificial. Já os internos são uma insatisfação com a trajetória atual, um momento de epifania ou o desejo de explorar novas áreas”, disse Tatiana Iwai, professora do Insper em São Paulo.
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Transição de carreira é impulsionada por longevidade e escolha precoce, dizem USP e Insper
A necessidade de permanecer ativo por mais décadas no mercado de trabalho alterou a relação dos profissionais com cargos que não oferecem retorno pessoal ou bem-estar, segundo avaliação acadêmica. “O aumento da expectativa de vida e as preocupações com a previdência fizeram as pessoas perceber que vão trabalhar por mais tempo, frequentemente até os 80 anos. Isso aumenta a rejeição a ambientes insatisfatórios e incentiva a busca por trabalhos que ofereçam significado e proporcionem saúde mental e bem-estar”, afirmou Tania Casado, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e criadora do Escritório de Carreiras da universidade.
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Para a psicanalista, professora do Insper e mentora de executivos Maria Aparecida Rhein Schirato, outro fator determinante para a mudança de rumo é o momento em que o jovem define sua formação inicial, muitas vezes sem maturidade suficiente para projetar toda a vida laboral. Com o passar dos anos, a percepção de que a profissão escolhida na juventude não corresponde mais às aspirações pessoais funciona como gatilho para a busca de novas áreas de atuação, exigindo o desenvolvimento contínuo de habilidades e o uso da rede de contatos acumulada na função anterior.
Executivos deixam cargos tradicionais e movimentam até R$ 1 bilhão após transição de carreira
A insatisfação com a rotina original motivou o ex-advogado tributarista mineiro Vinicius Alves Abrahão, que chegou a ser sócio de uma banca em Belo Horizonte, a deixar o direito para fundar a Gooxxy, uma greentech (empresa de tecnologia voltada à sustentabilidade). O negócio compra produtos de marcas como Nestlé, Bauducco, Vigor e Danone que estão fora de padrão ou próximos da data de vencimento, mas aptos para consumo, recolocando esses itens em supermercados. Embora o fundador não revele o faturamento líquido da operação, a companhia comercializou R$ 1 bilhão em produtos no primeiro semestre de 2026. “Resolvemos um problema da indústria e permitimos que pessoas de menor renda consumam produtos e marcas desejadas”, declarou Abrahão.
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No setor financeiro e de tecnologia, o administrador André Hamra, natural de Catanduva (SP), formou-se na Wharton School, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, com apoio da Fundação Estudar e do empresário André Street. Após trabalhar por quase sete anos na empresa de meios de pagamento Stone e concluir um mestrado em administração de negócios (MBA) na Universidade Stanford, Hamra abriu mão de um pacote de ações para criar a Refer, plataforma que usa inteligência artificial generativa para conectar candidatos a vagas. “Realizei uma profunda análise pessoal para chegar à conclusão de que meu propósito é ajudar pessoas a fazer o que elas amam”, afirmou o fundador, que foi incluído na lista de jovens de destaque Under 30.
Os números alcançados pelos seis profissionais que realizaram a transição de carreira demonstram o porte financeiro das novas operações:
- Amarílio Macêdo (ZPE Sertão Central): R$ 20 milhões já investidos pelo empresário na implantação de um complexo industrial que ocupará 600 hectares dentro de uma propriedade familiar de 6 mil hectares em Quixeramobim, no Ceará.
- Vinicius Alves Abrahão (Gooxxy): operação em 50 mil metros quadrados divididos por oito centros de distribuição em sete estados brasileiros, além de presença no México e na Colômbia.
- Sergio Janikian (Master Indústria e Comércio): faturamento previsto de R$ 800 milhões para o ano de 2026 com o fornecimento de cerca de 600 itens de material e uniforme escolar via licitações públicas.
- André Hamra (Refer): renúncia a R$ 10 milhões em ações da Stone (condicionadas à permanência de dez anos na empresa) e posterior captação de US$ 2,5 milhões com a venda de 15% da sua startup em 2025, elevando a avaliação de mercado da empresa para US$ 16,7 milhões (cerca de R$ 100 milhões).
- Leila Araújo (Restaurante Lelê): investimento superior a R$ 1 milhão na aquisição e reforma do estabelecimento gastronômico no bairro de Pinheiros, em São Paulo, realizada em 2025.
- Carlos Alberto Atherinos Pierri (Inovamotion): comercialização de 40 unidades do equipamento médico pós-cirúrgico Patello, patenteado em 2021.
Histórico das empresas e expansão internacional após a mudança profissional
A trajetória de transição também ocorre na terceira idade e no setor industrial tradicional. Aos 81 anos, o empresário cearense Amarílio Macêdo transferiu o comando do grupo alimentício J.Macêdo para a terceira geração da família e iniciou um novo projeto de infraestrutura. Na quarta-feira, 19 de agosto de 2026, ele apresentou o projeto da Zona de Processamento de Exportação (ZPE, área de livre comércio com incentivos destinados à produção voltada ao exterior) Sertão Central à Câmara Setorial de Comércio Exterior (CS COMEX) da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece). “O projeto da ZPE Sertão Central é complementar à operação da ZPE Ceará, instalada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém”, afirmou Macêdo, cujo propósito com o empreendimento é ampliar a integração do estado às cadeias de comércio exterior, conectando a produção do interior à estrutura do Pecém por meio da Ferrovia Transnordestina, em um complexo que também prevê um terminal de aviação.
No segmento de vendas governamentais, o industrial Sergio Janikian começou no marketing das antigas Lojas Glória e atuou no setor têxtil no bairro do Brás, em São Paulo, durante a década de 1990. No início dos anos 2000, após uma malharia na qual trabalhava ser desclassificada por falhas documentais em uma concorrência da Prefeitura de São Paulo, ele estruturou uma operação paralela e especializou-se em vendas públicas na Master Indústria e Comércio. Já a executiva paulistana Leila Araújo, nascida no Capão Redondo, acumulou mais de 30 anos em companhias de tecnologia como Novell, Microsoft, Totvs e Google — onde trabalhou por dez anos a partir de 2014 — antes de assumir a gestão do seu restaurante em 2025. “Estou seguindo com a vida executiva, mas com um novo negócio. É desafiador, mas eu uso toda a minha experiência em vendas, organização de equipes, processos e parcerias”, disse Araújo.
A evolução gradual das operações marca os negócios surgidos dessas mudanças. Estruturada formalmente em 2018 como empresa de intermediação, a Gooxxy recolocou R$ 8 milhões em mercadorias naquele primeiro ano e saltou para R$ 90 milhões em 2019. Já a Refer estruturou seu modelo de receita cobrando uma taxa equivalente a 20% sobre o primeiro salário do profissional, paga apenas quando a contratação é efetivada. Na área médica, o ortopedista catarinense Carlos Alberto Atherinos Pierri, especialista em cirurgia de joelho e ex-pesquisador no Hospital for Special Surgery, nos Estados Unidos, fundou a healthtech (startup de tecnologia na área da saúde) Inovamotion. Além do aparelho Patello, que realiza a mobilização automatizada da patela para evitar rigidez articular pós-cirúrgica, a empresa desenvolveu o Sara System, voltado à rastreabilidade e eficiência em centros cirúrgicos.
Para os próximos meses e para o ano de 2027, os empreendedores preveem a ampliação de suas atividades e mudanças na dedicação aos novos negócios. Enquanto a Gooxxy planeja iniciar operações no Chile e na Argentina em 2027, o médico Carlos Alberto Atherinos Pierri prepara a alteração na sua rotina de trabalho entre o consultório e a fábrica. “Dedico até 80% do meu tempo à prática médica e 20% à atividade de empresário, mas logo vou inverter essa proporção”, declarou o ortopedista.

