O sistema Defesa Civil Alerta pode provocar o fenômeno da fadiga de alertas (chamado em inglês de alert fatigue) quando dispara avisos excessivos ou imprecisos nos celulares, o que leva moradores a desativarem ou ignorarem comunicados de emergência. O diagnóstico é do professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Jordan Henrique de Souza, publicado nesta quarta-feira (21).
A avaliação ocorre após cidadãos buscarem instruções na internet, no início de outubro de 2026, com o passo a passo para bloquear o recebimento de notificações da Defesa Civil em aparelhos Android e iPhone. “O problema não é alertar. É preservar algo mais difícil do que a cobertura tecnológica: a confiança”, afirmou Jordan Henrique de Souza.
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Como funciona o Defesa Civil Alerta nos celulares?
A ferramenta utiliza a tecnologia Cell Broadcast (sistema de transmissão via rede de telefonia móvel) para enviar mensagens de texto em formato pop-up — janelas que saltam na tela — e sinais sonoros diretamente para aparelhos conectados às redes 4G ou 5G. O envio alcança celulares compatíveis localizados em áreas mapeadas como de risco, sem exigir que o morador faça qualquer inscrição prévia, mas o excesso de disparos sem perigo visível no entorno imediato reduz a disposição do público para reagir.
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Os avisos da plataforma têm configurações distintas conforme o grau da ocorrência e dividem-se nas seguintes categorias e canais de distribuição:
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- Alerta severo: modalidade voltada a situações que exigem medidas de proteção por parte do cidadão, permitindo configuração no aparelho.
- Alerta extremo: acionado em caso de risco grave e imediato à vida ou à propriedade; faz o telefone tocar um som parecido com o de uma sirene mesmo quando está no modo silencioso e vem ativado de fábrica, sem opção de bloqueio pelo usuário.
- Canais complementares: mensagens tradicionais por SMS (mediante envio gratuito do CEP para o número 40199), aplicativos de mensagens e avisos na TV por assinatura, que operam em paralelo sob responsabilidade das Defesas Civis de estados e municípios.
Fadiga no Defesa Civil Alerta provoca desligamento cognitivo
De acordo com a análise do pesquisador da UFJF, a impossibilidade técnica de silenciar o alerta extremo não garante que a população tome atitudes de autoproteção diante de uma emergência real. Quando os comunicados graves são percebidos pelos moradores como muito frequentes, pouco úteis ou fora da área exata do problema, o efeito prático na rotina é a perda de sensibilidade ao som da sirene e ao texto exibido no visor.
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“Uma pessoa pode não conseguir impedir o celular de tocar, mas pode aprender a ignorá-lo. É uma espécie de “desligamento cognitivo”: o aviso chega, é percebido, mas deixa de produzir atenção proporcional ao risco”, declarou o professor. Ele acrescenta que essa percepção de exagero ocorre mesmo quando o perigo está próximo, mas fora do campo de visão do morador.
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Defesa Civil Alerta soma 2.103 avisos e histórico de invasão
Desde o início da operação oficial até março de 2026, o painel de dados do governo federal registrou 2.103 avisos emitidos pelo Defesa Civil Alerta em todo o país, número que consta apenas no levantamento citado pelo pesquisador. Além do desafio de calibrar a precisão geográfica, o sistema enfrentou problemas de segurança e limitações de monitoramento ao longo de sua implementação.
Em junho de 2026, um ataque cibernético invadiu a plataforma e disparou 10 alertas falsos — sendo 9 por Cell Broadcast e 1 via SMS — contendo expressões como “invasão alienígena”, o que provocou a suspensão temporária do serviço e a abertura de investigação pela Polícia Federal. Outro ponto levantado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional e pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), em fevereiro de 2025, é que a tecnologia utilizada não permite contabilizar quantos telefones recebem de fato as mensagens nem quantos usuários desativaram as notificações severas.
A expansão da ferramenta pelo território brasileiro seguiu o cronograma abaixo desde a regulamentação:
- Outubro de 2022: determinação oficial da Anatel para a criação do sistema de avisos por telefonia móvel.
- 1º de agosto de 2024: início dos testes em projeto-piloto restrito a 11 municípios das regiões Sul e Sudeste.
- 4 de dezembro de 2024: liberação definitiva do serviço para todas as cidades do Sul e do Sudeste.
- 18 de junho de 2025: chegada da cobertura aos estados da região Nordeste.
- 1º de outubro de 2025: conclusão da implantação nacional, passando a atender também as regiões Norte e Centro-Oeste.
Para evitar que os usuários abandonem os canais de emergência, o pesquisador aponta que a gestão dos disparos pelas Defesas Civis estaduais e municipais precisa ir além da entrega técnica nos aparelhos. “Por isso, a resposta não é simplesmente reduzir o número de mensagens. É melhorar a relação entre ameaça, território, momento e orientação”, disse Souza.
