Novo Nordisk e Eli Lilly respondem à Anvisa sobre riscos à visão

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Caneta emagrecedora - colnihko / shutterstock.com Foto: Caneta emagrecedora - colnihko / shutterstock.com

Treze notificações de suspeita de uma lesão rara no nervo óptico estão sob investigação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil entre pessoas que utilizavam medicamentos indicados para diabetes tipo 2 e obesidade. Os registros envolvem os fármacos Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro, pertencentes à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, substâncias que imitam um hormônio intestinal para regular a glicose e o apetite. O quadro avaliado pelos técnicos é a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA-NA), alteração caracterizada pela redução ou interrupção do fluxo sanguíneo nos pequenos vasos que irrigam a parte frontal do nervo óptico, provocando perda repentina e geralmente indolor da visão em um dos olhos, com possibilidade de sequelas definitivas.

Do total de ocorrências em análise pelo órgão regulador, doze estão associadas à molécula semaglutida e apenas uma refere-se à tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. As apresentações com semaglutida dividem-se em cinco relatos ligados ao Ozempic, três ao Wegovy, dois ao modelo Wegovy FlexTouch e dois ao Rybelsus, sendo este último administrado em comprimidos por via oral. Tanto a autarquia federal quanto especialistas médicos enfatizam que o cadastro de um evento adverso configura somente uma suspeita inicial e não atesta vínculo direto de causa e efeito, exigindo a checagem de datas precisas e do prontuário completo de cada indivíduo. “Essa avaliação depende da qualidade e da completude das informações clínicas disponíveis em cada caso, incluindo confirmação diagnóstica, relação temporal, condições clínicas do paciente, uso de outros medicamentos e possíveis causas alternativas”, informou a Anvisa, em nota.

Queixas visuais gerais no painel de farmacovigilância e resposta das fabricantes

O sistema de monitoramento da agência brasileira acumula, além das treze suspeitas específicas de isquemia no nervo óptico, outros 74 comunicados sobre distúrbios visuais variados entre consumidores dessas quatro marcas. Nesse recorte complementar, o comprimido Rybelsus aparece em 22 relatos, seguido pelo Wegovy com 19 menções, pelo Mounjaro com 17 registros e pelo Ozempic com 16 ocorrências. Os sintomas mais descritos pelos notificantes abrangem visão turva, presente em 37 fichas, e comprometimento visual, citado 29 vezes, lembrando que um único formulário pode reunir mais de uma queixa clínica. Na soma histórica iniciada em dezembro de 2018 até agosto de 2026 para todas as classes terapêuticas do mercado, a base de dados contabiliza 24 suspeitas gerais de neuropatia óptica isquêmica. Já o volume global de eventos adversos de qualquer natureza ligados aos agonistas de GLP-1 atingiu 2.965 registros até março de 2026, com 46% desse montante concentrado ao longo do ano de 2025.

Anvisa - - Valter Campanato/Agência Brasil
Foto: Anvisa – – Valter Campanato/Agência Brasil

Consultadas a respeito dos levantamentos oficiais, as indústrias farmacêuticas sustentaram a segurança dos tratamentos comercializados no país. A dinamarquesa Novo Nordisk, detentora dos registros do Ozempic, do Wegovy e do Rybelsus, declarou em comunicado que as revisões de seus próprios ensaios clínicos não apontaram elevação na frequência da patologia ocular com a administração da semaglutida, mantendo uma relação favorável entre benefícios e riscos. Por sua vez, a norte-americana Eli Lilly, responsável pela fabricação do Mounjaro, informou que acompanha de maneira ininterrupta os indicadores de segurança de suas fórmulas em conjunto com as autoridades sanitárias globais.

Pesquisas internacionais sobre risco no nervo óptico e mudança de bula

A discussão acadêmica em torno da saúde ocular de usuários dessas terapias ganhou tração após levantamentos divulgados na publicação científica JAMA Ophthalmology, motivando atualizações sanitárias na Europa e no território brasileiro. Depois de uma revisão conduzida pelo comitê de segurança da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que estimou a frequência do problema em até um caso a cada 10 mil pacientes, a autoridade brasileira determinou a inserção da lesão na bula dos produtos com semaglutida como reação adversa muito rara. Além disso, uma pesquisa da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, publicada na revista Annals of Internal Medicine sob liderança do cientista Chintan Dave, avaliou adultos de 18 a 65 anos com diabetes tipo 2 e identificou de três a quatro casos adicionais de neuropatia óptica isquêmica a cada 10 mil pacientes tratados com agonistas de GLP-1 durante 18 meses.

Continue lendo: Anvisa barra venda de canetas de tirzepatida e retatrutida no país

Apesar dos dados estatísticos observacionais, a medicina ainda não comprovou o mecanismo fisiopatológico exato capaz de desencadear a obstrução vascular pelo uso das substâncias. O principal obstáculo técnico reside no fato de que indivíduos diagnosticados com diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão arterial, taxas elevadas de colesterol ou triglicerídeos (hiperlipidemia) e apneia obstrutiva do sono já carregam uma predisposição natural para sofrer danos nos vasos do nervo óptico, mesmo sem utilizar as injeções ou comprimidos. O secretário-geral do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), Mauro Goldbaum, detalha a complexidade para separar o efeito farmacológico das doenças preexistentes nos estudos disponíveis: “Não se conhece o mecanismo por trás dessa possível associação. Há estudos indicando a associação e estudos que não mostram esses resultados. Mesmo se essa associação seja comprovada, os estudos sugerem que o risco continua sendo muito baixo”.

  • 3 de julho de 2024: levantamento retrospectivo norte-americano com 16.827 prontuários verificou incidência acumulada em 36 meses de 8,9% para a lesão ocular em diabéticos tipo 2 tratados com semaglutida (frente a 1,8% em outras terapias) e de 6,7% em pessoas com sobrepeso ou obesidade (ante 0,8% no grupo de comparação).
  • 20 de fevereiro de 2025: investigação multicêntrica apontou crescimento relativo de aproximadamente 32% na probabilidade do evento durante avaliação de série de casos autocontrolada.
  • 1 de junho de 2025: determinação oficial da Anvisa obrigou a atualização das bulas de medicamentos à base de semaglutida para listar a neuropatia óptica como reação muito rara.
  • 14 de agosto de 2025: revisão por meta-análise concluiu que a molécula não elevou problemas oculares gerais, mas detectou ligação estatística específica para a isquemia óptica (com índice de risco, conhecido como odds ratio, de 3,92) ao cruzar cinco pesquisas com 25.330 voluntários.

Recomendações de sociedades de oftalmologia para pacientes em tratamento

Diante da repercussão dos dados, médicos reforçam a necessidade de triagem clínica rigorosa antes e durante a prescrição das canetas e comprimidos. Em avaliação divulgada na segunda-feira (19), a oftalmologista Liana Tito Francisco, mestre em Neurociências e Comportamento pela Universidade de São Paulo (USP), apontou que o monitoramento médico individualizado é indispensável, especialmente para quem já apresenta alterações prévias na retina. Na mesma linha de cautela, o oftalmologista Rubens Belfort Neto, doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), advertiu contra o consumo estético sem respaldo terapêutico: “Todo remédio tem pequenos riscos e o benefício tem que ser maior do que o risco. Então, se alguém vai tomar esse remédio sem necessidade, só por vaidade, talvez não deva tomar”.

Em posicionamento conjunto, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), a Associação Brasileira de Neuro-Oftalmologia (ABNO) e a Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo (SBRV) esclarecem que os pacientes não devem interromper as aplicações ou o uso oral por iniciativa própria. A diretriz para qualquer pessoa que note perda repentina da capacidade visual, embaçamento persistente ou piora rápida da visão ao longo do tratamento é buscar avaliação oftalmológica de urgência. Caso os exames clínicos confirmem o diagnóstico de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, o protocolo estabelece a suspensão do medicamento à base de semaglutida sob acompanhamento direto do médico responsável.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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