MME descarta volta do horário de verão no ciclo de 2026 e 2027

7 min de leitura
Alterando hora conceito de horário de verão Foto: Alterando hora conceito de horário de verão - Foto: ConstantinosZ/istock

Relógios de todas as regiões do país permanecem sem qualquer adiantamento de uma hora durante o ciclo de 2026 e 2027. O Ministério de Minas e Energia (MME), pasta responsável pelas políticas energéticas da União, descartou a retomada do horário de verão após análises técnicas indicarem ausência de necessidade energética no período. Com a manutenção do fuso padrão em Brasília e nos estados, empresas e trabalhadores continuam livres de alterações sazonais nas jornadas.

Avaliações prospectivas conduzidas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão que coordena a geração e a transmissão de eletricidade, embasaram a decisão governamental. Os relatórios mostraram que a maior exigência de carga na rede ocorre no período da tarde, puxada pelo acionamento de aparelhos de ar-condicionado e refrigeração. Como a demanda principal migrou da noite para o dia, adiantar os ponteiros deixou de representar uma solução estrutural para o atendimento de potência no sistema interligado.

Representantes do transporte coletivo e de estabelecimentos comerciais mantêm o planejamento operacional apoiado na estabilidade dos ponteiros. Levantamento do instituto Datafolha realizado em 2024 mostrou que 60% dos entrevistados preferem o horário invariável ao longo do ano para preservar a organização diária. A posição aproxima a política de fusos do país à de vizinhos sul-americanos como a Argentina e o Chile, nações que suspenderam as mudanças sazonais a partir de 2018.

Deslocamento da demanda para a tarde e geração renovável explicam decisão

Dados operacionais registraram que a demanda máxima de carga chegou a 103.785 megawatts na faixa entre 14h e 17h em fevereiro de 2025. O calor acentuado elevou a exigência diurna sobre a rede e esvaziou o efeito prático de adiantar o expediente oficial. Paralelamente, a ampliação de parques solares e eólicos reforçou a oferta energética justamente nas horas de maior radiação solar, dispensando intervenções nos relógios.

A substituição de lâmpadas convencionais por equipamentos de tecnologia LED no parque industrial e nos domicílios reduziu o consumo noturno em até 20% ao longo dos últimos anos. Análises do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), colegiado que acompanha a segurança do suprimento nacional, apontaram que o ganho obtido com a alteração de horário ficou abaixo de 0,5% do total consumido no país. As conclusões integram o acompanhamento preventivo da Agenda Estratégica Eletroenergética 2026, diante de temperaturas elevadas que bateram recordes históricos medidos desde 1961.

Comércio adapta promoções para o período diurno e integra entregas

Estabelecimentos de centros comerciais urbanos operam com tabelas fixas de atendimento para concentrar o público durante a tarde. Bares e shopping centers, que antes contavam com a claridade natural estendida no começo da noite, passaram a adotar campanhas promocionais vespertinas para sustentar o movimento. Entidades do varejo estimaram uma retração potencial de 10% na circulação noturna de consumidores em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro sem o adiantamento dos relógios.

Veja também: Horário de verão segue suspenso no ciclo 2026 e 2027 após análise do Ministério de Minas e Energia

Redes varejistas direcionaram campanhas publicitárias para o período diurno e reforçaram a logística de entregas rápidas. Agências bancárias e restaurantes acompanham a mesma grade, o que elimina divergências em reservas e atendimentos presenciais. A manutenção do horário único também simplifica a operação do comércio eletrônico, que processa pedidos ininterruptamente por 24 horas sem precisar ajustar sistemas a fusos temporários.

Rotina de trabalhadores, estudantes e plantonistas sem mudanças de turno

Empregados fabris e administrativos preservam a regularidade na entrada e na saída dos turnos, sem o desgaste físico provocado pela mudança nos despertadores. Prestadores de serviços independentes, a exemplo dos motoristas de aplicativos, contam com maior previsibilidade para conciliar a demanda de corridas e os compromissos domésticos. Na agropecuária, o trabalho no campo segue o ciclo da luz solar sem defasagens em relação ao horário comercial das cidades.

A ausência de alterações nos ponteiros durante os meses mais quentes do calendário produz efeitos diretos na organização de diferentes categorias profissionais e escolares:

  • Alunos da rede de ensino mantêm a sincronia entre o início das aulas e as linhas de ônibus escolares.
  • Equipes médicas e de enfermagem cumprem escalas de plantão sem a fadiga associada à perda de uma hora de sono na transição.
  • Operadores logísticos desenham roteiros de distribuição sem a necessidade de recalcular diferenças temporárias de horário entre estados.
  • Escritórios de corporações multinacionais reduzem falhas de agendamento em reuniões e conferências com matrizes no exterior.

Aviação, ferrovias e transporte público operam com tabela única

Sistemas de metrô e frotas de ônibus urbanos nas regiões metropolitanas preservam suas grades de partida, favorecendo o cumprimento dos intervalos entre viagens. Companhias aéreas mantêm a malha de voos nacionais sem precisar reprogramar horários de pouso e decolagem nos aeroportos. Nas estradas, transportadoras de cargas operam com janelas de recebimento padronizadas durante os doze meses do calendário.

Confira também: Horário de verão 2026 é descartado pelo MME e pelo ONS com foco nos leilões de baterias em dezembro

Operadores ferroviários e terminais portuários, que precisavam ajustar turnos às mudanças sazonais em décadas passadas, trabalham com escalas anuais contínuas. Maquinistas e operadores de pátio cumprem jornadas lineares, sem quebras de turno na virada de estação. A medida também estabiliza a diferença de fuso com parceiros comerciais estrangeiros no despacho de mercadorias para exportação.

Trajetória desde 1931 e baixo retorno financeiro nas contas do setor

A primeira edição da mudança horária no país foi decretada em 1 de outubro de 1931 pelo então presidente Getúlio Vargas, vigorando de 3 de outubro daquele ano a 31 de março de 1932 para poupar energia por meio do aproveitamento da luminosidade natural. Aplicada sem interrupções entre 1985 e 2019, a regra adiantava os ponteiros nos meses de primavera e verão nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além do Distrito Federal. O governo federal suspendeu a prática em abril de 2019 depois que levantamentos técnicos comprovaram que a eletrificação moderna e os novos hábitos da população anularam a economia prevista.

Relatórios oficiais do setor elétrico demonstraram que a redução de custos obtida nas últimas edições da medida não ultrapassava R$ 400 milhões por ano. Com os reservatórios das usinas hidrelétricas em níveis estáveis e a expansão da geração solar distribuída em telhados residenciais e comerciais, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, condicionou qualquer discussão futura sobre o tema a situações reais de risco no fornecimento. Enquanto nações da União Europeia seguem debatendo o encerramento de suas mudanças sazonais por motivos de eficiência, analistas elétricos, economistas e médicos apontam que a manutenção do horário único preserva o sono da população, estabiliza o calendário escolar e sustenta a produtividade sem impacto relevante no Produto Interno Bruto (PIB).

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

Notícias relacionadas