Molécula Dsup bloqueia 50% das falhas no DNA após 4 Gy de raios X

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Células 1 - mustafaU/ istockphoto.com Foto: Células 1 - mustafaU/ istockphoto.com

Células humanas cultivadas em ambiente de laboratório apresentam uma queda de 40% a 50% nas rupturas da fita de DNA quando recebem o gene codificador da proteína Dsup. Extraído do tardígrado japonês Ramazzottius varieornatus, esse componente biológico age diretamente no interior do núcleo celular, onde forma uma blindagem física sobre o material genético contra os efeitos da radiação X e do estresse oxidativo.

Cientistas da Universidade de Tóquio, sob a coordenação de Takuma Hashimoto e Takekazu Kunieda, conduziram os experimentos que revelaram esse mecanismo de defesa. Ao comentar a migração bem-sucedida do recurso genético entre organismos distintos, Kunieda destacou a versatilidade do achado biológico. “O surpreendente é que a proteína que confere essa resistência ao tardígrado pode ser transferida para outras células animais”, afirmou o pesquisador.

Ligação direta na cromatina e sobrevivência da linhagem HEK293

Identificada pela sigla de Damage suppressor (supressor de danos, em tradução livre), a proteína Dsup acopla-se diretamente à fita de DNA e aos nucleossomos, estruturas compostas pelo filamento genético enrolado em suportes proteicos. Esse contato físico permanente levanta uma barreira molecular que desativa radicais hidroxila de alta reatividade, reduzindo tanto as lesões mecânicas quanto o rompimento das cadeias duplas provocado por feixes de radiação ionizante.

Para testar a resistência na prática, a equipe inseriu o gene sintetizador da Dsup em cultivos in vitro da linhagem humana HEK293 e submeteu o material a 4 Gy de raios X. Amostras humanas comuns apresentaram destruição severa dos cromossomos e perderam a viabilidade biológica logo após a exposição. Em contrapartida, as culturas modificadas com a proteína mantiveram a capacidade de reprodução e seguiram em divisão celular mesmo sob cargas radiológicas letais para tecidos desprotegidos.

Renderização 3D de células humanas
Renderização 3D de células humanas – Ficta Stock/shutterstock.com

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Medições genéticas da cepa YOKOZUNA-1 e parâmetros dos testes

O mapeamento do Ramazzottius varieornatus e as baterias de radiação em laboratório registraram índices exatos sobre a estrutura do animal e a resposta das culturas celulares:

  • Taxa de contenção de quebras no DNA: recuo de 40% a 50% após exposição à radiação ionizante.
  • Carga radiológica nos ensaios de multiplicação celular: 4 Gy de raios X.
  • Extensão do genoma mapeado do invertebrado: 55 Mb na cepa denominada YOKOZUNA-1.
  • Volume estimado de genes ativos na espécie: entre 15 mil e 20 mil unidades previstas.
  • Dimensão física do tardígrado na fase adulta: variação de 0,1 milímetro a 1 milímetro.

Mapeamento na Universidade de Tóquio e análise estrutural em San Diego

O registro inaugural da proteína Dsup ocorreu em 20 de setembro de 2016, data em que a equipe da Universidade de Tóquio divulgou na revista científica Nature Communications o sequenciamento genômico completo do Ramazzottius varieornatus. A leitura do código genético explicou a sobrevivência desse micro-organismo em ambientes hostis e permitiu que os biólogos separassem genes exclusivos da espécie para testar sua eficácia em células de outros animais.

Três anos depois, em 1 de outubro de 2019, a publicação científica eLife divulgou uma investigação complementar chefiada por James T. Kadonaga, professor de biologia molecular da Universidade da Califórnia em San Diego. O trabalho detalhou a arquitetura bioquímica da Dsup e provou que a maleabilidade da molécula permite seu encaixe direto sobre a cromatina sem travar a transcrição natural dos genes, agindo como uma capa amortecedora contra agentes químicos externos.

Resistência do urso-d’água no vácuo e testes com RNA mensageiro

Conhecidos popularmente como ursos-d’água, os tardígrados têm comprimento entre 0,1 milímetro e 1 milímetro e suportam a desidratação extrema ao entrar em um estágio metabólico dormente chamado criptobiose ou estado de tun. Nessa condição suspensa, os invertebrados toleram o vácuo do espaço, temperaturas vizinhas ao zero absoluto e descargas radiológicas milhares de vezes acima do limite letal para qualquer mamífero.

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Mesmo com o desempenho observado nas placas de laboratório, todas as comprovações científicas limitam-se até o momento a culturas celulares in vitro. A ciência ainda não realizou testes genéticos com a molécula em pessoas, e a substância tampouco garante proteção absoluta contra qualquer nível de radiação. Além disso, a segurança para aplicar a proteína Dsup em tecidos humanos vivos (in vivo) carece de validação em ensaios clínicos regulamentados.

Laboratórios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade de Iowa concentram esforços atuais no desenvolvimento de compostos de RNA mensageiro envoltos em nanopartículas. Os experimentos buscam induzir uma produção temporária da Dsup em roedores para verificar se a técnica consegue resguardar órgãos saudáveis durante sessões de radioterapia voltadas ao tratamento de tumores.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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