Unicamp valida teleavaliação muscular e reduz idas de paraplégicos a clínicas

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PCD, homem na cadeira de rodas - eopleImages/ istockphoto.com Foto: PCD, homem na cadeira de rodas - eopleImages/ istockphoto.com

A necessidade de deslocamento até consultórios e centros médicos deixou de ser um obstáculo obrigatório para o acompanhamento motor de pacientes com paraplegia. Uma investigação conduzida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) demonstrou que o Teste de Tríceps em Cadeira de Rodas realizado a distância, mediante chamada de vídeo sincronizada, entrega o mesmo grau de exatidão e confiabilidade obtido nas consultas presenciais.

Com resultados divulgados em 30 de setembro de 2026, o trabalho científico verificou quantas vezes o indivíduo consegue erguer o próprio tronco durante uma janela cronometrada de 30 segundos enquanto sustenta o peso corporal com as mãos sobre os apoios laterais do equipamento. Os testes ocorreram no Centro de Pesquisa e Inovação em Equidade, Educação Física Inclusiva e Esporte Paralímpico, vinculado à Faculdade de Educação Física da Unicamp e mantido com recursos financeiros da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Execução em meio minuto dispensa aparelhos extras no atendimento online

O protocolo de teleavaliação opera de maneira direta: basta estabelecer uma ligação de vídeo em tempo real entre o usuário da cadeira de rodas e o avaliador da área da saúde, sem exigir sensores externos, pesos ou maquinário clínico na residência. Durante o atendimento virtual, a pessoa apoia ambas as mãos nos braços de sua própria cadeira e executa repetições contínuas de elevação e descida do corpo pelo período de meio minuto, enquanto o especialista acompanha a postura e contabiliza os movimentos pela tela.

A medição serve para quantificar o vigor funcional dos membros superiores, capacidade física que define o grau de independência do paciente em tarefas domésticas e comunitárias, a exemplo da passagem sem ajuda do assento de rodas para o leito, para o banco de um automóvel ou para o vaso sanitário. Quando a contagem revela queda no rendimento muscular, a equipe clínica recebe um indicativo imediato para recalibrar a carga de exercícios terapêuticos e evitar que o quadro evolua para a perda de autonomia cotidiana.

Parâmetros metodológicos do experimento conduzido em Campinas

  • Unidade responsável pela investigação: Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
  • Órgão de fomento científico: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)
  • Revista acadêmica de veiculação: Disability and Rehabilitation: Assistive Technology
  • Tempo fixado para cada série motora: 30 segundos sem pausa
  • Volume de coletas por voluntário: quatro baterias, divididas entre duas em laboratório e duas por vídeo
  • Amostra populacional avaliada: 20 indivíduos diagnosticados com lesão medular e paraplegia
PCD, pessoa com deficiência
PCD, pessoa com deficiência – Foto: vadimguzhva/ Istockphoto.com

Monitoramento do vigor nos braços orienta ajustes no treino e dribla barreiras urbanas

Para o doutorando em educação física na Unicamp e autor principal da publicação, Rogério Virgínio dos Santos, o desempenho registrado na avaliação funciona como um indicador direto do progresso alcançado nas sessões de reabilitação. A investigação acadêmica também traz a assinatura dos coautores Renato Barroso e José Igor V. Oliveira, ambos pesquisadores integrantes da Faculdade de Educação Física da instituição sediada em Campinas.

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“Por isso, ele funciona como um termômetro para que fisioterapeutas e educadores físicos possam aferir a força funcional, um fator importante para a autonomia da pessoa com lesão medular. Com base nos resultados, o educador físico ou fisioterapeuta pode decidir se precisa intensificar o treino de força ou mudar a estratégia de reabilitação. Caso sejam detectados baixos níveis de força, é possível prever dificuldades em realizar as atividades diárias”, disse Rogério Virgínio dos Santos.

Na avaliação da professora Maria Luíza Tanure Alves, que coordena o centro de pesquisa da Unicamp, a comprovação técnica do formato virtual alivia um gargalo enfrentado por quem precisa circular pelas cidades. De acordo com a docente, a combinação de calçadas danificadas e frotas de transporte público sem adaptação adequada frequentemente atrasa o cronograma clínico ou leva à interrupção do tratamento de pessoas com paraplegia submetidas exclusivamente a regimes presenciais.

“É um teste simples, sem equipamentos, mas de grande utilidade para avaliar a força dos membros superiores, a autonomia no dia a dia e, sobretudo, a evolução do trabalho de reabilitação. O mais importante é que a possibilidade de aplicá-lo por videochamada permite acompanhar o paciente com mais frequência e sem deslocamentos desnecessários. O trajeto até o centro de reabilitação pode ser um grande obstáculo para pacientes, pois a acessibilidade nas cidades com calçadas impróprias e ônibus não adaptados pode ser um complicador para o tratamento”, declarou a professora Maria Luíza Tanure Alves.

Comparação com testes de laboratório supriu falta de evidências na literatura médica

O ponto de partida da equipe paulista foi a constatação de que o acervo científico global não dispunha de provas consolidadas sobre a exatidão de exames motores aplicados remotamente em populações com danos na medula espinhal. Apesar da disseminação das consultas online em múltiplas especialidades médicas ao longo dos últimos anos, a mensuração de força em usuários de cadeira de rodas permanecia atrelada ao consultório físico por ausência de estudos comparativos padronizados.

Para suprir essa falta de dados, o protocolo desenhado na Unicamp confrontou as marcas obtidas dentro do laboratório com os números registrados por chamada de vídeo nos mesmos 20 participantes que finalizaram o circuito de quatro baterias. O estudo com a demonstração de equivalência estatística entre as modalidades presencial e remota foi publicado em 4 de abril de 2026 nas páginas do periódico internacional Disability and Rehabilitation: Assistive Technology.

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“O estudo preenche essa lacuna ao demonstrar que um teste funcional amplamente utilizado pode ser aplicado remotamente com rigor científico”, afirmou Maria Luíza Tanure Alves sobre a validade metodológica comprovada pelo grupo.

Adoção clínica por equipes de saúde e planos de automação com sensores

Com a metodologia referendada, centros de reabilitação e profissionais credenciados de fisioterapia e educação física passam a dispor de respaldo técnico para agendar baterias periódicas de vídeo com pacientes paraplégicos, ajustando as rotinas de exercícios sem custos de locomoção ou dependência de transporte adaptado. A aplicação prática do exame requer o acompanhamento ao vivo de um especialista habilitado para orientar e validar a execução do movimento.

Nas próximas fases da linha de pesquisa, o grupo da Unicamp pretende expandir o número de voluntários submetidos ao protocolo de avaliação a distância. Os cientistas também avaliam integrar sensores de captura de movimento e ferramentas de contagem automatizada às futuras etapas de testes remotos, mas ainda não há data definida para o início dessas implementações tecnológicas.

Manuela é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2015

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