Cinco mudanças coordenadas de rotina adaptadas à realidade econômica latino-americana elevaram em 55% a cognição global de idosos sob risco de desenvolver demência, segundo os resultados do ensaio clínico LatAm-FINGERS. Os dados foram apresentados pela diretora científica e responsável por assuntos médicos da Alzheimer’s Association (organização internacional voltada à pesquisa e ao apoio em demências), María C. Carrillo, e demonstram que os voluntários preservaram o desempenho mental de maneira contínua ao longo de dois anos de monitoramento.
Ao todo, a investigação reuniu 1.065 pessoas com idades de 60 a 77 anos em 11 países da América Latina, entre eles Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e México. O protocolo reuniu plano alimentar baseado na dieta MIND (padrão nutricional desenhado para a proteção neurológica), prática regular de exercícios físicos, monitoramento médico estrito de fatores de risco cardiovasculares, atividades de estímulo cognitivo e encontros de convívio em grupo, registrando resultados superiores aos do grupo de controle, que recebeu apenas orientações gerais de saúde.
Mais de 82% dos inscritos cumpriram os dois anos de acompanhamento
O índice de permanência dos voluntários chegou a 82,3% ao final dos 24 meses previstos pelo desenho experimental do estudo. Segundo os cientistas envolvidos na iniciativa, o apoio recíproco e os encontros frequentes entre os participantes foram determinantes para evitar a desistência precoce e fixar as novas práticas de cuidado na rotina diária dessa faixa etária.
“Neste momento não podemos concluir que os comportamentos propostos no programa LatAm-FINGERS atrasem a demência, mas constituem o primeiro passo. Em idosos com alto risco de demência, não apenas melhoramos a cognição, mas a mantivemos por dois anos”, afirmou María Carrillo, em tradução livre do espanhol sobre os dados do ensaio.
“O efeito da intervenção social nos participantes desta proposta foi decisivo para fomentar a adesão; além disso, o acompanhamento que financiamos pela Alzheimer‘s Association tem sido de quatro anos”, declarou a diretora científica ao detalhar o período estendido de observação voltado a medir a permanência dos hábitos adquiridos.
Números e critérios aplicados na pesquisa clínica
O levantamento multiprofissional estabeleceu parâmetros padronizados de seleção e acompanhamento para comparar a resposta dos pacientes submetidos à rotina intensiva com a daqueles que receberam apenas recomendações habituais em consultório. Os indicadores principais do trabalho reúnem os seguintes dados:
- Público avaliado: 1.065 participantes monitorados clinicamente com fatores de risco para declínio mental.
- Recorte de idade: adultos na faixa de 60 a 77 anos no momento do ingresso.
- Cobertura territorial: 11 nações da América Latina, com centros no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia e no México.
- Resultado comparativo: evolução cognitiva global 55% maior diante do grupo que recebeu instruções médicas convencionais.
- Tempo de manutenção: dois anos seguidos de conservação dos ganhos cognitivos medidos.
- Índice de retenção: 82,3% dos voluntários concluíram integralmente todas as fases previstas no protocolo.
Cardápio regional acessível e coordenação científica no Brasil e na Argentina
A metodologia do LatAm-FINGERS buscou alternativas compatíveis com a renda das famílias da região, descartando cardápios de custo elevado ou baseados em itens difíceis de encontrar no comércio local. No lugar de produtos importados, as equipes nutricionais recomendaram alimentos presentes na produção sul-americana e latino-americana, a exemplo do consumo regular de abacate e da substituição pontual do arroz branco pela quinoa, preservando os princípios da dieta MIND, que une referências da culinária mediterrânea voltadas à proteção do cérebro.
A condução geral da pesquisa ficou sob a responsabilidade da chefe de Neuropsicologia do instituto Fleni, na Argentina, Lucía Crivelli, ao passo que o professor de Neurologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Paulo Caramelli, liderou as unidades de avaliação instaladas no Brasil. Os dois pesquisadores desenharam metas progressivas para que os participantes mantivessem tanto as sessões de exercícios físicos quanto as revisões clínicas cardiovasculares sem interrupção ao longo dos meses.
Como o controle vascular e a reserva cerebral atuam nas demências
O acompanhamento de taxas metabólicas e da circulação sanguínea ocupa posição central no protocolo por interferir diretamente na irrigação dos tecidos cerebrais. Quadros de demência vascular decorrem de lesões nos vasos sanguíneos provocadas por pressão arterial fora de controle, colesterol elevado, diabetes e sobrepeso, e a estabilização clínica desses índices reduz as agressões isquêmicas contínuas sobre o encéfalo.
Já a doença de Alzheimer tem origem biológica distinta, marcada pelo depósito progressivo e tóxico das proteínas beta-amiloide e tau entre os neurônios. Mesmo que a mudança no estilo de vida não bloqueie a formação dessas moléculas no cérebro, María Carrillo explica que o conjunto de hábitos amplia a reserva funcional da rede neural, oferecendo maior capacidade de resistência às estruturas nervosas antes que surjam sintomas severos de perda de memória.
Levantamentos epidemiológicos indicam que o Brasil soma 2,46 milhões de moradores com mais de 60 anos vivendo com algum tipo de demência. As estimativas apontam ainda que aproximadamente 80% dos pacientes brasileiros com essas enfermidades neurodegenerativas não têm diagnóstico médico formal, quadro que limita o início de cuidados preventivos e o acompanhamento nas unidades de atenção primária à saúde.
Origem na Finlândia e apresentações científicas em Londres e Buenos Aires
O projeto latino-americano faz parte da rede global World-Wide FINGERS, criada a partir do estudo pioneiro conduzido na Finlândia no começo da década de 2010 e expandida em seguida pelo ensaio clínico U.S. POINTER, nos Estados Unidos. Os dados consolidados da etapa regional foram expostos em 12 de julho de 2026, durante a Alzheimer’s Association International Conference, realizada em Londres, com publicação simultânea na revista médica The Lancet.
Posteriormente, em 16 de setembro de 2026, às 8h, o encontro regional Brain Health and Cognition in Latin America reuniu representantes da Alzheimer’s Association e do World Dementia Council em Buenos Aires para discutir a incorporação dessas práticas em programas governamentais de saúde. Dez dias depois, em 26 de setembro de 2026, María Carrillo divulgou informações complementares sobre os indicadores de resiliência cognitiva, antecedendo as discussões voltadas à medicina preventiva apresentadas em 30 de setembro de 2026.
Os pesquisadores apontam que ainda não existem dados concluídos de observação além da janela de dois a quatro anos para atestar, do ponto de vista estatístico, se a mudança de rotina impede de modo definitivo o surgimento clínico da demência no longo prazo. Novos exames laboratoriais e levantamentos populacionais seguem em execução para medir a evolução dos voluntários nos próximos anos.
