A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e médicos endocrinologistas alertaram nesta sexta-feira (23) sobre os riscos dos peptídeos injetáveis vendidos ilegalmente nas redes sociais sem comprovação científica. Pelo menos 5 substâncias divulgadas na internet para ganho muscular e estética — BPC-157, TB-500, GHK-Cu, CJC-1295 e ipamorelina — não possuem registro como medicamento, suplemento alimentar ou cosmético no Brasil.
A procura por essas substâncias cresceu nos consultórios médicos e em plataformas digitais como TikTok e Instagram após a popularização das canetas injetáveis regularizadas para obesidade e diabetes. “A febre veio na carona da semaglutida e da tirzepatida. Esses remédios funcionam de verdade para obesidade e diabetes, e isso criou um raciocínio torto: se um peptídeo injetável emagrece, qualquer peptídeo injetável deve emagrecer, ou dar músculo, ou rejuvenescer. Não funciona assim”, afirmou André Câmara de Oliveira, endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP).
Proibições da Anvisa e substâncias alvos de fiscalização em 2026
Ao longo do segundo semestre de 2026, o órgão regulador federal intensificou as ações contra o comércio eletrônico clandestino dessas moléculas e esclareceu as normas sanitárias vigentes no território nacional. Pela Instrução Normativa 28/2018 da Anvisa, nenhum suplemento alimentar no país pode ser administrado por via injetável, categoria que é restrita exclusivamente ao uso por via oral. Mesmo assim, vendedores anunciam ampolas e canetas ilegais sob o rótulo de suplementos ou produtos para pesquisa.
- 2 de julho de 2026: publicação de alerta oficial da Anvisa informando que os 5 peptídeos injetáveis BPC-157, TB-500, GHK-Cu, CJC-1295 e ipamorelina não têm registro sanitário em nenhuma categoria no Brasil.
- 23 de setembro de 2026: emissão de comunicado da agência reguladora avisando que a manipulação caseira de tirzepatida divulgada na internet não oferece segurança.
- 6 de outubro de 2026: resolução publicada no Diário Oficial da União proibindo a comercialização e o uso de peptídeos sem registro no site Peptídeos Pro, além de lotes irregulares de insulina glargina distribuídos sem autorização de funcionamento.
- 14 de outubro de 2026: determinação de apreensão e proibição da fabricação, importação, distribuição, propaganda, venda e uso de canetas e frascos de tirzepatida e retatrutida anunciados nos sites Peptídeos do Brasil, Oxygen KWP Pharma Brasil e ZPHC Store.
Entre os itens apreendidos em outubro está a retatrutida, molécula desenhada para atuar sobre três mecanismos hormonais simultâneos: o GLP-1 (hormônio que participa da regulação do apetite e da glicemia), o GIP e o receptor de glucagon. A substância, contudo, encontra-se apenas em fase de estudos clínicos e não tem aprovação para uso ou venda em nenhum país do mundo.
O que são os peptídeos e como funcionam os medicamentos aprovados?
Na biologia humana, os peptídeos são moléculas formadas por cadeias de aminoácidos — compostos orgânicos unidos por ligações peptídicas — que as células produzem a partir do DNA ou da quebra de proteínas maiores. Depois de sintetizados pelo corpo, eles se dividem em fragmentos menores e dão origem aos peptídeos biologicamente ativos, que se conectam a receptores na membrana das células para regular a glicemia (quantidade de glicose no sangue), a digestão, o apetite, a cicatrização, a resposta imunológica, o crescimento, a reprodução e a reação ao estresse. Até o ano de 2022, pesquisadores haviam caracterizado aproximadamente 300 peptídeos humanos com atividade biológica, segundo estudo citado na revista científica Nature Communications.
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Para explicar a estrutura dessas moléculas, o biólogo, mestre e doutor em fisiologia Gustavo David dos Santos, professor do American Academy Health da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), compara a formação química a um jogo de encaixe. “O peptídeo é como se fosse um quebra-cabeça. E cada peça desse quebra-cabeça é como se fosse um aminoácido. Então, o quebra-cabeça é o peptídeo e as peças são os aminoácidos”, disse Santos. Sobre a conexão com os receptores celulares, o pesquisador acrescentou: “É um mecanismo comumente chamado de chave-fechadura. O peptídeo é como se fosse uma chavezinha, que tem uma fechadura específica à qual se liga para gerar uma mudança na função celular”.
A síntese dessas cadeias em laboratório começou no século 19, quando o químico alemão Theodor Curtius produziu em 1881 a primeira molécula unindo dois aminoácidos artificialmente. Esse avanço permitiu criar cópias idênticas às naturais ou moléculas modificadas, chamadas de análogos, que contam com estudos clínicos de segurança e aprovação sanitária para tratar doenças específicas. Entre os medicamentos à base de peptídeos regularizados estão a insulina (para controle do diabetes), o glucagon (usado em casos de hipoglicemia grave, quando há queda acentuada do açúcar no sangue), a semaglutida e a tirzepatida (aprovadas para diabetes tipo 2 e obesidade), a teriparatida (análogo do hormônio da paratireoide indicado para osteoporose) e a octreotida e a lanreotida (análogos do hormônio somatostatina aplicados contra tumores neuroendócrinos e acromegalia, distúrbio de crescimento ósseo anormal).
Riscos de infecção por peptídeos ilegais e alerta sobre manipulação
O uso de compostos sem registro para fins estéticos ou de desempenho físico expõe o paciente a falhas de fabricação e a efeitos adversos graves na própria fisiologia. De acordo com Gustavo David dos Santos, não existem estudos robustos que comprovem a eficácia dessas fórmulas para ganho estético ou esportivo. Além de provocar aumento da pressão arterial, alterações na glicemia, inchaço, náuseas, dores nas articulações e desequilíbrios hormonais, as ampolas clandestinas trazem risco direto no momento da aplicação. “Um produto comprado pela internet, muitas vezes rotulado como ‘uso em pesquisa’, pode vir com dose errada, contaminado, com outra substância no lugar ou sem esterilidade. Em injetável, isso pode virar infecção, abscesso ou reação alérgica”, declarou André Câmara de Oliveira.
A automedicação por meio de encomendas em redes sociais também atrasa o início do tratamento adequado para patologias reais. “Cansaço, perda de músculo, barriga crescendo, libido baixa… tudo isso pode ser diabetes, apneia do sono, hipotireoidismo, depressão, deficiência nutricional ou efeito de algum remédio. Quem resolve ‘tratar’ com uma caneta comprada pelo direct perde um tempo precioso de diagnóstico”, afirmou o diretor da SBEM-SP. Para evitar fraudes, o médico orienta desconfiar de produtos vendidos por mensagens diretas sem consulta médica, que prometem múltiplos efeitos simultâneos, utilizam fotos de antes e depois como prova científica, citam testes restritos a animais ou alegam aprovação genérica na FDA (agência reguladora dos Estados Unidos) sem registro na Anvisa.
A preocupação das entidades médicas alcança ainda as versões manipuladas de princípios ativos conhecidos. Em fevereiro de 2025, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) emitiram uma nota conjunta contra o uso de versões alternativas ou manipuladas de análogos de GLP-1 e GIP, apontando a falta de testes de bioequivalência (comprovação de que o produto age de forma idêntica ao medicamento original), a instabilidade térmica das moléculas peptídicas e relatos de eventos graves como hipoglicemias e pancreatite (inflamação no pâncreas). “Manipular não é errado nem ilegal. Mas manipular uma substância que não tem estudo não cria o estudo. Ela continua sem evidência, só que agora num frasco com rótulo bonito”, disse Oliveira. Em 2026, após a Anvisa proibir a manipulação da semaglutida no país, a SBEM solicitou oficialmente que a agência estenda a mesma proibição para a manipulação da tirzepatida. Pacientes que desejam verificar se um medicamento à base de peptídeo tem autorização legal no Brasil podem consultar gratuitamente a base de dados oficial da Anvisa pelo nome do produto ou do princípio ativo antes de iniciar qualquer tratamento prescrito por médico.
